Tuesday, August 5, 2025

A Noite

    Selene tomou um pouco do chá que Fauna lhe ofereceu, talvez pela décima vez. A noite já havia caído, escura pela lua nova, e ela e Altador ainda estavam na fazenda das conselheiras amigas, com muito a ser discutido ainda.

     As respostas dos conselheiros não demoraram a chegar, como Jerdana havia previsto, mas havia muito mais detalhes e exigências do que esperavam. Siyanna e Sasha faziam questão de que os fazendeiros não levassem suas crianças e fossem acompanhados de uma equipe médica caso o fogo não pudesse ser contido. Torakor e Marak insistiam fortemente na mobilização das forças do exército e da marinha altadorianos caso Qasala decidisse retaliar a afronta sem uma discussão diplomática antes. Florin só aprovaria a proposta de ocupação se pudesse compor o corpo de fazendeiros e se Selene se comprometesse a contribuir com sua pesquisa sobre o desenvolvimento de plantações resistentes ao fogo mágico.

    A questão ia se complexificando antes deles terem a sombra de qualquer resultado prático e isso deixava a fada das trevas nervosa, tanto que seus cabelos antes presos em duas marias-chiquinhas bem arrumadas agora jaziam soltos e desgrenhados de tantos fios que foram mexidos e mordidos. Por mais que entendesse a necessidade de todo aquele cuidado, a ansiedade crescia dentro dela uma vez que o foco na ação se perdia, o que ela agora lembrava que era frequente quando se tratava do Conselho.

    “Psellia exigiu estar a postos no céu com nuvens de chuva caso o fogo não seja controlado”, Altador relia uma das cartas douradas que receberam em resposta com o rosto escorado no cotovelo de uma das mãos.

    “Aquele fogo não se apaga com água”, Jerdana suspirou. “Eu disse isso a ela milhares de vezes, mas ela nunca presta atenção no que eu falo!”

    “Vou responder a ela”, Fauna se adiantou, pegando a pena e papéis dourados em branco. “Espero que já não esteja dormindo...”

Argh!

    “Eu acho que vou lá pra fora tomar um ar”, Selene se levantou de supetão, derrubando a cadeira com o movimento brusco, a qual ela pôs de pé novamente antes de sair. Aproveitando-se da permanência, a fada também levou consigo um pedaço de bolo e sua xícara de chá.

    Bufando, ela se sentou na pequena escada de três degraus que ligava a varanda ao quintal e deu uma mordida no bolo. O sabor fresco de laranja e a sinfonia de grilos que cantava tirou seu foco do estresse por alguns segundos, lhe permitindo um momento clareza.

    Na penumbra do quintal iluminado apenas pela luz vindo da cozinha, ela viu pequenos vagalumes cintilando perto da grama como uma miniatura do céu limpo e estrelado acima deles.

    Ela procurou pela criação que mais a deixava orgulhosa: as constelações dos Heróis de Altador. Era impossível ver as 12 ao mesmo tempo, mas conseguia ver três delas descendo do meio do céu até o horizonte: O Fazendeiro, O Gladiador e A Dormente. Florin, Torakor e ela mesma.

    Ela comeu o resto do bolo e tomou o resto do chá, deixando a xícara ao seu lado no degrau sem tirar os olhos do céu.

    Selene sentia um quentinho dentro do seu coração sempre que se deparava com as estrelas que a representavam. Eles nunca a apagaram, mesmo sabendo que Jerdana tinha esse poder. Inicialmente pensou que aquilo se deu por puro esquecimento ou até mesmo desleixo, mas agora sabia que era porque, mesmo depois de tudo, ainda tinham esperança de voltarem a ser 12 novamente.

    “Admirando seu trabalho?”, Selene virou-se bruscamente para ver feiticeira, também com uma xícara de chá em mãos, atrás de si da porta da varanda.

    “Pode-se dizer que sim”, ela respondeu, observando a mulher sentar-se ao seu lado despretensiosamente. “Obrigada por deixá-lo mesmo depois… de tudo.”, ela acrescentou após um momento de hesitação.

    “Eu nunca apagaria nossa melhor lembrança da sua amizade”, ela lhe deu um sorriso largo e caloroso.

    Era a primeira vez que estava sozinha com Jerdana desde que chegou. Na verdade, a primeira vez que estava sozinha com Jerdana desde que a aprisionou em um calabouço no Mundo das Fadas quando tomou controle do reino por um breve momento.

    Um peso se recaiu sobre seus ombros.

    “Eu ainda não tive a chance de te pedir desculpas por ter te feito de refém e quase te torturado no castelo de Fyora”, as palavras eram estranhas de serem pronunciadas. “Eu achei que era impossível ser você. Eu achei que você já estivesse morta a milênios! Todos vocês… Não que sequestrar qualquer pessoa seja certo… Bom, depende da pessoa, mas o que eu quero dizer é que-”

    “Está tudo bem, Selene”, a feiticeira colocou uma mão afável em seu ombro. Ela olhava em seus olhos, sendo sincera em suas palavras. “Eu acredito que você não é mais aquela caricatura de si mesma que estava tentando ser.”

    Uma caricatura dela mesma, hein? Era assim que Jerdana via a Fada Tenebrosa, então. Selene não conseguiu reprimir um sorriso aliviado, embora ainda sentisse que não merecia ser perdoada por ela ou por todos os outros conselheiros — talvez com exceção de Altador — com tanta facilidade. Ela não havia feito nada por eles que compensasse seus atos malignos. Muito pelo contrário, sua chegada aprofundou uma crise política que já estava fora do controle.

    “E parabéns pelo seu casamento!”, ela arfou, lembrando-se de súbito. “Hã… 250 anos atrasado, eu acho.”

    “Na verdade, 249 anos e 8 meses atrasado”, ela colocou uma das mãos na frente do rosto, o riso sendo expresso nos olhos. “Renovaremos nossos votos no início do ano que vem.”

    Mas de repente, seu rosto murchou em uma expressão melancólica, as mãos movendo-se para acariciar os braços.

    “Sabe…”, ela começou, sem Selene precisar fazer nenhuma pergunta. “Eu queria muito poder renovar os votos no mesmo lugar em que nos casamos. Foi em um vinhedo de uma fazendeira amiga de Florin que ficava nos campos do leste.”, ela passou uma das mãos pelo ar, como se estivesse tocando folhas lobadas invisíveis. “Ele foi queimado em um dos incêndios. Agora é um campo de soja que Qasala usa para alimentar seus cavalos e camelos.”

    A tristeza de Jerdana fez os punhos de Selene se fecharem em um ato involuntário.

    “Jazan que vai virar a soja do cavalo dele” a fada falou sem pensar, enfurecida. Pensou em se retratar pelo comentário, mas desistiu quando viu que Jerdana pareceu recuperar um pouco de sua luz por causa dele.

    “Eu senti sua falta”, Jerdana deitou brevemente no ombro da fada. A frase e o gesto a pegaram de surpresa, mas não foi tão estranho quanto ela achou que seria. Selene e Jerdana um dia foram amigas próximas, do tipo que marcaram de se reunir na biblioteca para trocar conhecimentos mágicos e terminavam em uma mesa na Ambrosia Deliciosa fofocando sobre a vida enquanto tomavam hidromel e comiam a ambrosia especial da casa.

    Um passado esquecido há mais de um milênio trazido à tona com poucas palavras e um simples ato de afeto. Selene acreditava com todas as suas forças que a maior magia que existia no mundo era o poder do carinho de Jerdana.

    “Eu também”, ela se pegou dizendo. “Eu sei que isso é estranho, mas… Eu estou muito feliz de você ainda estar viva.”

    “E eu estou feliz que você não é uma estátua no fundo do oceano!”, ela segurou as mãos da fada. “E que Altador está finalmente virando gente de novo”, acrescentou em voz baixa.

    “Ele te contou sobre a reforma que fizemos na casa dele?”, Selene olhou para dentro da cozinha pela porta transparente, onde Altador e Fauna também haviam feito uma pausa e estavam conversando sobre o balcão da cozinha, na extremidade oposta da casa, e ficou contente em ver que ele conseguiu se dar um tempo para respirar também.

    “Não!”, os olhos de Jerdana brilharam. Ela tomou um pouco de seu chá. “Eu nem sei como estava o estado da casa dele pra vocês precisarem fazer uma reforma! Ele se recolheu muito depois da sua petrificação. Já cansamos de vê-lo parado em frente à janela da sala do Conselho só… ali. Olhando. Divagando. Como um vigilante que espera o perigo aparecer pra agir.”

    Ela imitou a postura clássica de Altador, com os dedos das mãos juntos e o olhar severo encarando o nada antes de continuar.

    “Mas agora ele está mais… solto. Mais feliz. Mais humano, até.”

      Ela deu outra olhada para trás, vendo-o comer o último pedaço de bolo de laranja da mesa e deixar migalhas cairem por sua barba, as quais recolheu com cuidado e jogou no lixinho de pia ao seu lado. Fauna pareceu agradecer pelo cuidado e ele retribuiu com um sorriso genuíno.

     “Eu gritei na cara dele que ele era uma pessoa”, Selene voltou-se pra Jerdana. “Que bom que ele começou a me escutar e finalmente entendeu.”

    “Realmente”, Jerdana se encolheu e apoiou os cotovelos nos joelhos, deixando sua xícara de lado. “Mas vem cá, que história é essa de vocês estarem morando juntos?”

    Ela estava com os olhos brilhando de curiosidade. Selene sabia o que ela queria saber: estaria algo… acontecendo entre eles? E, talvez por ser a primeira vez que fora confrontada com esse questionamento, mesmo que implicitamente, ou por não ser muito boa com sentimentos — sejam dela mesma ou dos outros — ela não sabia dizer se sim ou não.

    Ter Altador como colega de casa era extremamente mundano. Ela sentia-se à vontade para só existir do jeito que era perto dele, sem se sentir pressionada a ser uma heroína ou uma vilã. Eles comiam, conversavam, discutiam a disposição dos móveis, desarrumavam a casa para rearrumá-la de novo, descobriam coisas novas que precisariam ser consideradas na arrumação do dia seguinte, lavavam a louça, relembravam de boas memórias e então iam dormir. No entanto, os dias tinham leveza e conforto. A cada momento que passavam redecorando a casa, mais à vontade ela se sentia.

    Seus pesadelos de sempre — estar se afogando, não conseguir se mexer e ser perseguida por vozes que gritavam sobre sua natureza horrenda como fada das trevas — já não a assombravam mais, talvez pela lamparina de luz baixa e azulada que Altador havia arranjado para ela ou pela própria companhia do homem ao seu lado no colchão no chão. Além disso, ele cozinhava muito bem. Selene deve ter ganhado alguns quilos no último mês com a quantidade de pão e néctar que comiam só no café da manhã.

    Ela não pensava muito sobre a natureza da relação entre os dois. Estava ocupada demais curtindo os momentos com Altador, sem precisar se preocupar em ser heroína, vilã ou qualquer coisa além de apenas ela mesma.

    “Estamos sim, há um mês.”, ela respondeu, desviando o olhar. “Mas não somos nada além de dois amigos que estão se reconectando depois de um passado de muita treta. Eu acho. Eu realmente não penso muito sobre isso.”, a fada coçou a bochecha.

     A expressão de Jerdana era indecifrável.

    “Por um acaso ele já te mostrou alguma caixinha preta com o símbolo daquele seu amuleto?”

    “Não…?” Selene segurou o amuleto de sol e lua em volta de seu pescoço. “Por quê?”

    “Porque ele tem algo que quer te entregar há muitos anos”, ela olhou para algum lugar além de Selene, sombria. “Mas talvez seja cedo pra dizer se ele mudou de ideia ou só está esperando um momento melhor pra entregar.”

    A fada sentiu um calafrio subir pela espinha. Não fazia ideia do porquê Jerdana estava sendo tão misteriosa quanto a tal caixinha, mas o jeito que ela falava dela a dava uma sensação de que era algo importante sobre o passado, o que a fez querer mudar de assunto o mais rápido possível.

     “Bom, mas eu queria te perguntar…”, ela pigarreou. “O que você sabe sobre o fogo dos incêndios que o feitiço de Nuria protege?”

    “Hã… não muito, só que é algo que nunca vi antes”, Jerdana pareceu mais com ela mesma, segurando a barra de suas mangas compridas enquanto pensava. “Ele não apaga nem com água, nem com vento e nem com nenhum contrafeitiço que conheço, seja de trevas ou de luz.”

    “Vocês tentaram apagá-lo com mais fogo?”

    “Tentamos, sim. Fogo mágico feito por mim e por Siyanna, mas sem nenhum sucesso. Florin também tentou apagá-lo com várias misturas de líquidos, pós e espumas, mas de nada adiantou”, ela ergue as sobrancelhas de repente. “Na verdade, lembro que algumas dessas misturas fizeram o fogo aumentar!”

    Selene mordeu uma das unhas enquanto pensava, até que uma lembrança lhe veio à mente.

    Não… seria definitivamente improvável.

    Mas não impossível.

    “Eu acho que tenho um palpite”, a fada se levantou, limpando um pouco da terra do degrau que ficou em suas roupas, as ideias engatando uma na outra rapidamente. “Ele é meio fraco, mas talvez valha a pena considerá-lo, visto que vocês já tentaram de quase tudo.”

    “No que está pensando?” Jerdana pegou as xícaras vazias e ficou de pé junto com ela.

    “Num feitiço perdido”, a fada abriu a porta, indo para a cozinha a passos largos. “Mas preciso conversar com Florin antes de bater o martelo nessa teoria.”

    “Espera!”, a feiticeira segurou a porta enquanto a fada ia até a mesa com as cartas e começava a escrever. “Esse feitiço tem um nome? Eu conheço vários feitiços perdidos!”

    “Feitiço perdido?”, Fauna e Altador perguntaram em uníssono. “Você… acha que sabe como apagar o fogo?”, Fauna acrescentou, aproximando-se da mesa para ler o que ela estava escrevendo. Altador também se achegou, inspirando profundamente e murmurando algo como ‘era pra ser um lugar secreto’ ao ler o bilhete:

Florin, precisamos conversar sobre seus experimentos com o fogo mágico que amaldiçoou a cidade. Estou na casa de Altador, na colina onde estão os destroços da Tumba Inquieta.

Te espero lá amanhã à noite.

Selene


    “Mais ou menos”, ela colocou a pena dourada na toalha e a carta desapareceu, deixando apenas um pouco de poeira dourada para trás. “E, Jerdana, tenho certeza de que você não conhece o feitiço que estou pensando.”, ela olhou para a mulher que tinha colocado as xícaras na pia e se sentou ao seu lado na mesa. “Porque ele é meu, e eu não o ensino a ninguém há milênios.”

O Artefato

 Nova nota 7 “Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvor...