Tuesday, September 24, 2024

A Última Noite de Lua Minguante

O sono tranquilo de Selene foi dilacerado com o baque de uma onda de energia. Abriu os olhos com o susto e sentiu o coração acelerar como se fosse explodir. Sentou-se na cama, respirando devagar e sentindo todo o corpo tremer como nunca tremeu na vida.

O quarto estava escuro, mas ela conseguia enxergar uma fraca luz entrando pela enorme janela ao lado da cama. Apoiando-se na cabeceira e depois no vitral, ela olhou para fora, vendo uma fina lua a pino no céu.

Entendendo o que estava acontecendo, a fada urrou de raiva. Que hora para festejar e ser liberta do anel, logo antes da noite em que sua magia fica mais forte.

Ela se sentia tão poderosa quanto uma deusa, a magia se remexendo dentro dela com afinco, querendo sair de qualquer forma. Outrora, aguardava estes dias com ardor. Sua raiva e ódio serviam tanto como amplificadores quanto como ferramentas de foco para esse poder, o que a tornava invencível. Mas nunca havia recebido tanta energia em toda sua existência e, sem esses sentimentos pulsando em seu coração, ela se transformara em uma bomba-relógio e sabia disso.

Precisava sair dali antes que a instabilidade a dominasse.

Sem tempo de sair do prédio da maneira convencional, ela abriu a janela com o máximo de controle e se atirou na noite.

O primeiro bater de suas asas estourou o vitral. Com os ouvidos zumbindo e voando para frente com a velocidade de um míssil, Selene olhava freneticamente para cima e para baixo à procura de algum lugar onde pudesse descarregar seu poder.

Sentia a magia irradiando ao seu redor, não havia tempo de sair dos limites da cidade e não conseguiria direcioná-la para nenhuma direção. Ela precisava se trancar ou se enterrar em algum lugar para explodir.

Se enterrar…

Selene virou à direita em direção à Tumba Inquieta, uma construção relativamente solitária que observava a cidade no topo de um dos inúmeros penhascos que cercavam a cidade com suas paredes brancas e telhado dourado.

Sobrevoou a única e humilde casinha construída nas proximidades da tumba, esperando muito que estivesse vazia e aterrissou o mais perto da enorme porta de mármore trancada por um pesado pedaço de madeira. O mesmo símbolo do pingente do colar que estava ao redor de seu pescoço estava gravado acima da porta.

Esperava que aquele feitiço desse conta.

Com um chute, ela quebrou a tranca e correu para dentro da tumba, fechando a porta com o peso de seu corpo.

Lá dentro, gritou.

A estrutura estremeceu.

Ela caiu de joelhos no chão, mas continuou gritando.

O interior da tumba esquentou e seus pulmões arderam com um cheiro de fumaça que não sabia de onde vinha, mas permaneceu gritando.

Só parou quando seu corpo perdeu todas as forças e colapsou no chão coberto de poeira e escombros dourados em chamas.

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Altador saltou da cama com o estrondo. Na confusão do sono, pensou que um raio tinha caído em seu telhado, mas então viu pela janela um enorme projétil de luz púrpura atravessando o céu em direção à lua.

Ainda de pijama, saiu de casa para averiguar melhor o acontecido quando sentiu cheiro de fogo. Foi então que viu a Tumba Inquieta sem teto e rodeada de uma fumaça preta.

Alarmado, Altador foi correndo em direção à construção.

Subindo das escadas também rachadas, abriu as portas com dificuldade e tossiu pelo cheiro de enxofre que o atingiu ao fazê-lo. O interior da tumba estava totalmente destruído, com pedaços de telhado chamuscados por todos os lados, fazendo seus olhos arderem.

Então seu sangue gelou.

Na sua frente, desacordada no chão e coberta de fuligem, estava Selene. Sem pensar duas vezes, ajoelhou-se e tomou-a nos braços, retirando a fuligem de seu rosto e colocando dois dedos em seu pescoço, esperando que ainda estivesse viva.

Respirou aliviado quando sentiu pulso. Era fraco, mas estava ali. Ela iria conseguir.

Carregando-a consigo, ele voltou para casa às pressas.

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A primeira visão de Selene foi um teto branco simples.

Ela estava deitada em cima de lençóis ásperos e finos. Seus olhos pesavam e sua visão alternou entre o teto branco e escuridão total algumas vezes.

Obrigou-se a sentar para permanecer consciente. Não havia cabeceira, mas a cama simples ficava encostada em uma parede também branca, a qual lhe serviu de encosto.

O quarto onde estava parecia uma versão mais simples do que estava usando no prédio do Conselho. Enquanto aquele era decorado com detalhes dourados no teto, na porta e nos rodapés, além de um lindo vitral na janela, este era apenas um quarto branco com uma porta de cor sólida, uma cama, um armário e um conjunto de mesa e cadeira.

Apesar de humilde, o quarto estava excepcionalmente arrumado, sem um grão de poeira nem no chão nem na janela à sua frente, com exceção da cama, que estava estranhamente imunda.

Foi quando olhou para suas próprias mãos e roupas encardidas, reconhecendo-se como a origem da sujeira e lembrando de onde estava antes de acordar ali.

Um calafrio percorreu sua espinha e ela imediatamente buscou por ferimentos em seu corpo, mas felizmente nada encontrou. Segurou seu amuleto de sol e lua, que também estava intacto, apesar de um pouco arranhado.

Então a porta se abriu, revelando um Altador com roupas de camponês sujas de fuligem portando uma xícara de chá, uma cambuca de água fumegante e uma toalha.

“Ah, graças à Fyora você acordou!”, suspirou com alívio genuíno. “Consegue se lembrar do que aconteceu?”

Selene sentiu-se incomumente encabulada ao vê-lo daquele jeito. Não sabia se era a imundice ou o estado de simplicidade que se apresentava, mas tinha a impressão de estar de alguma forma invadindo a privacidade do homem, apesar de sua postura calorosa e solícita.

“Erm…”, sua garganta estava seca, o que lhe provocou um acesso de tosse. Altador lhe ofereceu o chá, o qual bebericou antes de tentar falar novamente. “E…eu tive uma sobrecarga de energia e fui para a Tumba Inquieta explodir para não destruir a cidade.”

As sobrancelhas de Altador se arquearam e ele olhou para o céu através da janela.

“Sua sobrecarga tem alguma relação com a lua?”, Altador perguntou, virando-se para ela.

“Bom… Sim”, ela tomou mais um pouco de chá. “Como você sabe?”

Altador franziu o cenho, hesitante em prosseguir.

“Há uma cratera nova em Kreludor…” ele começou. “Causada por um raio de luz púrpura que parece ter vindo da Tumba.”

Selene quase deixou o chá cair em cima de si mesma.

“O feitiço…”, ela pensou alto. “Mandou a magia de volta para a fonte…”

“A fonte de seu poder é a lua?”, Altador ofereceu-lhe a cambuca com água e a toalha que ainda carregava. “Nós nunca… conseguimos falar muito sobre isso. Lembro de você ter me dito que ‘era complicado’, mas também prometeu que me explicaria um dia. ”

“E você quer que esse dia seja hoje?”, ela disse com um ar cansado, mergulhando a toalha na água morna. O homem deu um leve sorriso e assentiu.

A fada soltou um grunhido impaciente e pôs a toalha sobre o rosto.

“Muito bem, é melhor você sentar então”, sua voz soava abafada pela toalha.

Ouviu o arrastar de uma cadeira e tirou a toalha dos olhos para ver Altador sentado à sua frente com olhos brilhando de ansiedade. Não conseguiu reprimir um leve riso. Há muitos anos, quando se conheceram, o jovem Altador a olhava deste mesmo jeito toda vez que via a chance de vislumbrar um pouco da história ou de conhecimento feérico. Lavou-se rápida e superficialmente antes de começar a contar a história que ele esperou milênios para ouvir:

“Ninguém, nem mesmo as fadas, sabe o que faz uma de nós… surgir”, ela olhava nos olhos do amigo, repletos de curiosidade. “Mas todas nós sentimos uma conexão com um evento.”

“Evento?”, ele a interrompeu. “Não seria elemento?”

“Essa classificação que vocês dão a nós vem da categorização desses eventos em em elementos”, explicou. “Como os eventos ditam nossa aparência, geralmente funciona, mas nem sempre. É fácil agrupar todas as fadas sereias como fadas da água, por exemplo. Realmente, vieram de eventos relacionados à água, mas assim também foi com Taelia, que não é uma sereia. Assim, ela não é considerada uma ‘fada da água’ por vocês, mas a fada da neve. Ela não é especial por isso, só não encontrou lugar em um sistema simples de 6 categorias.”

“Então se o sistema fosse mais complexo, você poderia ser considerada uma ‘fada da lua’?”, Altador enganchou a pergunta.

“Eu definitivamente preferiria ser uma fada da lua à uma fada das trevas”, ela riu desgostosa. “Mas ainda assim seria impreciso.”

Ela pausou, esperando Altador reagir para continuar.

“Então qual é esse… evento conectado a você?”, ele indagou.

“É quando a última lua minguante do ciclo está a pino”, ela disse de um jeito um pouco dramático, sintetizando a imagem em sua mente ao máximo. “Eu me sinto mais forte nessas noites, mas hoje tive aquela sobrecarga, provavelmente porque o anel interrompeu a conexão por muito tempo.”

Altador assentiu, os olhos brilhantes se apagando e retornando ao seu habitual semblante sério, refletindo sobre a informação por um momento.

“Não sei como vamos explicar a situação para a mídia e para os habitantes de Kreludor…”, ele colocou a mão na testa. “Espero que ninguém tenha ficado ferido.”

Selene se entristeceu com a partida do amigo e com o retorno do ‘rei’, além de não querer pensar em que tipo de notícias e reações surgiram no dia seguinte.

“Mas voltando à história”, ela recomeçou, tentando trazê-lo de volta. “Nem toda repetição de evento dá mais poder à fada conectada a ele.”


Altador ainda carregava uma expressão preocupada no rosto, mas parecia estar escutando.

“Na verdade, nem todo evento sequer se repete!”, ela se preparou para colocar uma pulga atrás da orelha dele. “Já ouvi falar que a fada do espaço, Mira, tem uma ligação com o próprio big bang.”

 “Mas…” ele mordeu a isca, o rosto instantaneamente suavizando. “Como ela sabe?”

“Essa é a parte mais misteriosa”, ela sorriu, triunfante. “De alguma forma, nós temos a imagem do nosso evento gravada nas nossas memórias, junto com nossos nomes. Não sabemos o que ou quem faz isso, mas é algo que toda fada tem.”

Selene via a curiosidade de seu amigo sendo atiçada e querendo dominá-lo, mas Altador parecia resistir.

“Tudo isso é muito interessante, mas…”, ele suspirou. “Preciso pensar no que vou falar amanhã sobre o que aconteceu em Kreludor.”

Altador moveu-se para a porta.

O sorriso da fada murchou.

“Você realmente não pode deixar o amanhã pra amanhã só uma vez?” ela esticou uma mão, pedindo para que ele não fosse. “Faz tanto tempo que não te conto histórias sobre fadas e eu sei que você gosta de ouvi-las!”

Altador deu um sorriso triste, aproximando-se da fada e colocando uma mão em seu rosto ainda com resquícios de fuligem.

“Uma crise está sobre nós, minha querida”, ele disse com carinho, olhando fundo em seus olhos. “E eu preciso contê-la. Por você. Pelo Conselho. Pela nossa cidade.”

“Mas-”

“Você pode ficar pela noite, eu vou ficar no andar debaixo escrevendo”, ele preparou-se para sair. “Não temos muito tempo até o amanhecer. Tente dormir um pouco, tudo bem? Você tem que descansar.”

E assim a porta se fechou, com Altador do outro lado dela. Selene sentiu raiva pela postura do rei. Ela que deveria estar pensando no que dizer amanhã. Mas também sabia que não importava o que saísse de sua boca, tudo seria virado contra ela. Ainda assim, não era justo Altador ter que se sacrificar para amenizar um acidente que não foi ele quem causou.

Queria levantar e ir atrás dele, mas seu corpo voltou a pesar sem o ânimo da história. Em uma coisa ele tinha razão, ela precisava descansar.

Virou-se para o lado, tentando relaxar naquela cama áspera dentro daquele quarto inquietantemente vazio até a exaustão a fazer adormecer.

Friday, September 20, 2024

O Banquete

 “Eu entendo que ele estava fazendo um discurso de ódio, mas acho que você exagerou com o lance da cadeira”, Torakor comentou com Selene enquanto equilibrava uma bandeja com uma jarra de néctar de uva, doze pratos de prata e sete taças de cristal de um conjunto de doze em uma mão e carregava as outras cinco na outra. “Você podia ter me alertado, meus guardas o levariam sob custódia”.

“Mas assim eu não teria dado uma cadeirada nele”, Selene respondeu, simples enquanto chegavam no jardim prédio do Conselho, onde aconteceria uma celebração dos heróis pelo retorno da fada dali a algumas horas.. “E esse maldito anel começa a me drenar toda vez que sinto raiva, era ele ou eu.”

“Eu acho que foi merecida”, Kelland aprovou, colocando uma toalha branca com bordas detalhadas em dourado na longa mesa abaixo de uma cobertura de mármore no centro do jardim. “Ele está vivo e espero que não tenha mais coragem de ir na ágora incitar uma invasão ao Conselho novamente”

“Está tentando se fazer de vítima”, Fauna colocou o pão e a ambrosia na mesa com desgosto. “Ouvi da lojista da loja de animais que ele disse que quebrou uma costela e precisará ficar internado um mês para se recuperar.”

“Mas Chias nem têm costelas!”, Kelland rugiu. “Quem vai acreditar nisso?”

“Tem maluco pra tudo”, Torakor colocou a louça em cima da toalha mexendo a cabeça para os lados.

“Não importa se alguém vai acreditar ou não. Todo mundo aqui me odeia mesmo”, Selene bufou, sentando-se em uma das cadeiras e se servindo do pão com ambrosia. “Minhas estrelas, como eu senti falta da ambrosia da Psellia.”

“Fiz com pouco cravo e bastante canela, como você gosta”, a fada do ar desceu do alto da cobertura ao ouvir o elogio, surpreendendo a fada das trevas. “Mas você poderia deixar para aproveitá-la quando já estivéssemos todos aqui.”

“Mas a festa é pra mim!” Selene choramingou, abraçando defensivamente o pote de ambrosia. “Eu mal consigo usar minha magia direito por causa do anel, por favor, me deixa ter pelo menos isso!...”

“A celebração é em seu nome, sim, mas a intenção é que todos aproveitem o evento”, Psellia disse com a mesma delicadeza que tirou o vidro dos braços da outra fada e o colocou de volta na mesa. Selene se limitou a extravasar sua insatisfação cruzando os braços e franzindo os lábios.

Torakor e Fauna riram discretamente e saíram para pegar os demais componentes da mesa.

“Mas olha”, Kelland sentou-se ao lado dela colocando o jornal do dia na mesa com a página 13 voltada para cima. “Nem todo mundo te odeia.”

Incrédula, Selene se esticou e leu o título da matéria: ‘Moradores de cidades satélites e bairros periféricos concordam que a volta de Fada Tenebrosa é um avanço nas políticas do Conselho’. Aquelas palavras despertaram sua curiosidade e ela pegou o jornal para continuar lendo.

A matéria relatava uma manifestação de apoio ao seu retorno feita por quem o autor chamou de ‘periféricos e forasteiros', os quais ou eram membros da guilda dos ladrões ou diziam ser fazendeiros autônomos e refugiados que não conseguiram acolhimento na cidade.

“Desde quando Altador tem uma periferia?”, perguntou a Kelland após o término da leitura.

O ex-ladrão ficou sério e sombrio, parecia estar medindo suas palavras antes de dizê-las mas Psellia imediatamente tomou a palavra.

“A população de Altador cresceu muito desde que Tor e Roberta nos libertaram” sua voz veio do alto. “Ainda mais após a queda do Mundo das Fadas. Não conseguimos integrar todos os imigrantes.”

“E por que não expandiram a cidade?!” Selene levantou ainda com o jornal na mão e saiu de baixo da cobertura para responder a Psellia diretamente. “Construímos isso aqui com muito menos gente do que temos hoje!”

Foi então que viu Psellia decorando o telhado branco da estrutura com panos de seda azul-arroxeada e buquês de rosas vermelhas e amarelas. Selene foi pega desprevenida e o avassalador aperto no peito tomou as rédeas do momento.

Até agora não havia entendido o porquê da amiga estar flutuando acima deles, mas sabia que Psellia gostava de ficar em lugares altos, então não questionou. Mas ela não esperava esse nível de esmero por parte dela com a celebração.

“Nós tentamos, mas… a situação é um tanto complexa”, só então percebeu a emoção de Selene com a decoração. “Ah, você gostou? Espero ter acertado na cor da seda, sua cor de pele é um tanto difícil de acertar no tingimento.”

“Eu adorei, Lia”, resgatou o antigo apelido, lisonjeada e com os grandes olhos vermelhos brilhando. “Eu achei que só comemoraríamos com comida, não estava esperando uma festa completa!”

“A ideia era essa, mas eu quero que esse momento seja especial”, uma rosa e abriu um sorriso caloroso para a amiga. “Você merece, Selene.”

A fada das trevas retribuiu desajeitadamente o sorriso.

“Acho que vou ter que me acostumar com essas demonstrações de afeto espontâneas. É estranho pra mim, é… meloso… mas eu gosto”, confessou, encabulada.

“Como Altador disse, nós aprendemos com nossos erros e estamos comprometidos a nunca mais repeti-los”, acrescentou Kelland, grato pela mudança de assunto e, aproveitando o momento, tirou do bolso do casaco uma pequena caixa azul amarrada com uma fita vermelha. “Toma. Minha demonstração de afeto espontânea e melosa. E não se preocupe em desamarrar o laço, é só enfeite.”

Como uma criança em noite de Natal, Selene pegou a caixinha e abriu a tampa como se fosse um baú de tesouro cheio de ouro. E o que viu lá dentro não era diferente disso.

Duas cascatas de luas douradas presas por correntes que culminavam em dois pequenos ganchos reluziam dentro da caixinha forrada com veludo. Boquiaberta, ela pegou os delicados brincos nas mãos. Eram leves como nuvens e pareciam ser de ouro legítimo, mas teria a mesma reação se fossem de latão pintados de amarelo brilhante.

“‘Selene’ é relativo a ‘Lua’, não é?”, Kelland se divertia ao ver a surpresa genuína da amiga. “Vi esses brincos na loja Armadura Ilustres. Acho que aumentam a sua agilidade ou algo assim. Não sei se tem efeitos em fadas, mas quando vi, lembrei de você. Então comprei.”

A fada das trevas pôs os brincos e usou um dos pratos de espelho. Balançou a cabeça, observando o movimento das luas penduradas em suas orelhas, mesmerizada.

“São tão leves! E tão bonitos!”, ela brincou com os brincos como um gato com um novelo de lã. Quando parou, pegou as mãos do amigo e agradeceu.

“Eu achei que o combinado era deixar os presentes para o final.” Altador chegou sussurrando com Torakor, Fauna e os demais heróis atrás dele, trazendo o resto do banquete em mãos.

“Surgiu uma oportunidade que eu não podia deixar passar”, o ex-ladrão respondeu em voz baixa fazendo um gesto discreto com o polegar para a retornante que voltou a rodar o pescoço com o prato na mão, distraída da conversa entre os dois. “Mas é melhor vocês entregarem os de vocês depois de comer, deve demorar um pouco até ela deixar de ficar entretida com meu presente.”

Altador balançou a cabeça, um pequeno sorriso escapulindo de seus lábios e prosseguiu até a mesa com os demais em seu encalço.

Logo o jardim estava repleto de comida: além do pão com ambrosia e do néctar de uva, os heróis trouxeram leite e queijo de cabra, azeitonas, figos, romãs, uvas, maçãs, laranjas e cereal. Sentaram-se à mesa e comeram até o último farelo de pão.

Depois de uma cesta repleta de risos e conversas, buscaram a segunda leva que consistia de salada com finas fatias de carne de porco, ensopado de peixe, ovos de ganso, ostras, néctar e uma variedade de hidroméis.

Ao final, pratos e garrafas vazias decoravam a toalha branca e dourada agora suja de restos de comida e bebida. O pandeiro de Sasha, o alaúde de Florin e a viola de Jerdana coloriam o jardim com música que os heróis revezavam para cantar e dançar.

“Eu não lembrava que você cantava, Selene!”, Marak disse com a voz macia. “Sua voz é muito bonita.”

“Ah, para”, a fada esticou o braço na direção dele e baixou a mão, sorrindo. “Mas você não lembra porque eu nunca cantei pra vocês. Até agora só a Vossa Majestade ali tinha me ouvido cantar.”

“E foi a minha maior honra”, Rei Altador a reverenciou. “Foi no dia que nos conhecemos, no banquete que os aldeões da minha cidade natal nos dedicaram por matar as bestas que nos atormentavam.”

“Selene só canta em banquetes?!”, Torakor soluçou. Gordos lhe empurrou uma taça de água pela segunda vez. “Temos que repetir a dose mais vezes, então! Quando é seu aniversário?”

As fadas presentes se entreolharam e explodiram em gargalhada.

“Nenhuma fada sabe há quanto tempo existe, quem dirá quando que começou a existir!” Siyana enxugou uma lágrima.

“Nós somos tão velhas quanto o próprio tempo, Tor!” Psellia tomou uma lugada de ar, ainda rindo.

“Mas se é pra fazer tudo isso ano que vem”, Selene levantou-se, ajeitou a postura limpou a garganta. “Pelos meus poderes de 12ª Conselheira de Altador, eu declaro oficialmente que hoje é meu aniversário!”

O jardim explodiu em aplausos e assobios. Selene fez uma reverência pomposa, ajeitando uma capa e uma coroa imaginárias.

“E bem na hora de você abrir seus presentes”, Fauna se levantou e pegou um saquinho de pano macio que tinha escondido embaixo da mesa quando chegou. “Espero que goste, foi um pouco difícil de encontrar.”

Os olhos da fada das trevas se arregalaram e um sorriso infantil surgiu em seu rosto corado por conta do hidromel. Ela pegou o pacote das mãos de Fauna e quase o arrebentou ao abrí-lo. Lá dentro estava uma boneca de pelúcia de aparência muito familiar.

“Existe uma Usuki minha???”, ela deu um gritinho. “Ela é perfeita! Obrigada, Fauna.”

A amiga sorriu e deu de ombros. Marak se aproximou com seu presente já em mãos.

“Aproveite!”, sorriu ao lhe entregar uma caixa azul enfeitada com pérolas.

“Conchas de chocolate triplo do restaurante Kelp!”, ela arfou, animada. “Eu sempre quis comer a comida de lá, mas nunca me deixaram entrar.”

“Vamos arrumar essa situação, amiga”, Marak baixou a mão para ela. “Mas por enquanto, fique com esta provinha.”

Selene agradeceu e pegou uma das conchas de chocolate branco e ao leite recheadas de chocolate amargo, mordendo metade. Ela fechou os olhos, deliciando-se com o sabor.

“É maravilhoso”, ela colocou a outra metade na boca e fechou a caixa para que ninguém ficasse tentado a querer provar também.

Os demais amigos se organizaram para presentear a retornante. Florin a entregou uma mistura de ervas secas que ele mesmo criou e cultivou alegando ser o melhor tempero que ela já comeria na vida. Sasha lhe deu um lindo caderno com temática astral ‘caso precisasse anotar seus pensamentos em um lugar privado’.

Siyana lhe fez um apanha-sonhos,  Psellia apareceu com mais um pote de ambrosia só para ela e Gordos lhe deu dinheiro para ‘deixá-la livre para comprar o que quisesse’. Torakor lhe deu uma camisa com a frase “Liberte a Fada Tenebrosa” acompanhado de uma carta relatando seus sentimentos e pensamentos que não conseguira expressar no dia de seu retorno, tendo como remetente ‘um amigo ex-vilão’ e ‘minha amiga ex-vilã’ como destinatário.
 
Selene secou algumas lágrimas e lhe deu um abraço forte quando terminou de lê-la.

“O melhor presente é ter você aqui de novo”, ele retribuiu o abraço. “E quero te ver com essa camisa!”

Depois do momento entre os dois, Jerdana se aproximou com um embrulho de linho cuidadosamente amarrado com uma fita de cetim.

“Sua volta me inspirou a criá-los”, ela comentou enquanto a fada desfazia o laço, revelando um elegante vestido branco cintilante de mangas longas e um sobretudo azul com detalhes em dourado. “E se desejar qualquer alteração, me avise.”

“Jerdana…” Selene estava maravilhada. “Eles são lindos. Ainda mais por terem sido feitos pelas suas mãos.”
A feiticeira sorriu e se afastou para que Altador pudesse entregar o último presente.

“Selene”, o homem tirou do pŕoprio pescoço um colar dourado cujo pingente era uma fusão da lua e do sol. “Meu presente para você é a minha confiança.”

A fada colocou os cabelos negros para frente para que o Rei pudesse fechar o acessório ao redor de seu pescoço e, assim que no lugar, o anel de rubis que a drenava e limitava sua magia brilhou e se partiu.

Selene sentiu o corpo estremecer enquanto examinava sua mão, agora livre do pequeno círculo que agora jazia quebrado na grama. Hesitantemente, ela invocou sua magia e sentiu, depois de mais de um milênio, a sensação familiar de seu poder, livre enfim de sua última corrente.

Segurou o pingente entre os dedos, sentindo a poderosa energia que irradiava dele.

“Fyora, a rainha das fadas, me deu para me proteger caso um dia você voltasse e tentasse dominar Altador novamente”, o rei explicou. “Ele direciona qualquer tipo de magia de volta para sua fonte.”

“E você guardou isso debaixo da sua barba por milênios?”, Selene fez cara de nojo.

“Não, eu o coloquei ontem à noite, quando você retornou”, ele coçou a cabeça. “Por favor, aceite-o como símbolo do recomeço da nossa amizade.”

“Eu agradeço sua confiança, Altador”, Selene o olhou com carinho. “De verdade.”

Altador a puxou para outro abraço e a girou, o que fez Selene soltar um grito esganado. Quando a pôs de volta no chão, ela lhe deu um leve tapa no braço e murmurou algo como ‘nunca mais faz isso’.

Os amigos permaneceram no jardim até o sol se esconder por entre as montanhas. Felizes e cansados, recolheram as sobras e desarrumaram a mesa, deixando apenas a decoração de Psellia no telhado pois se comprometeu a tirá-la quando as flores murchassem.

Alguns foram para casa, outros ficaram no dormitório do prédio do Conselho, como Selene. Foi para o mesmo quarto que dormira na noite anterior e jogou-se na cama ainda desarrumada, caindo rapidamente em um sono tranquilo.

Tuesday, September 17, 2024

Notícias da Cidade do Sol edição 1 NE

Notícias da Cidade do Sol

Fada Tenebrosa retorna ao poder com a aprovação de Rei Altador e conselheiros.

Após uma noite angustiante na ameaça de um ataque da temível Fada Tenebrosa, houve a confirmação de que ela retornou… mas ao Conselho.

“É com muita alegria que recebemos Selene de volta ao Conselho e deixamos o passado no passado”, declarou o Rei Altador. “Sua volta representa uma nova era para a cidade de Altador.”

Nosso Rei também conta que, após uma longa conversa com a Traidora, contém “novas informações sobre as causas da Traição e o Conselho tomará medidas mais severas para com aqueles que atacarem fisica ou moralmente Selene ou qualquer pessoa de qualquer espécie, cor ou penas criminais já cumpridas.”

No entanto, diferentemente dos conselheiros, o povo de Altador não se entusiasmou com a notícia.

“Não se enganem com o ar de paz que Rei Altador está tentando passar, nós estamos sob ataque!”, exclamou um dos opositores que discursavam na ágora por esta manhã, Paulo Esterchal (chia, 37). “Se a polícia não vai invadir a Sala do Conselho, é nosso dever como bons cidadãos arrombar aquelas portas e defender nossa cidade nós mesmos! É o que nossos antepassados faria! Nós devemos restaurar a ordem!”

Paulo tinha a intenção de continuar, mas foi interrompido por uma Usul vermelha que o acertou com uma cadeira de madeira. Ele foi socorrido por uma ambulância e passa bem. A identidade e o paradeiro da Usul permanecem desconhecidos.

Leia também:

Pg 8: Segurança ou censura? Especialistas opinam sobre projeto de lei ‘anti-expressão’ no trâmite de aprovação do Conselho.

Pg 12: “Rei Altador e o conselho podem estar enfeitiçados”, dizem feiticeiros e especialistas. 

Pg 13: Moradores de cidades satélites e bairros periféricos concordam que a volta de Fada Tenebrosa é um avanço nas políticas do Conselho

Pg 14-16: Novo capítulo de “Desejos à meia-luz” por Christinna Asha.



Thursday, September 12, 2024

A Volta

Portões fechados, guerreiros e arqueiros posicionados nos muros internos e externos. O toque de recolher foi acionado imediatamente. Lojas fecharam às pressas e famílias correram com seus filhos para casa, trancando as portas e janelas. Mesmo com o sol ainda longe do horizonte, a cidade estava silenciosa como se fosse tarde da noite, mas pronta para a guerra.


Todos sabiam os procedimentos: colocar em quarentena qualquer um que estivesse com a coloração dos olhos alterada e demonstrasse comportamentos anormais, principalmente se fossem destrutivos. Patrulhas de contenção estavam posicionadas em todas as esquinas, prontas para levar qualquer cidadão afetado pela magia maligna até que Ela fosse aprisionada novamente e suas vítimas voltassem a si mesmas.

A fada da luz Siyana finalizou uma última sobrevoada na cidade à procura da presença que lhe era tão dolorosamente familiar e pousou nas docas, onde seu amigo e capitão da marinha, Marak, já tinha em mãos o relatório de suas tropas.

“Algum sinal dela?”

“Nada nos mares até agora”, Marak olhava o papel que lhe fora entregue pela terceira vez. “Todos os mercadores foram revistados e avaliados. Nenhum sintoma de possessão ou porte de objeto com magia maliciosa, aparentemente.”

“E… a estátua dela?”, Siyana suspirou.

“Ainda desaparecida”, ele virou a página.

“E Altador?”

“Armada até os dentes”

“Não… Nosso Altador.”

“Ah!...”, Marak finalmente largou o relatório e olhou para os olhos angustiados da amiga. “Bom, ele está tão afetado quanto nós. Está mais quieto do que o normal, mas parece estar com a cabeça no lugar.”

A brisa marítima invadiu a conversa e a calou, o alarde da emergência de segurança pública suavemente dando lugar à dor da ferida nunca cicatrizada da perda de uma amiga. Da traição de uma criatura maligna que fingiu ser sua amiga, eles se corrigiam mentalmente em uma tentativa de amenizar e mobilizar a dor. Afinal, ela era uma fada das trevas. Maldade e fome de poder eram de sua natureza.

“Talvez ele ou algum dos outros tenham a encontrado.” Marak quebrou o silêncio. “Vem, vamos voltar para a Sala do Conselho.”

A fada assentiu e partiu com ele.



Uma Usul vestida com roupas ciganas vagava pelo Salão dos Heróis, observando as onze enormes estátuas de pedra acinzentada posicionadas em círculo. Sasha, a dançarina; Psellia, a Sonhadora; Fauna, a Colhedora… Seus olhos percorreram cada um daqueles rostos milenares eternizados em rocha até chegarem no pedestal vazio de quem um dia fora a 12ª heroína de Altador: A Fada Tenebrosa, a Dormente.  Uma fada das trevas sem nome cujo título era um epitáfio.

Mas era justo, era certo. A Fada Tenebrosa traiu o conselho, assumiu o poder e ainda tentou alterar a história da cidade para que ela fosse a única fundadora e rainha para que tivesse um povo que a adorasse como tal, mas isso resultou na cidade ser esquecida por 1000 anos.

Ela foi aprisionada como estátua, mas se libertou e quis descontar sua raiva no povo de Meridell que nada tinha a ver com a história. E no final ela acabou de novo como estátua, mas decorando o jardim de Fyora, a rainha das fadas, que caiu dos céus anos depois.

Então todas as fadas viraram estátuas e depois desviraram, junto com ela. Ela teve uma chance de só ficar quieta no canto dela, mas não foi isso que ela fez. Ela sequestrou uma fada e se passou por ela por meses. Por quê? Pra quê? Ser amada ao invés de temida pelo menos uma vez na vida? Mas uma fada das trevas não consegue resistir aos seus “instintos naturais” de ser má por muito tempo.

Claro que não, mas ela atirou no próprio pé. O anel de rubis que achou que lhe daria poder, no final estava drenando sua energia. Então, como a criatura maligna que era, tentou envenenar a todos com um gás tóxico em uma tentativa desesperada de sair por cima, como se a morte de inocentes fosse uma vitória, mas foi, felizmente, impedida pela fada rainha.

A Usul se aproximou e sentou-se no pedestal, ajeitando sua saia que tinha prendido em seu anel que não conseguia tirar. Ao seu lado estavam Torakor, o Gladiador e Marak, a Onda. Um piadista e um estóico separados agora por uma Usul solitária e triste.

Dali não conseguia ver Florin, o Fazendeiro ou Kelland, o Ladrão, mas sabia que estavam ali, naquele local sagrado, assim como Gordos, o Coletor e Siyana, a Primeira a Despertar. Eram excelentes exemplos, altruístas, alegres e gentis. Mesmo Kelland que outrora fora um ladrão e Gordos, que coletava impostos, eram bons por natureza. Nem mesmo as circunstâncias da vida conseguiram ofuscar a bondade natural que havia em seus corações.

À sua frente estava Jerdana, a Protetora e… a imagem de alguém que ela não tinha coragem de encarar. Seu último encontro com eles não tinha sido muito… agradável.

Ela não tinha sido muito agradável em seu último encontro. Com todos eles.
Não era da natureza dela.

Mas era por isso que estava ali. Iria finalmente acertar suas contas com os Heróis de Altador e aceitar pagar por todo horror e sofrimento que causou.

Mesmo que fosse com sua vida.

Não é como se ela fosse digna mesmo.


Rei Altador estava de pé olhando para a janela atrás de sua cadeira. Dez heróis, dez amigos se revezavam para falar sobre a mesma falta de informações sobre a localização da Fada Tenebrosa. Psellia, uma fada do ar, fora a única que reportou um avistamento feito de uma de suas nuvens a ele, que decretou a cidade em estado de sítio.

“Não estou duvidando de você, mas tem certeza de que era ela, Psellia?”, Kelland buscou certificar a informação.

“Sim, eu reconheci a aparência dela!”, Psellia confirmou. “Ela deve ter se disfarçado e está por aqui em algum lugar”

“Não senti a magia dela em lugar nenhum”, Siyana relatou. “E eu fiz quatro rotas por toda a cidade.”

“Sem sinal de envenenamento ou lacaios nas plantações também”, Florin adicionou.

“Não identificamos marinheiros que precisassem de quarentena ou artefatos suspeitos”, acrescentou Marak.

“Todos os lojistas e servidores públicos também não parecem afetados”, Gordos informou.

“Nada nas escolas ou nos parques”, Sasha comentou.

“Os animais estão bem”, Fauna disse.

“De qualquer forma, meus soldados estão à postos caso ela apareça”, Torakor bateu no peito.

“Os feiticeiros estão supridos de livros, poções e artefatos para quebrar qualquer feitiço”, Jerdana assegurou.

Mas Altador continuou calado, observando os últimos raios de sol sumirem no horizonte. Apesar da falta de notícias, sua intuição dizia que ela ainda estava na cidade. Ele a conhecia bem e sabia que cada passo seu tinha um objetivo.

Mas apesar de todas as defesas contra qualquer ataque dela terem sido tomadas, a ausência de tentativas em burlá-las o deixava aflito. Não era do feitio dela deixar obstáculos a impedirem. Algo não estava certo…

Altador se virou. A sala caiu em silêncio.

“Meus conselheiros…”, ele pôs uma das mãos no coração. “E queridos amigos. É minha responsabilidade que nossa cidade está em perigo.”

“Ora, mas claro que não…!”, Torakor começou a protestar, mas Jerdana o parou

“O que quer dizer com isso, Altador?”, ela perguntou, séria.

“Tenho uma confissão a fazer, heróis.”, o rei olhou para os pés. “Eu… encontrei a estátua Dela.”

Indagações e arfadas explodiram pela sala, criando uma cacofonia que fez Altador apertar os olhos.

“Mas eu não tive coragem… de… de…”

“Calma, calma”, Jerdana segurou seus braços e o ajudou a sentar. “Seu coração é bom, meu rei e amigo. Sua misericórdia mostra que sua índole é de luz, não que você é um covarde.”

“Não acho que nenhum de nós teria conseguido fazer isso de qualquer forma”, Kelland complementou.

“É difícil de admitir, mas…”, Gordos começou.

“Também sentimos a falta dela”, Sasha finalizou.

“Ela era uma boa amiga.” Psellia relembrou. “Sempre estava disposta a me ouvir quando eu precisava.”

“Ela ajudava com a colheita”, recordou Florin

“E com os animais noturnos”, adicionou Flora

“Ela fez as nossas constelações no céu”, Siyana ficou com a voz embargada.

“Ela ria das minhas piadas”, Torakor se entristeceu.

“E ela era minha melhor amiga. Mas ainda assim tudo o que restou do seu legado foi o medo do seu retorno”, Altador disse, sombrio. “E eu me sinto responsável por não ter livrado Neopia desse medo quando tive a chance.”

Uma atmosfera sombria se formou.

“Nós realmente precisamos aceitar o que ela merece, não é mesmo?”, Siyana murmurou.

Relutantes, mas resignados, os heróis assentiram.

“Eu… darei a ordem de execução para os guardas caso a encontrem”, a voz de Torakor tremia um pouco.

“Muito bem”, Altador estava com os cotovelos nos joelhos e as mãos na cabeça e não olhou para ninguém quando continuou. “Não temos mais o que discutir aqui.”

Lentamente, os heróis começaram a se levantar para sair, quando ouviram uma batida na porta.

Todos congelaram onde estavam. Todos que trabalhavam no prédio foram dispensados e levados até em casa para cuidarem de suas famílias.
Depois de alguns segundos que pareciam uma eternidade, Psellia, que estava mais perto, andou vagarosamente até a porta e se deparou um uma Usul que nunca havia visto antes.

O olhar das duas se encontrou e Psellia soube quem ela era na verdade.

A fada arfou alarmada, mas antes que fazer qualquer coisa, a Usul a cortou:

“Eu vim me entregar.”

Confusa, Psellia largou a maçaneta e saiu da frente da porta devagar, revelando a figura da Usul para os demais conselheiros que já estavam de saída.

Era loira, tinha olhos castanhos e vestia roupas muito parecidas com as de Jerdana, coloridas e vibrantes, o que não era usual para a Traidora, nem mesmo em disfarces. Mas o mais estranho era sua postura cabisbaixa e derrotada. A Traidora era orgulhosa e nunca se mostrava vulnerável como aquela Usul estava fazendo.

Mas todos eles sabiam que era ela. Não tinha como não ser.

“Ela veio se entregar”, Psellia repetiu.

A Usul então se envolveu em uma fumaça escura e revelou sua verdadeira forma: pele azulada, olhos vermelhos com fundo amarelado, cabelos pretos com mechas e asas pontiagudas. E ali estava ela, a Fada Tenebrosa, em carne e osso, ajoelhada e olhando para o chão de frente para o conselho que traiu há mais de um milênio.

“Podem fazer o que quiserem comigo, estou pronta para encarar qualquer punição que acharem justa para mim.”

Ninguém disse uma palavra. Nunca tinham-na visto assim. Ainda poderia ser um truque, mas mesmo que fosse, seria um muito diferente dos que ela costumava armar. Ela se escondia atrás de identidades falsas, não se revelava e se deixava à mercê da vontade dos outros.

As sobrancelhas de Siyana se levantaram ao perceber que mesmo na sua frente, a fada da luz não conseguia sentir a assinatura mágica maligna da outra. Trocou olhares com os demais, sacudindo a cabeça, confirmando que não havia truques na rendição da Traidora.

Ainda assim, ninguém se mexeu para fazer nada até Sasha tomar a frente e se ajoelhar de frente à fada das trevas.

“Eu…nós…primeiro gostaríamos de saber por quê.”

“Porque de quê?”, a fada cuspiu ainda com a cabeça baixa.

“...Disso”, ela apontou para a fada em postura de submissão. “E de… todo o resto.”

Os outros esperaram pacientemente pela resposta da ex-conselheira e heroína de Altador.

“Eu sou má”, ela respondeu, seca. “É o que eu sou, é a minha natureza. Eu sou egoísta e perigosa. Eu destruo, magoo e tento matar as pessoas, é isso o que eu faço e é isso o que eu sou.”

“Mas… nunca quis machucar ou dominar ninguém, muito menos vocês”, ela soltou soltou uma risada nervosa. “Vocês eram meus amigos, a minha família… Mas não importava o que eu fizesse, eu não merecia ter um lugar entre vocês. Todos os cidadãos tinham medo de mim. Eu tentava comungar com eles, mas sentia a tensão que eles tinham comigo. Tentei ajudar nas tarefas, tentei me divertir junto deles, mas eu sabia que a minha presença estragava o clima, estragava o conforto.”

“Vocês eram adorados, eu era temida. Vocês eram os Heróis, eu era aquela que um dia trairia todos e tomaria o poder pra mim. Ou vocês acham que eu não ouvia o que o povo falava nas ruas? Se eu nunca fui digna de amor, então pra quê ficar tentando recebê-lo? Era melhor admitir que eu nasci pra ser temida ou ficar sozinha. Então eu o fiz. Eu fui a fada das trevas que eles acreditavam que eu era. Eu fui a pior fada das trevas que já existiu e eu fiquei realmente feliz em desistir da expectativa de ser amada. Assim não precisava mais da pena de vocês.”

Os conselheiros trocaram olhares surpresos e entristecidos, mas deixaram-na continuar.

“Mas depois de muito tempo eu descobri que ser temida é solitário. Eu perdi milênios da minha vida tentando em vão provar que eu tenho algum valor e passei mais um como estátua quando reconheci que não tinha. Então eu vim me entregar. Eu fiz coisas horríveis e injustificáveis das quais mereço ser punida, mas duvido que meu melhor castigo seja uma sessão de terapia, então se puderem agilizar minha prisão, tortura ou execução, eu agradeceria.”

Todos olhavam para ela, impactados com o discurso.

“Você… acha que merece morrer?”, Sasha perguntou, visivelmente abalada.

“Meu legado é medo”, ela olhou no fundo dos olhos dela com os olhos marejados, mas determinada. “Como eu mereço viver?”

Altador sentiu seu coração se quebrar em mil pedaços. Um milhão de pensamentos passaram por sua cabeça, o sentimento de culpa consumindo-o por dentro, mas não conseguiu falar ou mesmo se mexer.

Sasha segurou as mãos geladas da fada das trevas que acabara de colocar milênios de sofrimento em palavras e cuja face agora se contorcia para deixar lágrimas pesadas e antigas finalmente escorrerem.

Psellia aproximou-se e a abraçou desajeitadamente.

“Há milênios você esteve comigo quando eu precisei”, ela também chorava. “Desculpe só conseguir retribuir seu ato empático tão tarde. Eu deveria ter perguntado se você precisava de mim também.”

A fada das trevas se surpreendeu com o abraço e hesitantemente o aceitou. Gritos se juntaram às lágrimas.

Siyana não aguentou mais e correu para abraçá-la também. Psellia se afastou para que a fada da luz conseguisse envolvê-la.

“Eu me esforcei tanto pra me convencer que você era má pra ficar com raiva de você e não sentir saudades de você, mas…”, ela a abraçou mais forte. “Mas eu sinto o carinho que você colocou nas estrelas toda noite. Eu ignorei a luz que você colocou no mundo porque era muito difícil para mim lidar com a dor da sua traição, sim, mas também da sua ausência. Eu poderia ter tentado te alcançar, mas não o fiz, por isso, peço perdão.”

“Eu… não… preciso de pena…”, a fada de nome esquecido respondeu com dificuldade.

“Nós não temos pena de você!”, Sasha gritou e se jogou no colo dela. “Nós sentimos saudades de você! Você era a alegria das minhas festas e elas nunca mais foram as mesmas desde que você foi petrificada! Eu não quero que você sofra, muito menos morra! Eu só quero que você seja feliz com a gente!”

“Mas… mas e tudo o que eu fiz?!”, a criminosa estava emocionada, porém confusa. “Os sequestros, as possessões, a destruição de reinos?”

“Eu acho que você já sofreu punição o suficiente, minha querida”, disse Kelland estendendo uma mão, a qual ela aceitou.

“Punições existem na tentativa de fazer as pessoas reconhecerem seus erros e não os perpetuarem mais”, Gordos deu um passo na direção dela. “Você sofreu enquanto inocente e enquanto culpada, mas isto apenas a levou ao colapso, não ao aprendizado. Acho que o melhor para você e para todos ao seu redor é você voltar para casa, que é aqui conosco. Se você aceitar, é claro.”

Agora de pé, a fada que outrora fora rejeitada que puxou o ex-coletor de impostos para um abraço.

“Obrigada, Gordos”

“Eu já estive em um lugar parecido quando acreditei nas pessoas erradas e causei pobreza e fome na minha cidade natal, conheço a sua dor”

“Ei, eu também!” Kelland protestou. “Não ganho abraço?”

A fada das trevas deu uma risada genuína, a primeira em milênios, e foi abraçar o ex-ladrão.

Enquanto os laços entre os três eram restaurados, Marak chegou um pouco mais perto do grupo vagarosamente.

“Eu…” Gordos e Kelland deram espaço a eles quando o capitão começou. “Eu ia à Maraqua em segredo para me certificar de que a sua estátua estava bem. Não confiava em ninguém para revelar sua localização, então eu ia sozinho…” A voz do estóico Marak começou a falhar. “Fiquei desesperado quando soube que você sumiu...”

O capitão segurou suas mãos.

“O que eu quero dizer é que… Estou muito aliviado de você estar aqui. Viva.” disse com lágrimas nos olhos. “Eu também não quero que você morra. Eu quero que você fique bem. Eu quero que você volte a ser você porque… a Fada Tenebrosa não é você.”

As palavras de Marak a pegaram de surpresa e o choro retornou.
Porque ele tinha razão.

Os heróis, percebendo a recaída, se aproximaram mais dela, oferecendo abraços e palavras de carinho, exceto Altador, que tinha retornado à janela e escondia seu rosto choroso dos amigos.

“Eu… eu não sei quem eu sou além dela…” ela olhava a esmo pelo ambiente. “Assumi a fada Tenebrosa como ‘face verdadeira’ mas… ela era só uma mentira que eu queria muito que fosse verdade.”

“Mas ainda bem que ela não é!” Fauna exclamou. “Você agora pode escolher quem você quer ser daqui pra frente!”

A fada olhou para Jerdana, que estava com a atenção dividia entre ela e Altador, mas quando fez contato visual com a fada, estendeu sua mão a ela.

“Eu gostaria muito de ser você… Jerdana”, admitiu um pouco à contragosto. “...Eu invejo você Jerdana. Você é talentosa, corajosa e inspiradora. As pessoas gostam e confiam em você com tanta facilidade. Você espalha alegria e vida por onde você passa, basicamente o contrário de mim… Ou melhor, da Fada Tenebrosa. Mas ainda assim, ser como você parece inalcançável para alguém como eu. Eu tive raiva de você pela inveja que você me causava. Me desculpe por tudo o que fiz, ou melhor, tentei fazer a você. Você nunca mereceu nada daquilo.”

Jerdana estava perplexa com a revelação. Ela já havia percebido em alguns momentos que a fada fora mais cruel com ela do que com outras vítimas, mas não imaginava que a motivação por trás disso pudesse ser inveja dentro todas as possibilidades.


“Minha querida…”, ela começou, mas não sabia o que dizer. “Nenhum mal foi causado apesar de suas intenções vis. No entanto, não precisamos ser inimigas por causa do que desperto em você. Se é inveja que você sente de mim, penso que então no fundo somos muito parecidas, pois este é um sinal de reconhecimento do seu próprio cerne.”

“No entanto, a sua luz foi impedida de brilhar assim como a minha um dia fora, mas meu clã me ajudou a persistir acreditando em quem eu era até encontrar meu lugar, que é aqui. Eu assumo a responsabilidade de não ter feito o que meu clã me ensinou que era correto e também peço pelo seu perdão por te abandonar nesta situação tão vulnerável.”

As duas apertaram as mãos e depois se abraçaram.

“Não vou deixar que ninguém mais fale mal livremente de você” a feiticeira cigana a assegurou “Agora temos toda a consciência do grande mal que essa intolerância pode causar se tratada como se fosse se resolver sozinha eventualmente, como achávamos no passado.”

“Fui eu quem deixou os boatos correrem”, Altador finalmente se pronunciou, embora ainda estivesse virado para a janela. “Eu disse que os cidadãos a veriam por quem realmente era com o tempo e a convivência, mas isso só te causou dor. Eu fui um péssimo amigo para você.”

“Eu achei que você tivesse medo de mim assim como eles.” a fada cruzou os braços e virou o rosto. “E depois que se tornasse rei, iria me expulsar para que seu conselho não estivesse sob a ameaça que eles diziam que eu representava.”

Altador se virou, profundamente magoado com as palavras da recém retornada.

“Eu nunca tive medo de você!”, ele disse por impulso, mas então pensou nas palavras que disse antes da fada aparecer. “Mas eu priorizei os cidadãos, não você. Você criou um vazio no meu coração que me corrói há mais de 1000 anos, mas eu precisava cuidar da cidade.”

Ele pausou para refletir.

“Mas eu realmente te abandonei quando me tornei rei. Meu julgamento foi ofuscado pela ideia de que todas as minhas decisões precisavam ser o melhor para a cidade, o melhor para Neopia. Mas caralho, eu cogitei matar você para preservar essas pessoas. Logo você que salvou a minha vida. Você que foi minha confidente e braço direito por milênios. Você que precisou do meu apoio e eu não estava lá. Eu estava com aqueles que a rejeitaram-”

“Não se culpe por tudo, eu também não pedi ajuda, Altador”, a retornante o interrompeu. “Estava tão perdida no meu auto-ódio que não cogitei que você poderia ficar do meu lado. Eu não me sentia à sua altura, mas eu queria desesperadamente ser boa o suficiente para estar ao seu lado, pra sentar nessa cadeira.”

Ela apontou para a cadeira ao lado direito da de Altador, que permanecia vazia desde a Traição.

“Então eu guardei tudo e quando não aguentei mais, decidi explodir o mundo! E a responsabilidade dessa merda é minha”, ela apontou pra si mesma, com raiva. “Porque mesmo você sendo rei, você nunca vai conseguir carregar o mundo nas costas como você parece que carrega!”

Altador se surpreendeu com a crítica, mas a acatou mesmo que ferisse seu orgulho.

“O que você me disse agora mostra que você sempre foi boa o suficiente para se sentar nessa cadeira.” ele se aproximou, enfim. “E mesmo que você tenha decidido explodir o mundo no passado, eu nunca deixei de te amar, assim como sei que nenhum deles também deixou”, ele apontou para os conselheiros, que confirmaram.

“Então é melhor que você pare com essa ideia de não ser capaz de ser amada porque a partir de hoje eu me comprometo em demonstrar meu amor por você com a maior clareza do mundo.”

Ele a envolveu num abraço intenso e saudoso, escondendo as lágrimas que escapuliram de seus olhos na curva de seu ombro.

A retornante também não conseguiu conter sua emoção uma última vez e cedeu, deitando no abraço de seu amigo.

Os dois ficaram deste jeito até que Florin pigarreou educadamente.

“Mas então, já que está tudo sendo remendado entre nós e voltamos a ser um conselho de doze membros… Poderia nos dizer o seu nome, minha flor?”

A fada das trevas corou, tinha se esquecido que parte das maldições que jogou causou o apagamento do seu nome da história.

“É Selene”, respondeu. “Meu nome é Selene”.

O Artefato

 Nova nota 7 “Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvor...