Wednesday, March 4, 2026

O Artefato

 Nova nota 7

“Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvores e de casinhas coloridas que brilhavam sob a luz do pôr do sol nos arredores do Mundo das Fadas, outrora uma gloriosa cidade nas nuvens, agora uma mancha rosa nos limites dos Bosques Assombrados.

Havia cinco dias que só confiava em seus livros para lhe fazer companhia em casa, ainda que a de Altador estivesse começando a fazer falta. O contato entre os dois minimizou ainda mais após sua última conversa, quando ele passou a deixar a comida em uma bandeja no chão e a bater na porta para avisar que a havia colocado lá antes de descer as escadas sem olhar para trás.

Por alguma razão, mesmo ele tendo confessado querer se livrar dela para sempre, ver Altador se afastando de costas para ela a machucava profundamente. No fundo, só desejava poder descer para jantar com Altador e conversar sobre a vida, os bons momentos passados e compartilhar histórias como se nada tivesse acontecido. Ela sentia falta de como seus olhos brilhavam quando a ouviam contar sobre sua vida no Mundo das Fadas, na época que ainda era apenas uma colônia de Fadas Celestes — aquelas que possuíam alguma conexão com o céu — ainda que fossem memórias curtas e triviais.

Por outro lado, Selene também se sentia encantada pelas histórias que Altador contava sobre sua infância em sua antiga vila. Havia uma certa magia nas palavras dele embebidas de nostalgia pela vida com os pais e a irmã; pela solidariedade entre os vizinhos, que ofereciam desde comida até serviços gratuitos para quem precisasse; e até mesmo no ódio compartilhado entre todos eles pelos nobres que extorquiam deles cada centavo que tinham no bolso. Falava com orgulho como todos foram acolhidos na cidade de Altador, onde gerações e mais gerações viveram em casas bonitas e com trabalho digno, sem que nenhuma moeda paga por eles não tenha sido revertida em serviços públicos que melhoraram a qualidade de vida de todos a cada dia.

Era realmente admirável como Altador era íntegro de corpo e alma. Ele honrava seu passado com suas atitudes no presente que inspiravam as pessoas no futuro. Ele era um símbolo perfeito de justiça e honra.

E em breve ela também poderia ser, graças a quem colocou o Mundo das Fadas no chão.

Entre os livros em sua estante, ela encontrou o diário de uma das aprendizes de Fyora, Alexandra — ou apenas Xandra — ninguém menos que a responsável pelo que ficou marcado na história como “A Ruína das Fadas”, e Selene havia devorado cada palavra nele escrito.

Xandra era uma estudante dedicada que conhecia os fundamentos da magia como poucas pessoas conhecem. Seus profundos estudos sobre rituais e artefatos mágicos eram brilhantes; seus feitiços eram simples e eficientes, muitos sendo versões de outros feitiços populares modificados para executar outras funções; e seu posicionamento quanto ao lugar de privilégio das fadas era bem fundado. Conseguia até ver uma semelhança das raízes de seus pensamentos com a conduta do Conselho: dar os recursos necessários a todos os que precisam, mas não os têm. 

O maior problema com feitiços que envolvem qualquer forma de controle ou mudança sobre almas, espíritos ou consciências é o quão difícil é mantê-las. Eles são irritantemente teimosos e sempre acabam retomando o controle ou retornando ao seu estado natural.

Para que qualquer forma de magia seja eficiente nesse quesito, é preciso ou arranjar uma forma de contornar a percepção da consciência sobre si mesma ou ao mundo ao seu redor  — que era como Selene conseguia realizar seus feitiços de manipulação mental em outras pessoas, mas não conseguiria usar em si mesma— ou esmagar a vontade da alma com uma quantidade absurda de poder — o que seria perfeito para uma reforma permanente, mas impossível de executar pois ninguém teria magia o suficiente para isso, nem mesmo ela na última noite de lua minguante do ciclo.

Foi então que Xandra lhe revelou através de suas anotações a existência de um artefato capaz de ampliar os poderes mágicos de seu portador. O alívio se espalhou por Selene no momento em que leu sobre ele: com certeza seria capaz de lhe dar força o suficiente para subjugar sua própria natureza maligna. Afinal, segundo os testes de Xandra, apesar do artefato ser composto de duas metades, mesmo uma delas já lhe fornecia poder o suficiente para conseguir petrificar todas as fadas de Neopia, contanto que estivessem em um só lugar (o festival das Fadas, genial!).

A fada se perguntava como teria sido se Xandra tivesse sido aluna de Jerdana ao invés de aprendiz de Fyora. Seria ela uma feiticeira renomada ou teria desenvolvido as mesmas ideias narcisistas e se tornado uma segunda traidora de Altador? Teria Xandra se tornado uma semente podre ou nascido como uma? Por mais que quisesse, era impossível saber. 

Sobrevoando um último telhado, ela encontrou seu destino: uma aconchegante casinha amarela com algumas trepadeiras subindo a cerca branca no quintal com algumas poucas árvores cheias de flechas presas em troncos repletos de marcas de lâmina. No centro, os restos de um boneco de treino revelavam que quem quer que usasse o quintal para treinos de batalha estava precisando urgentemente de um novo, pelo bem da vida vegetal do local.

“Um velho amigo meu está com este artefato há alguns anos”, Kelland estava tomando um vinho na Ambrosia Deliciosa como gostava de fazer toda tarde. “Ele me pediu para não divulgar para qualquer um, mas disse que se alguém de confiança estivesse disposto a pagar bem por ele, o venderia de bom grado.”

Pousando de cabeça para baixo em uma das árvores para além do quintal, Selene respirou fundo. Observou a pequena jarra de vidro presa em uma corda ao redor do pescoço, junto de seu colar com pingente de eclipse, balançando em frente aos seus olhos. Só precisaria quebrá-la para retornar ao laboratório, um truque antigo e simples, mas muito útil. Ela precisaria ser rápida com a compra se quisesse voltar para casa antes que Altador desse por sua falta. A culpa pulsava em seu peito, mas era um mal necessário para chegar onde precisava.

Ela desceu da árvore e se abaixou atrás da cerca. Invocou uma aparência agradável aos olhos que inspirasse simpatia e confiança, logo vendo-se em um corpo de um homem forte, alto e com cabelos longos. Dando-se por satisfeita, foi até a porta e tocou a campainha.

Quem atendeu foi um jovem com roupas gastas e de cabelos azulados longos o suficiente para serem amarrados em um pequeno rabo de cavalo baixo. Ele arregalou os olhos e empalideceu quando a viu.

“Rei Altador?!”

“Hein?!”, pelo espelho da parede do fundo, ela conseguiu ver seu disfarce: uma cópia idêntica de Altador, exceto pela barba. Percebendo a própria reação, Selene tentou disfarçar. “Eu?! Não, eu não seria tão bonito assim nem nos meus sonhos, haha!”, ela tentou ignorar a surpresa da semelhança das vozes indo direto ao ponto. “Estou aqui porque um amigo disse que você está vendendo um certo artefato amplificador de magia, será que poderíamos fechar negócio?”

“Uou, calma aí, parceiro!”, o rapaz colocou as mãos paralelas ao rosto como quem se rende à polícia. “Vamos com calma, a gente nem se apresentou!”, ele esticou um dos braços para um aperto de mão com um sorriso malandro. “Prazer, você é o…?”

“A…da…mastor?”, ela disse de improviso, o cumprimentando vagarosamente. Droga, ela precisava se estabilizar se quisesse vender aquele disfarce. “Desculpe, é que não costumo dizer meu nome a quem não conheço, a força do hábito me faz resistir. Mas meu amigo me garantiu que eu poderia confiar no senhor…?”

“Hanso”, ele soltou a mão dela, ainda com o mesmo sorriso no rosto. “Sim, aquele mesmo Hanso que salvou as fadas dos planos malignos de Xandra. Não me reconheceu? Talvez os anos não estejam sendo tão bondosos comigo…”

    “Oh, aquele Hanso? Eu sabia que estava te reconhecendo de algum lugar!”, ‘Adamastor’ mentiu, pois nunca havia aquele cara na vida. “Não passa pela cabeça da pessoa comum conhecer uma figura histórica de um jeito tão banal!”

“Ora, assim você me deixa envergonhado, Adamastor”, Hanso ainda sorrindo colocou uma das mãos no rosto como se quisesse escondê-lo, mas sem tirar o olhar do convidado. “Me diga, quem é seu amigo que me indicou?”


“O conheço apenas como Kell”, o sósia de Altador percebeu a armadilha e a evitou. Kelland era uma figura lendária mil vezes mais conhecida do que Hanso, mas também é um ladrão experiente que sabe de quem esconder sua identidade.

“Oh, Kell de Meridell, é claro!”, o jovem finalmente relaxou o rosto e pela primeira vez sorriu de verdade. “Venha, pode entrar, conversar no sofá é muito mais confortável do que ficar em pé aqui na porta.”

    “Sucesso!” Selene celebrou mentalmente. “Estou ganhando a confiança dele”

    O interior da casa era bastante decorado. Um relógio, quadros, medalhas, troféus e peças emolduradas estavam expostas nas paredes brancas e nas prateleiras de madeira lustrada. Um conjunto de sofás verde claro estava no meio da sala, um de três lugares e outro de dois, um de frente para o outro. Uma bandeira de Brightvale e outra de Meridell estavam acima do espelho no qual se vira antes de entrar. 

“Minha esposa é de Brightvale e eu sou de Meridell.”, ele estava atento ao olhar de Adamastor. “Há mais de 10 anos nos mudamos para o Mundo das Fadas, mas honramos nossas pátrias de origem.”

“E como Fyora se sente sobre isso?”, Adamastor perguntou controlando seu tom de voz, sabendo sobre o valor que Fyora tem por lealdade à sua liderança. O Mundo das Fadas e a classificação elemental das fadas não existiria sem ele. 

“Ela não parece ter muito interesse nas nossas vidas pessoais, só nos paga para estar sempre à disposição.”, ele deu de ombros, sentando-se no sofá e colocando uma das pernas em cima do joelho. “Ela vai, nos chama pra recuperar um artefato perigoso, a gente leva pro castelo dela e vida que segue. Mas por que não gosta dela?”

“E-eu? Não tenho nada contra ela!”, o convidado ergueu as mãos, ainda de pé. “Ela é a rainha das fadas, o maior bem que já existiu na face desse planeta, só tenho a agradecer por ela nos agraciar com a sua existência!”

“Ah, vai, pode ser sincero só tem nós dois aqui”, Hanso inclinou-se pra frente. “Senta ali, eu também não sou tão fã dela assim.”

Adamastor surpreendeu-se com a confissão. Aparentemente Hanso era um assalariado de Fyora, mas não era devoto dela. Não imaginava que tal coisa pudesse existir. 

“Como não?”, ele se sentou no sofá em frente ao jovem, ansioso pela explicação.

“Ela é meio estranha, parece que não sabe lidar com pessoas… O que é meio irônico para uma rainha”, ele se inclinou para trás e pôs os braços atrás da cabeça. “Eu admito que não confio muito nela. Não confio em monarcas no geral, quem dirá uma monarca aparentemente incompetente. Aparências enganam com muita facilidade.”

“Por isso está vendendo o artefato?”, Adamastor estreitou os olhos. “Não quer que ela o tenha em sua coleção?”

“Você é bom.”, Hanso o olhou no fundo dos olhos. “Então serei mais direto: por quê você o quer na sua?”

Selene respirou fundo. Hanso era perceptivo o suficiente para pegá-la na mentira se decidisse dar uma justificativa falsa. Então decidiu tentar ganhá-lo com a verdade.

“Eu… cometi muitos erros na minha vida”, Adamastor começou, desviando o olhar. “Erros graves, erros caros. Mas eu quero parar de cometer esses erros com um feitiço. Mas sem esse artefato eu não vou conseguir.”

Hanso pareceia ponderar. O relógio ecoava enquanto os segundos se arrastavam no silêncio da sala.

“Que tipo de erros?”

“Do tipo que te afastam de quem você mais ama e te colocam inúmeras vezes na mesma cela.”

As sobrancelhas do jovem saltaram e seu rosto murchou, os olhos espertos e observadores brilhando com empatia.

“Entendo”, ele disse após um momento de silêncio. “Estive nessa mesma posição um dia. Se não fosse por aquele artefato — e toda a Ruína das Fadas, na verdade — eu não estaria aqui com a minha Brynn.”

Hanso se levantou, sério e estendeu sua mão mais uma vez.

“Não se preocupe com o pagamento, nós podemos nos acertar depois.”

Adamastor ficou de pé e a apertou, balançando a para cima e para baixo uma vez, com confiança.

Então, neste momento, a porta da frente abriu e uma mulher ruiva de armadura roxa e rosa entrou.

“Desculpe o atraso, amor, mas acho que ainda dá pra chegar a tempo. Vou trocar de roupa bem rápido e…”, ela observou os dois homens de mãos dadas no meio da sala. “Rei Altador?!”

“Brynn!” Hanso imediatamente ficou na ponta dos pés e passou um dos braços pelos ombros de Selene. “Esse é o Adamastor, querida!”, ele esticou os lábios em um sorriso nervoso assustador. “Ele é um amigo meu de Meridell que estava aqui por perto e resolveu visitar!”

“Oh, muito prazer, Adamastor!”, Brynn o cumprimentou. “Desculpe a confusão. Você está aqui pela festa cigana também?”

Selene abriu a boca para falar, mas Hanso a impediu.

“Ah, a festa cigana! Sim, é claro!”, ele puxou o pescoço do homem para mais perto, sufocando-o. “Adamastor é um baita pé de valsa, não é, Adamastor? E olha, ficamos conversando tanto tempo que eu até esqueci de me arrumar!”

“Então melhor nós irmos rápido, eu não quero perder a primeira apresentação!”, Brynn pediu licença e passou por eles, que ficaram congelados na mesma posição até ouvir um barulho de porta fechando.

“Droga, ela foi pro quarto.”, Hanso soltou o convidado e começou a sussurrar. “Escuta, eu sei que isso é um baita de um inconveniente, mas você iria pra festa com a gente? Minha esposa não sabe dessa venda e eu vou estar muito encrencado se ela descobrir. Eu te entrego o artefato quando voltarmos para cá, eu prometo.”

Olhando para a escuridão do lado de fora e para o relógio na parede, Selene também se viu em uma enrascada. Ela sentiu um calafrio subindo pela sua espinha, mas ainda assim resolveu cooperar.

“Claro, vai ser divertido!”

Iria valer a pena. Tudo ficaria bem após o feitiço.

Monday, February 2, 2026

A Distância

    Sentada em uma das poltronas da sala, a fada via o temporal se formar do lado de fora.

    Conforme a visita de Florin se tornava passado recente, a angústia do que fazer quanto a seu colega de casa se presentificava.

    Era evidente que as coisas não seriam mais as mesmas entre os dois, não importava o que ela fizesse, mas valeria a pena revelar a ele o motivo? Um ultimato antigo que ele nunca foi capaz de fazer?

    E quando descobrisse sobre seu feitiço usado para incendiar as terras férteis da cidade, concluiria ele que não haveria salvação para ela? Destruiria sua estátua dessa vez?

    Seria toda a amizade que reconstruíram no último mês uma farsa? Estaria ele dando ouvido às suas ideias como forma de julgar sua moralidade?

    Seria mentira quando ele dizia que a amava?

    A respiração de Selene era rápida e intensa Ela contorceu o rosto e trincou os dentes em fúria pela desonestidade de Altador, mas esta derreteu em seus olhos, escorrendo pelo seu rosto como lágrimas. Não conseguia odiá-lo por mais que tentasse, nunca conseguiu. Só conseguia sentir a dor de desejar desesperadamente uma conexão profunda e genuína com ele e saber que nunca estaria ao seu nível para que isso acontecesse.

    Ele se oferecia de sacrifício pela segurança e conforto dos cidadãos comuns de Altador, mantinha distância do Conselho para mantê-lo seguro, prezava por ser humilde a todo momento — até dentro da própria casa. Altador merecia cada título que tinha e carregava o peso de todos com honra e graça, até mesmo ao ouvir as ideias estúpidas e egoístas de Selene que consideravam como mortal alguém que conseguiu atingir o patamar de deus.

    A tempestade caía sob a paisagem montanhosa enquanto a fada tentava abafar seus soluços encolhida na poltrona em volta de suas próprias asas. Ela nunca seria capaz de ser como ele. Por mais que pudesse escolher o altruísmo, ele cessava no momento em que tornava-se sacrifício. Sua natureza egocêntrica sempre falaria mais alto, não falaria?

    Cravou as unhas nos braços com os olhos fechados, o corpo tremendo de raiva e medo. Ela sabia que iria doer — e muito — mas não tinha escolha a não ser destruí-la.

    Lapidaria-se em alguma coisa melhor, verdadeiramente boa e gentil, disposta a fazer de tudo pelo bem de qualquer um ao seu redor. Ela seria uma deusa como ele.

    Embalada pela ideia, a mulher desvencilhou-se de si mesma, respirou fundo e dirigiu-se às escadas para voltar ao laboratório, quando avistou uma enorme silhueta parada aos pés dela e seu coração quase saiu pela boca junto de seu grito.

    “O que você está fazendo acordada?”, perguntou um Altador sonolento. “O sol ainda está nascendo.”

    “Ah, eu…”, ela tentou pensar em alguma coisa rápido, desviando do homem e subindo os degraus enquanto falava. “Dormi na poltrona, estou indo para a cama.”

    “Tudo bem”, ele bocejou. “O que você quer pro café da manhã? Fauna nos deu mirtilos dessa vez, você quer que eu faça geléia ou suco com eles?”

    “Hã, pode fazer o que você quiser”, ela gritou ao entrar em seu laboratório mágico.

    “Mas…”, ele começou, mas parou ao ouvir uma porta fechando.



    Uma batida na porta fez a mulher acordar no susto, levantando a cabeça de cima de um livro aberto em uma mesa repleta de outros. 

Lembrava-se de ter começado a reunir bibliografia sobre a natureza da alma, mas nada mais. Devia ter adormecido assim que começou a ler.

    Ela cambaleou até a porta, encontrando Altador com um prato de comida em uma mão e uma taça em outra.

    “Oi, hã…”, ele pigarreou, “Já está de tarde e eu fui te acordar no quarto pra comer, mas você não estava lá…”, ele observou Selene piscar lentamente, “Enfim, não sei porque você não disse que viria pra cá, mas eu fiz os dois”, Altador deu um sorriso amarelo e entregou a ela o prato com pão com geleia e mirtilos frescos mais a taça com suco.

    “Ah, obrigada”, sua companheira de casa, ainda no processo de acordar, pegou a louça e fechou a porta com um pé, quando Altador a impediu.

    “Espera!”, ele grasnou colocando a mão na porta. “Digo, como foi com Florin ontem? Vocês acharam um jeito de acabar com os incêndios?”

    A fada arregalou os olhos.

    “Nós concluímos que precisamos falar com Torakor antes de falar com Jazan sobre o fogo.”, ela limitou-se a dizer, forçando o pé atrás da porta.

    “Espera, Jazan?!”, Altador pôs mais força para mantê-la aberta. “Você tinha dito que achava ser um feitiço seu! É um feitiço dele?!”

    “É complicado”, ela evadiu a resposta aproveitando-se do conhecimento limitado de Altador sobre magia. “Agora eu realmente preciso voltar ao trabalho.”

    Com tristeza no olhar, o homem soltou a porta vagarosamente, que fechou-se sem perdão à sua frente. Ele virou-se para descer as escadas, quando ouviu o clique da maçaneta e virou a cabeça para trás.

    “Muito obrigada pela comida, majestade.” a fada das trevas disse em tom formal. “É uma honra para mim poder me deleitar no sabor de suas receitas.”

    A porta tornou a fechar-se, e Altador, de cabelo desarrumado e robes simples, repetiu silenciosamente a palavra “majestade”, um calafrio percorrendo por sua espinha.



“Querido amigo,

Florin me colocou a par da situação. Se a teoria de Selene estiver correta e a causa do fogo for comprovadamente um feitiço lançado por Jazan em nossas terras, ele terá infringido o acordo diplomático entre Altador e Qasala de não agressão, que inclui qualquer ataque físico ou mágico que venha prejudicar quaisquer uma das nações. Com isso, poderemos pedir legítimo apoio econômico e, se necessário, militar a Brightvale, Meridell e Maraqua para pressionar Jazan a retirar a maldição.

Pedirei a Jerdana para convocar uma reunião emergencial com todos os membros do Conselho. Sei que está afastado e Selene ainda precisa ficar escondida, mas creio que a presença de vocês seja fundamental para que possamos elaborar a melhor abordagem possível quanto a essa situação.

Até breve,

Torakor.”


    Selene levantou os olhos fundos de olheiras da carta para o rosto de Altador, sem demonstrar qualquer expressão. Recostada na porta, suas pálpebras pesavam como bigornas e ela tinha poucas forças para sustentá-las.

    Três dias pesquisando e esboçando ideias de como usar magia para moldar o comportamento instintivo de uma pessoa. Três dias tendo pesadelos nos quais alternavam entre não conseguir se mexer ou estar perdida no fundo do mar. Três dias de três batidas por dia na porta e o mesmo Altador tentando puxar conversa após lhe entregar uma refeição. Três dias de medo, fuga e exaustão. Ela mal conseguia raciocinar, mal conseguia se manter de pé…

    “Sell?”, o homem a segurou pelos ombros para não cair. Acordou no susto e se afastou por instinto, a adrenalina do toque a despertando apenas temporariamente. 

    “Me avisa quando a hora e o local tiverem sido esculpidos… digo, escolhidos.” Ela se corrigiu, soltando um bocejo. Já ia fechar a porta do laboratório novamente quando Altador a impediu, como sempre fazia.

    “Você não parece bem…”, ele a encarava com um olhar de súplica. “Podemos conversar, por favor?”

    Ele não iria parar de insistir e ela não tinha mais forças para fugir. 

    “Altador”, ela fechou os olhos e franziu o cenho. “Você gosta de mim de verdade?”

    “Como assim?”, ele parecia confuso. “É claro que gosto! Eu te amo! Eu estou me esforçando para cumprir minha promessa de demonstrar meu amor por você mais claramente.”

    “Sim, mas”, ela fixou o olhar no chão. “Não tem nenhuma parte sua que gostaria que eu fosse… diferente?”

    O homem virou a cabeça para o lado, retesando os músculos.

    “Onde você quer chegar com essa pergunta?”

    A evasão dele fez o coração dela congelar. 

    “Jerdana me contou sobre uma caixinha que você nunca me entregou.”, não havia mais porquê esconder nada dele. “Eu a encontrei.”

    “E qual a sua resposta?”, ele estava sério 

    “Eu… vou dar o máximo de mim para que aquilo não aconteça.”

 

    A expressão do homem ficou indecifrável por um momento, até que ele abriu um sorriso encabulado.

    “É, claro, agora faz sentido o porquê de você estar me evitando.”, ele passou a mão pelo cabelo, bufando. “Desculpe pelo que você descobriu, no fundo eu sabia que era um absurdo, mas me deixei seduzir pela ideia. Eu só… nunca tive forças para contar pra você.”

    Com aquelas últimas palavras, Altador fechou a porta, deixando Selene com seu próprio caos interno. Suas suspeitas foram confirmadas: ele realmente quis petrificá-la para destruir sua estátua em algum momento.

 

    E não havia garantia de que a ideia não fosse seduzí-lo novamente no futuro. 

 

    Seu feitiço era sua última esperança de um futuro seguro. 

Thursday, January 15, 2026

As Sombras do Passado

Altador e Selene retornaram para casa pouco tempo depois do bilhete a Florin ser enviado, – após terem ajudado a lavar a louça e limpar a mesa de migalhas de bolo — com Altador ainda reclamando sobre a revelação ‘gratuita’ da localização de sua casa. Sem remorsos, e com o argumento de que ela e Altador não poderiam viver isolados do resto dos amigos ou da sociedade para sempre, Selene foi direto para o quarto trocar de roupa para dormir. 

A escuridão e o silêncio do cômodo a receberam friamente. Por mais que tentasse, não conseguia deixar de sentir que seu passado não a deixaria em paz tão facilmente.

“Ele te mostrou uma caixinha preta com o símbolo do seu amuleto?”, a voz de Jerdana ecoava em sua cabeça. “Ali dentro tem algo que ele quer te mostrar há muito tempo”

A mobília recém arranjada no quarto antes vazio a julgava silenciosamente, mas Selene balançou a cabeça e abriu o segundo armário — uma monstruosidade cor-de-rosa adornada com ouro — que fora um presente de Fyora a Altador nunca posto para uso, para pegar um dos seus novos pijamas, outro presente Fyora que Altador nunca usou. A fada das trevas fez questão de se apoderar de tudo o que Fyora dera a ele, sabendo que a rainha das fadas teria um enorme desprazer em vê-la usufruindo de tais caprichos proporcionados por ela mesma.

Contemplou as três gavetas inutilizadas na seção central do móvel e pôs a mão em um dos puxadores dourados. Após um momento de hesitação, abriu a primeira gaveta devagar, que encontrava-se completamente vazia.

Então a próxima. Nada

E na última… apenas o fundo branco e limpo.

Não, Altador sequer deve ter tocado nesse armário depois de colocá-lo em seu depósito de presentes. Se ele tivesse que guardar alguma coisa importante em algum lugar, ele guardaria na…

A pequena cômoda elegante perto da mesinha simples a encarava nas sombras.

Aproximando-se como se a madeira polida estivesse coberta de espinhos, ela deslizou a primeira das duas gavetas para fora com a ponta dos dedos, revelando a mesma papelada de antes. Embaixo dela, a fada apenas encontrou alguns ramos de flores e ervas aromáticas secas, duas ou três rolhas de vinho e um saquinho macio cheio de algodão, o que Selene supôs que fossem as lembrancinhas dos casamentos que Altador realmente atendeu.

Fechando-a silenciosamente, ela respirou fundo antes de checar o último compartimento da cômoda.

E como uma maçã envenenada oferecida em uma bandeja de prata, uma caixinha preta dançou para fora da cômoda, bem no centro da gaveta, o símbolo de seu colar gravado na tampa de madeira reluzindo na penumbra. Então, cansada dos segredos do homem a seu respeito, a mulher abriu a tampa.

Largada no interior de veludo, uma pedra branca quebrada bem no meio jazia em seu próprio pó. Com o coração apertado, Selene tomou os pedaços esfarelentos em suas mãos, olhando para eles como quem olha para um espelho.

Altador um dia planejou matá-la, ele mesmo havia admitido.

Se isto estava nessa caixa há tanto tempo, só poderia ser uma mensagem que ele planejava passar a ela no passado.

A consequência por ter quebrado sua confiança e ter tentando tomar a cidade.

Sua petrificação havia sido planejada, então. Mas o que aconteceu para que Altador não quebrasse sua estátua — suas estátuas — quando teve a oportunidade? Misericórdia? Perdão? Amor? Há quanto tempo ele estava dando chances a ela?

E o que o faria voltar em sua decisão?

A cabeça de Selene girava em perguntas, o aconchego e a segurança que sentia naquela casa se transformando em medo e vergonha. Ela deveria saber que cicatrizes profundas não desaparecem. Ela estava sendo testada, afinal, e não estava indo nada bem. Não precisava pensar muito em suas ações para saber disso. Só o feitiço da coceira que o fez sangrar já era um forte indício de seu mau desempenho, apesar de reconhecer que Altador deveria ter contado a ela o que estava acontecendo na cidade. Mas como culpá-lo, se ele não poderia confiar no que Selene faria ao saber?

Ela deveria ter feito algo diferente, ter provado que era alguém diferente. Alguém melhor. Uma heroína como eles. 

Ao invés disso ela bisbilhotava, causava escândalos e continuava a afrontar Altador como sempre fez.

Jerdana deveria estar alertando-a que existem outros segredos que Altador guardava em relação a ela. E se a primeira suspeita dela houvesse sido romance — como sempre — a segunda deveria ser desconfiança.

Resoluta, a mulher recolocou os fragmentos de rocha de volta na caixa e a selou na cômoda, determinada a provar-se uma verdadeira heroína aos olhos de seu rei.


“Selene, há quanto tempo, guria!” Florin chegou quando o sol se pôs e lhe deu um abraço apertado, o qual ela tentou retribuir com a pouca energia que tinha. “Eu teria vindo te ver antes se eu pudesse! Cadê seu colega de casa?”

“Ah, ele…” ela soltou um bocejo. “Está dormindo no quarto. Chegamos tarde em casa ontem e ele capotou na cama logo depois.”

“Ah, sim, vocês estavam na casa de Jerdana e Fauna mandando cartas”, ele apontou. “Mas e você? Não dormiu não?”

“Acabei de acordar!”, mentiu. Ficou deitada na cama por algum tempo sem sequer conseguir fechar os olhos, e quando Altador entrou no quarto, ela fingiu estar dormindo para não interagir. Depois de alguns minutos, tendo ouvido o colchão ser colocado no chão em frente à porta e Altador parado de se remexer nele, ela pegou as roupas do dia anterior que estavam jogadas no chão e voou pela janela, reentrando na casa pela frente. Seus pensamentos a mantiveram acordada o dia inteiro. “Mas vem, entra, vamos subir pra você me contar sobre os incêndios.”

Livre de mobílias e presentes finos e agora com um forte cheiro de incenso, o depósito de Altador se tornou o laboratório de feitiços de Selene. Muitas vezes o homem se certificou de que a fada tinha certeza que não gostaria de reformar o lugar — que estava com o chão marcado e com a tinta da parede descascando em alguns lugares — antes de utilizá-lo, mas ela negou e brincou que a atmosfera sinistra iria inspirá-la a criar feitiços obscuros e poderosos. Agora, o arrependimento subia por sua espinha com um gélido calafrio. Nenhuma pessoa com boas intenções faria um comentário desses, faria?

Longas cortinas cor de lavanda pendiam em frente a janela e teias de aranha se acumulavam próximo ao teto. Livros e mais livros escritos por feiticeiras e fadas das trevas, inclusive Selene, enchiam as várias estantes ainda empoeiradas em um dos lados do cômodo. De frente para elas, um gaveteiro e uma mesa de jantar arroxeados com vários potes de vidro vazios esperavam ser preenchidos por experimentos futuros. E, por fim, no centro do quarto um pequeno círculo de pedra adornava uma grande panela de sopa sem nenhum sinal de uso.

“Ei, eu acho que lembro da Fada do Sopão dar isso de aniversário pro Altador ano passado”, Florin comentou ao entrar no laboratório. 

“É, eu ainda não consegui um caldeirão, mas a panela vai servir por enquanto”, Selene puxou uma das cadeiras da mesa de jantar para ele e sentou-se em outra. “Um laboratório de magia não é muito diferente de uma cozinha, afinal”

“Meu laboratório é minha cozinha!”, Florin sentou-se, com os olhos brilhando. “Quando não estou fazendo o almoço, estou conduzindo estudos botânicos lá. Inclusive fiz testes em várias sementes para saber como reagiam ao fogo. Encontrei algumas leguminosas comestíveis resistentes às chamas comuns, mas infelizmente não resistiram àquele fogo mágico maldito” sua expressão ficou obscura.

Selene cruzou as pernas e apoiou o indicador no queixo.

“Jerdana disse que uma de suas misturas fez o fogo aumentar”, ela apertou os olhos. “Você se lembra qual?”

Os olhos do fazendeiro se perderam por alguns segundos, as sobrancelhas se juntando no meio da testa sob seus cabelos loiros. Então ele tirou do cinto um pequeno caderno de capa de couro e folhas manchadas, folheando-o com rapidez.

A fada umedeceu os lábios, tensa e curiosa pela informação que seu velho amigo lhe daria. Se suas suspeitas estivessem erradas, não saberia mais como ajudar. Porém, se estivessem corretas… talvez essa fosse a única chance do Conselho recuperar o apoio da população e de Selene demonstar heroísmo a Altador, tanto a cidade quanto o monarca.

“Ah, foi a tentativa de contra-feitiço tradicional com alguns itens que Psell me me deu”, ele aperta os olhos para o caderno. “Aqui diz que foi só água fria energizada com quartzos rosa e terra de cemitério. Não sei muito bem como magia funciona, mas não esperava que lama macabra fosse apagar o fogo e imaginei que a piora dele tivesse sido por causa das energias negativas dos mortos.”

A caixa de lembranças na mente de Selene se abre de supetão. O gosto da ambrosia, o vento frio balançando seus cabelos, os breves momentos de conversa em meio a longos períodos de silêncio ao entardecer. Momentos monótonos e longínquos pintados com as cores da nostalgia de um tempo diferente protegido dos problemas do presente. 

“Eu amei ver minha constelação no céu ontem, Sel.” sentada em uma nuvem, Psellia balançava os pés livres. “Não sei como você consegue fazer coisas assim! A magia das trevas é tão difícil… tão confusa e sem propósito… Sem ofensas.”, seu corpo retesou por um momento. “Eu só não consigo entender como ela funciona.”

“Tudo bem”, Selene respondeu da janela da torre do observatório celeste. “Ela é complicada porque diferente da magia elemental, que vem da matéria inerte já pronta para manipulação, o que chamamos de magia das trevas vem de seres vivos, que são confusos e sem propósito por si só. Por isso ela é difícil de dominar: tudo é um emaranhado de pensamentos e sentimentos que nem sempre fazem sentido ou têm origens conhecidas”

“Nossa, parece um pesadelo”, a fada do ar jogou a cabeça para trás. “Eu nunca conseguiria fazer um feitiço com essa energia instável.”

“É por isso que muitos usuários de magia das trevas usam energias negativas como pontos de foco”, Selene adicionou, apoiando os cotovelos no parapeito. “Ódio, raiva, medo, tristeza… Tudo isso apaga o barulho de fundo e concentra a magia em um só alvo. Principalmente o ódio, que é o que eu mais gosto de usar. Depois disso, é só se ajustar ao ritmo da magia e ela obedece.”

“Parece um processo bem dramático”, Psellia olhou para Selene e depois para as estrelas, que começavam a aparecer no céu. “Combina com você”.

De volta ao presente, a fada encontrou os olhos de Florin, que a observavam com preocupação.

“Você disse água energizada com quartzos rosa?”, ela repetiu as palavras do fazendeiro, que assentiu. “Psellia tentou usar a regra dos opostos como contra-feitiço. Ela quis anular ódio diretamente com amor.”, a fada bateu na própria testa com uma mão e a deslizou pelo rosto. 

“Mas se as chamas reagiram”, continuou pensativa. “Significa que alguém usou ódio para criá-las.“

“E como essa informação nos ajuda?”, Florin parecia tão confuso quanto esperançoso. “Não é uma coisa comum fazer feitiços com ódio?”

“Sim, mas não pra criar fogo!”, os olhos de Selene arderam com a pista. “Ao contrário de mim, a maioria das fadas e feiticeiros não consegue controlar as chamas que vêm do ódio. Quem quer que tenha amaldiçoado aquelas fazendas é um usuário de magia das trevas poderoso.” 

Selene hesitou antes de continuar 

“Talvez esse seja mesmo um feitiço que eu criei”, ela desviou o olhar para a panela no centro da sala. Às vezes nem ela mesma conseguia entender a dimensão do rastro de destruição que deixava na vida dos amigos. 

Imediatamente, as mãos de Florin encontraram as suas.

“Não foi você quem nos amaldiçoou com ele”, seus olhos brilhavam com empatia. “E também, se foi você quem o fez, você também sabe como desfazê-lo, certo?”

O menor dos sorrisos pousou nos lábios de Selene.

“Talvez, mas primeiro precisamos ter certeza. Você tem alguma coisa, qualquer coisa, que tenha sido exposta ao fogo mágico?”

As sobrancelhas de Florin saltaram e ele retirou de um dos bolsos um pequeno saco de cetim com finas sementes carbonizadas dentro.

“As leguminosas que eu falei”, ele as ofereceu a ela.

Se apoderando do saco e pedindo para Florin a aguardar, a fada levantou-se e correu até a cozinha para pegar água e alguns temperos de cozinha. Ao voltar, despejou tudo na panela e ateou fogo nas pedras, criando uma pequena fogueira de labaredas púrpuras no chão.

Sentou-se no chão e recitou algumas palavras. Por fim, adicionou as sementes à mistura, as quais se dissolveram por completo e transformar a água cheirosa em sangue viscoso e quente.

Um vinco surgiu na testa da mulher.

“Tá… é isso mesmo. Aquilo é Fogo de Sangue, e é uma maldição que eu fiz muito antes de conhecer qualquer um de vocês.”, ela mostrou o conteúdo da panela ao amigo. “Tá vendo que ficou assim? Isso é porque o fogo está a procura de sangue.”

“Valha-me Fyora!” Florin arregalou os olhos. “Então a maldição tá em uma pessoa?!”

“Eu idealizei esse feitiço com a intenção de embeber um objeto em sangue fervente, não uma pessoa.”, Selene apagou a fogueira e o sangue voltou a ser água limpa e aromatizada. “Claro que tudo é possível com um pouco de criatividade, mas acho que se alguém tivesse tomado um banho de sangue escaldante, nós já saberíamos.”

Florin não pareceu menos assustado.

“A maldição funciona como um rastreador.”, ela prosseguiu. “Um objeto é prometido ao fogo e as chamas de ódio não param por nada até queimá-lo a não ser que seu criador as ordene o contrário.”

O fazendeiro levantou-se da cadeira, estupefato.

“Mas como os fazendeiros de Jazan conseguiriam manter o fogo apagado?”, ele começou a andar pelo cômodo. “Seriam eles apenas informantes? É possível comandar o fogo à distância?”, ele lhe deu um olhar sério, que se intensificou quando a fada assentiu. “Então só conseguiremos acabar com o incêndio de vez se obrigássemos seu criador a mantê-lo apagado ou queimarmos o tal objeto prometido?”

Selene assentiu novamente, mas sem muita certeza.

“Até onde eu sei, sim. Mas eu era jovem quando tive a ideia dessa maldição, então talvez haja alguma outra forma de pará-lo.”, ela abraçou os joelhos, olhando para as pedras quentes no chão de concreto. “Eu era bem mais inexperiente e inconsequente naquela época”

“Garota, estamos tentando descobrir um jeito de apagar esse fogo há 12 anos.” Florin soltou uma risada seca. “Seu feitiço é tão forte quanto as montanhas que cercam nossos muros!”

Havia uma estranha pontada de orgulho na voz do fazendeiro, o que fez Selene se sentir um pouco menos pior com sua participação naquela crise. Ele não parecia zangado ou com medo dela, muito pelo contrário, via nela suas melhores chances de resolver a questão de uma vez por todas. 

Encontrando forças nas palavras do homem, ela se levantou do chão, a panela já morna em suas mãos.

“Está pensando em agendar uma visitinha a Jazan e Nuria?”, ela sorriu com um canto da boca

Florin retribuiu o sorriso, estalando os dedos.

“Não sem antes combinar nossa estratégia de inteligência com Torakor.”

Tuesday, August 5, 2025

A Noite

    Selene tomou um pouco do chá que Fauna lhe ofereceu, talvez pela décima vez. A noite já havia caído, escura pela lua nova, e ela e Altador ainda estavam na fazenda das conselheiras amigas, com muito a ser discutido ainda.

     As respostas dos conselheiros não demoraram a chegar, como Jerdana havia previsto, mas havia muito mais detalhes e exigências do que esperavam. Siyanna e Sasha faziam questão de que os fazendeiros não levassem suas crianças e fossem acompanhados de uma equipe médica caso o fogo não pudesse ser contido. Torakor e Marak insistiam fortemente na mobilização das forças do exército e da marinha altadorianos caso Qasala decidisse retaliar a afronta sem uma discussão diplomática antes. Florin só aprovaria a proposta de ocupação se pudesse compor o corpo de fazendeiros e se Selene se comprometesse a contribuir com sua pesquisa sobre o desenvolvimento de plantações resistentes ao fogo mágico.

    A questão ia se complexificando antes deles terem a sombra de qualquer resultado prático e isso deixava a fada das trevas nervosa, tanto que seus cabelos antes presos em duas marias-chiquinhas bem arrumadas agora jaziam soltos e desgrenhados de tantos fios que foram mexidos e mordidos. Por mais que entendesse a necessidade de todo aquele cuidado, a ansiedade crescia dentro dela uma vez que o foco na ação se perdia, o que ela agora lembrava que era frequente quando se tratava do Conselho.

    “Psellia exigiu estar a postos no céu com nuvens de chuva caso o fogo não seja controlado”, Altador relia uma das cartas douradas que receberam em resposta com o rosto escorado no cotovelo de uma das mãos.

    “Aquele fogo não se apaga com água”, Jerdana suspirou. “Eu disse isso a ela milhares de vezes, mas ela nunca presta atenção no que eu falo!”

    “Vou responder a ela”, Fauna se adiantou, pegando a pena e papéis dourados em branco. “Espero que já não esteja dormindo...”

Argh!

    “Eu acho que vou lá pra fora tomar um ar”, Selene se levantou de supetão, derrubando a cadeira com o movimento brusco, a qual ela pôs de pé novamente antes de sair. Aproveitando-se da permanência, a fada também levou consigo um pedaço de bolo e sua xícara de chá.

    Bufando, ela se sentou na pequena escada de três degraus que ligava a varanda ao quintal e deu uma mordida no bolo. O sabor fresco de laranja e a sinfonia de grilos que cantava tirou seu foco do estresse por alguns segundos, lhe permitindo um momento clareza.

    Na penumbra do quintal iluminado apenas pela luz vindo da cozinha, ela viu pequenos vagalumes cintilando perto da grama como uma miniatura do céu limpo e estrelado acima deles.

    Ela procurou pela criação que mais a deixava orgulhosa: as constelações dos Heróis de Altador. Era impossível ver as 12 ao mesmo tempo, mas conseguia ver três delas descendo do meio do céu até o horizonte: O Fazendeiro, O Gladiador e A Dormente. Florin, Torakor e ela mesma.

    Ela comeu o resto do bolo e tomou o resto do chá, deixando a xícara ao seu lado no degrau sem tirar os olhos do céu.

    Selene sentia um quentinho dentro do seu coração sempre que se deparava com as estrelas que a representavam. Eles nunca a apagaram, mesmo sabendo que Jerdana tinha esse poder. Inicialmente pensou que aquilo se deu por puro esquecimento ou até mesmo desleixo, mas agora sabia que era porque, mesmo depois de tudo, ainda tinham esperança de voltarem a ser 12 novamente.

    “Admirando seu trabalho?”, Selene virou-se bruscamente para ver feiticeira, também com uma xícara de chá em mãos, atrás de si da porta da varanda.

    “Pode-se dizer que sim”, ela respondeu, observando a mulher sentar-se ao seu lado despretensiosamente. “Obrigada por deixá-lo mesmo depois… de tudo.”, ela acrescentou após um momento de hesitação.

    “Eu nunca apagaria nossa melhor lembrança da sua amizade”, ela lhe deu um sorriso largo e caloroso.

    Era a primeira vez que estava sozinha com Jerdana desde que chegou. Na verdade, a primeira vez que estava sozinha com Jerdana desde que a aprisionou em um calabouço no Mundo das Fadas quando tomou controle do reino por um breve momento.

    Um peso se recaiu sobre seus ombros.

    “Eu ainda não tive a chance de te pedir desculpas por ter te feito de refém e quase te torturado no castelo de Fyora”, as palavras eram estranhas de serem pronunciadas. “Eu achei que era impossível ser você. Eu achei que você já estivesse morta a milênios! Todos vocês… Não que sequestrar qualquer pessoa seja certo… Bom, depende da pessoa, mas o que eu quero dizer é que-”

    “Está tudo bem, Selene”, a feiticeira colocou uma mão afável em seu ombro. Ela olhava em seus olhos, sendo sincera em suas palavras. “Eu acredito que você não é mais aquela caricatura de si mesma que estava tentando ser.”

    Uma caricatura dela mesma, hein? Era assim que Jerdana via a Fada Tenebrosa, então. Selene não conseguiu reprimir um sorriso aliviado, embora ainda sentisse que não merecia ser perdoada por ela ou por todos os outros conselheiros — talvez com exceção de Altador — com tanta facilidade. Ela não havia feito nada por eles que compensasse seus atos malignos. Muito pelo contrário, sua chegada aprofundou uma crise política que já estava fora do controle.

    “E parabéns pelo seu casamento!”, ela arfou, lembrando-se de súbito. “Hã… 250 anos atrasado, eu acho.”

    “Na verdade, 249 anos e 8 meses atrasado”, ela colocou uma das mãos na frente do rosto, o riso sendo expresso nos olhos. “Renovaremos nossos votos no início do ano que vem.”

    Mas de repente, seu rosto murchou em uma expressão melancólica, as mãos movendo-se para acariciar os braços.

    “Sabe…”, ela começou, sem Selene precisar fazer nenhuma pergunta. “Eu queria muito poder renovar os votos no mesmo lugar em que nos casamos. Foi em um vinhedo de uma fazendeira amiga de Florin que ficava nos campos do leste.”, ela passou uma das mãos pelo ar, como se estivesse tocando folhas lobadas invisíveis. “Ele foi queimado em um dos incêndios. Agora é um campo de soja que Qasala usa para alimentar seus cavalos e camelos.”

    A tristeza de Jerdana fez os punhos de Selene se fecharem em um ato involuntário.

    “Jazan que vai virar a soja do cavalo dele” a fada falou sem pensar, enfurecida. Pensou em se retratar pelo comentário, mas desistiu quando viu que Jerdana pareceu recuperar um pouco de sua luz por causa dele.

    “Eu senti sua falta”, Jerdana deitou brevemente no ombro da fada. A frase e o gesto a pegaram de surpresa, mas não foi tão estranho quanto ela achou que seria. Selene e Jerdana um dia foram amigas próximas, do tipo que marcaram de se reunir na biblioteca para trocar conhecimentos mágicos e terminavam em uma mesa na Ambrosia Deliciosa fofocando sobre a vida enquanto tomavam hidromel e comiam a ambrosia especial da casa.

    Um passado esquecido há mais de um milênio trazido à tona com poucas palavras e um simples ato de afeto. Selene acreditava com todas as suas forças que a maior magia que existia no mundo era o poder do carinho de Jerdana.

    “Eu também”, ela se pegou dizendo. “Eu sei que isso é estranho, mas… Eu estou muito feliz de você ainda estar viva.”

    “E eu estou feliz que você não é uma estátua no fundo do oceano!”, ela segurou as mãos da fada. “E que Altador está finalmente virando gente de novo”, acrescentou em voz baixa.

    “Ele te contou sobre a reforma que fizemos na casa dele?”, Selene olhou para dentro da cozinha pela porta transparente, onde Altador e Fauna também haviam feito uma pausa e estavam conversando sobre o balcão da cozinha, na extremidade oposta da casa, e ficou contente em ver que ele conseguiu se dar um tempo para respirar também.

    “Não!”, os olhos de Jerdana brilharam. Ela tomou um pouco de seu chá. “Eu nem sei como estava o estado da casa dele pra vocês precisarem fazer uma reforma! Ele se recolheu muito depois da sua petrificação. Já cansamos de vê-lo parado em frente à janela da sala do Conselho só… ali. Olhando. Divagando. Como um vigilante que espera o perigo aparecer pra agir.”

    Ela imitou a postura clássica de Altador, com os dedos das mãos juntos e o olhar severo encarando o nada antes de continuar.

    “Mas agora ele está mais… solto. Mais feliz. Mais humano, até.”

      Ela deu outra olhada para trás, vendo-o comer o último pedaço de bolo de laranja da mesa e deixar migalhas cairem por sua barba, as quais recolheu com cuidado e jogou no lixinho de pia ao seu lado. Fauna pareceu agradecer pelo cuidado e ele retribuiu com um sorriso genuíno.

     “Eu gritei na cara dele que ele era uma pessoa”, Selene voltou-se pra Jerdana. “Que bom que ele começou a me escutar e finalmente entendeu.”

    “Realmente”, Jerdana se encolheu e apoiou os cotovelos nos joelhos, deixando sua xícara de lado. “Mas vem cá, que história é essa de vocês estarem morando juntos?”

    Ela estava com os olhos brilhando de curiosidade. Selene sabia o que ela queria saber: estaria algo… acontecendo entre eles? E, talvez por ser a primeira vez que fora confrontada com esse questionamento, mesmo que implicitamente, ou por não ser muito boa com sentimentos — sejam dela mesma ou dos outros — ela não sabia dizer se sim ou não.

    Ter Altador como colega de casa era extremamente mundano. Ela sentia-se à vontade para só existir do jeito que era perto dele, sem se sentir pressionada a ser uma heroína ou uma vilã. Eles comiam, conversavam, discutiam a disposição dos móveis, desarrumavam a casa para rearrumá-la de novo, descobriam coisas novas que precisariam ser consideradas na arrumação do dia seguinte, lavavam a louça, relembravam de boas memórias e então iam dormir. No entanto, os dias tinham leveza e conforto. A cada momento que passavam redecorando a casa, mais à vontade ela se sentia.

    Seus pesadelos de sempre — estar se afogando, não conseguir se mexer e ser perseguida por vozes que gritavam sobre sua natureza horrenda como fada das trevas — já não a assombravam mais, talvez pela lamparina de luz baixa e azulada que Altador havia arranjado para ela ou pela própria companhia do homem ao seu lado no colchão no chão. Além disso, ele cozinhava muito bem. Selene deve ter ganhado alguns quilos no último mês com a quantidade de pão e néctar que comiam só no café da manhã.

    Ela não pensava muito sobre a natureza da relação entre os dois. Estava ocupada demais curtindo os momentos com Altador, sem precisar se preocupar em ser heroína, vilã ou qualquer coisa além de apenas ela mesma.

    “Estamos sim, há um mês.”, ela respondeu, desviando o olhar. “Mas não somos nada além de dois amigos que estão se reconectando depois de um passado de muita treta. Eu acho. Eu realmente não penso muito sobre isso.”, a fada coçou a bochecha.

     A expressão de Jerdana era indecifrável.

    “Por um acaso ele já te mostrou alguma caixinha preta com o símbolo daquele seu amuleto?”

    “Não…?” Selene segurou o amuleto de sol e lua em volta de seu pescoço. “Por quê?”

    “Porque ele tem algo que quer te entregar há muitos anos”, ela olhou para algum lugar além de Selene, sombria. “Mas talvez seja cedo pra dizer se ele mudou de ideia ou só está esperando um momento melhor pra entregar.”

    A fada sentiu um calafrio subir pela espinha. Não fazia ideia do porquê Jerdana estava sendo tão misteriosa quanto a tal caixinha, mas o jeito que ela falava dela a dava uma sensação de que era algo importante sobre o passado, o que a fez querer mudar de assunto o mais rápido possível.

     “Bom, mas eu queria te perguntar…”, ela pigarreou. “O que você sabe sobre o fogo dos incêndios que o feitiço de Nuria protege?”

    “Hã… não muito, só que é algo que nunca vi antes”, Jerdana pareceu mais com ela mesma, segurando a barra de suas mangas compridas enquanto pensava. “Ele não apaga nem com água, nem com vento e nem com nenhum contrafeitiço que conheço, seja de trevas ou de luz.”

    “Vocês tentaram apagá-lo com mais fogo?”

    “Tentamos, sim. Fogo mágico feito por mim e por Siyanna, mas sem nenhum sucesso. Florin também tentou apagá-lo com várias misturas de líquidos, pós e espumas, mas de nada adiantou”, ela ergue as sobrancelhas de repente. “Na verdade, lembro que algumas dessas misturas fizeram o fogo aumentar!”

    Selene mordeu uma das unhas enquanto pensava, até que uma lembrança lhe veio à mente.

    Não… seria definitivamente improvável.

    Mas não impossível.

    “Eu acho que tenho um palpite”, a fada se levantou, limpando um pouco da terra do degrau que ficou em suas roupas, as ideias engatando uma na outra rapidamente. “Ele é meio fraco, mas talvez valha a pena considerá-lo, visto que vocês já tentaram de quase tudo.”

    “No que está pensando?” Jerdana pegou as xícaras vazias e ficou de pé junto com ela.

    “Num feitiço perdido”, a fada abriu a porta, indo para a cozinha a passos largos. “Mas preciso conversar com Florin antes de bater o martelo nessa teoria.”

    “Espera!”, a feiticeira segurou a porta enquanto a fada ia até a mesa com as cartas e começava a escrever. “Esse feitiço tem um nome? Eu conheço vários feitiços perdidos!”

    “Feitiço perdido?”, Fauna e Altador perguntaram em uníssono. “Você… acha que sabe como apagar o fogo?”, Fauna acrescentou, aproximando-se da mesa para ler o que ela estava escrevendo. Altador também se achegou, inspirando profundamente e murmurando algo como ‘era pra ser um lugar secreto’ ao ler o bilhete:

Florin, precisamos conversar sobre seus experimentos com o fogo mágico que amaldiçoou a cidade. Estou na casa de Altador, na colina onde estão os destroços da Tumba Inquieta.

Te espero lá amanhã à noite.

Selene


    “Mais ou menos”, ela colocou a pena dourada na toalha e a carta desapareceu, deixando apenas um pouco de poeira dourada para trás. “E, Jerdana, tenho certeza de que você não conhece o feitiço que estou pensando.”, ela olhou para a mulher que tinha colocado as xícaras na pia e se sentou ao seu lado na mesa. “Porque ele é meu, e eu não o ensino a ninguém há milênios.”

Monday, March 17, 2025

A Visita

“Por que eu não posso ir com você?”, Selene choramingou, vestindo uma camisa antiga de Altador que ficava grande demais nela por baixo de uma jardineira feita com panos velhos e magia. “Fui eu quem deu a ideia de levar o busto lá!”

    Estava pronta para sair, o cabelo preto com mechas azuladas ainda molhado preso em duas marias-chiquinhas na altura dos ombros.

    “Porque é perigoso, minha querida.”, Altador, também já de banho tomado e usando roupas simples, mas limpas, respondeu com carinho. “Como eu já tinha dito antes, é melhor você ficar aqui por mais um tempo… Sem sair daqui por mais um tempo. As pessoas ainda não esqueceram do Acidente.”

    “Mas nós só vamos descer a colina!”, ela apontou para a porta com os braços, indignada. “E você não tem nem vizinhos para ver a gente descendo a colina!”

    “Eu não…”, Altador hesitou. “Eu não quero arriscar.”

    A fada apertou os olhos para ele.

    “O que você não está me contando?”, ela cruzou os braços. “Espero que não tenha esquecido do que eu falei sobre você conhecer as piores magias do meu grimório…”

    “Ah, mas eu me recordo perfeitamente.”, ele disse, envolvendo o busto em um dos braços e a cesta vazia que Jerdana e Fauna enchiam todas as manhãs com uma das mãos. “Mas eu não estava mentindo quando disse que gostava da sua companhia, então você não tem motivos para me amaldiçoar. Eu volto no início da tarde!”
    
    O homem pôs a mão na maçaneta da porta da frente, mas sentiu uma mão macia segurá-lo pelo pulso cuja mão segurava a cesta.

 “Espera!”

O gesto inesperado o fez congelar no lugar com calafrios subindo pelo braço cujo contato com a mão da fada foi feito.

    “Me… desculpa por duvidar de você”, Selene sorriu docemente, soltando o pulso de Altador devagar. “Te vejo à tarde então.”
    
    “Não tem problema, querida amiga”, ele sorriu de volta para ela. “Ainda tem vinho com canela e um pouco de pão de ontem, se sentir fome.”

    “Não, não, eu vou voltar a dormir”, Selene se espreguiçou. “Não estou acostumada a acordar às sete da madrugada, ainda mais dois dias seguidos.”

    “Bom, sendo assim, bom sonhos, Dorminhoca”, ele riu e fechou a porta atrás de si, encaminhando-se para a estrada que descia aos muros, pegando o maior caminho para a fazenda das amigas.

    Altador nunca descia a colina, apesar da casa das amigas conselheiras ser logo ao pé dela. Não, ele se encaminhava para o penhasco, onde uma longa corda amarrada firmemente a uma pedra o esperava.

    Todos os dias, Altador descia pela corda até a base dos muros externo e subia a colina. Era um caminho longo e cansativo, mas era o melhor jeito de esconder a localização de sua casa e, consequentemente, de Selene.

    Ele tirou uma segunda corda de dentro da cesta e a usou para amarrar o busto às suas costas. Então, começou a descida do dia, as mãos calejadas já acostumadas à aspereza da corda.

    Uma vez em solo firme, atravessou o pequeno trecho de mata fechada (um dos poucos ao redor de Altador) até os muros externos. Notou com uma certa ansiedade que o caminho que trilhava para chegar a eles estava começando a formar uma pequena trilha. Preferindo o caminho mais seguro ao conhecido, tomou um rumo mais à direita, usando sua intuição como guia para sair do matagal.

    A caminhada fora bem mais longa e o peso do busto a tornou penosa, mas ele eventualmente chegou à multidão de fazendeiros nativos e forasteiros, unidos em um enorme assentamento do lado de fora da cidade.

    Eles se cumprimentavam com bom dias e pequenas interações, suas crianças já correndo pela estrada de terra que levava aos muros internos. Ali, cultivavam suas frutas, grãos e hortaliças para o sustento próprio e abastecimento da cidade. Aquelas eram as últimas terras produtivas sob o domínio de Altador. Não eram muitas, mas era o que tinham.

    O Rei passou pela cacofonia de vozes pacífica e silenciosamente, como de costume. Ninguém o reconheceu, muito por não imaginarem que o Rei de Altador, o próprio Altador, estaria passando pelo assentamento de fazendeiros com vestes de plebeu carregando um busto dele mesmo nas costas e uma cesta vazia na mão, mas também por que nenhum deles sequer havia visto o Rei de perto para reconhecê-lo fora da armadura.

    Ele atravessou a multidão, se afastando novamente da cidade e observando o assentamento diminuir conforme a subida ficava mais íngreme enquanto seguia efetivamente em direção à fazenda de Jerdana e Fauna, a qual se localizava protetoramente acima da cidade, abaixo apenas da destruída Tumba Inquieta e de sua própria casa.  

    Cansado e com dor na lombar, Altador desamarrou o busto na metade do caminho, carregando-o até a porta da frente do chalé de madeira. Com a mão livre, deu três batidinhas e imediatamente  ouviu o latir de vários cachorros ao longe.

A porta rangeu e abriu, uma Jerdana de cabelos trançados vestindo um avental decorado de bichinhos aparecendo para recebê-lo.

    “Altador! Você demorou hoje”, a feiticeira bateu os olhos no busto e logo entendeu o porquê da demora. “Oh, por Fyora, entre logo, deixe isso na mesa!”

    Obedecendo-a, o homem limpou os pés e adentrou na casa iluminada pela luz do final da manhã (ainda era manhã, graças a Fyora), sendo observado por vários pares de olhos felinos verdes e amarelos vindos debaixo dos móveis de madeira da sala aconchegante. Ele colocou o busto na mesa, como a amiga mandara, e viu um vulto de um gato malhado correndo para a cozinha assim que a pedra encontrou o móvel.

    “Queria que seus gatos não me odiassem tanto”, ele suspirou. “Onde está Fauna?”

    “Aqui fora!”, sua outra amiga gritou da varanda na qual cultivavam frutas mais sensíveis ao sol. “Acabei de colher mirtilos e uvas, traz a cesta aqui pra você levar um pouco! Como está Selene? Tem notícias dela?”

    “Sim, ela está bem e descansando, não se preocupe”, Altador entregou a cesta à esposa de Jerdana, que não pareceu muito confiante com a resposta, e sentou-se em uma das poltronas de visita, como sempre fazia.

    “Deixa eu ver, mais um presente novo que você não tem mais espaço em casa para enfurnar?”, Jerdana entregou um copo d’água ao homem e foi observar o busto mais de perto.

    “Na verdade este é um presente antigo que estava enfurnado na minha casa, mas que eu não suporto mais tê-lo lá”, Altador engoliu a água e coçou o pulso. “Pode dar um jeito pra mim?”

    “Eu… posso…”, Jerdana coçou a cabeça. “Eu poderia levá-lo ao Coliseu! Ficaria maravilhoso no hall de entrada, ainda mais em época de Copa de Yooyuball!”

    “Ah… Não me deixaria com um ar um tanto desumilde?”, Altador coçou o pulso com mais afinco. “Talvez você possa levar para um canto esquecido da Biblioteca dos Feiticeiros e deixá-lo lá pegando poeira?”

    “Esta não é uma peça de arte que merece ficar esquecida em um canto”, a feiticeira tocou o relevo da escultura. “A pedra está tão bem trabalhada… E seu rosto está bem fiel. Sabem quem esculpiu?”

    “Leonardo… de Brightvale, eu acho. Faz… muito tempo”, a coceira estava insuportável. “Jerdana, vocês estão tendo problemas com pernilongos de novo?”

    “Não, as citronelas que Fauna plantou espantou todos eles.”, a feiticeira se virou para o Altador, que arrastava o pulso no braço da poltrona. “Mas eu vou pegar álcool pra ver se alivia essa coceira!”

    “Aqui está, estão bem madurinhos!” Fauna chegou com a cesta já cheia pela metade enquanto Jerdana ia até a cozinha.“ Melhor comer… logo…”, ela colocou a cesta no chão e tirou suas luvas de jardinagem ao ver pelo que o amigo estava passando.

    Então da pele avermelhada do homem surgiu uma fumaça púrpura que consumiu a sala em segundos, roubando a luz de todo ambiente. Os conselheiros tossiram, engolfados pela fumaça escura.

    “E este é o feitiço horrível número UM do meu grimório!”, a fada das trevas saiu do meio da fumaça, dispersando-a com um comando de mãos, espantando a escuridão e deixando apenas um resquício de canela no ar. “Purirido localizador. Espero que entendam, meninas, ele não me deixou vir ver vocês!”

    Altador ficou sem palavras.

    “Selene?” Jerdana disse, deixando a garrafa de álcool de lado. “Você está…”

    “Selene!”, Fauna gritou e começou a circular em volta da fada. “Como você está?! Está ferida? Como estão suas asas? Tem algo que eu possa fazer por você? Eu e Dana ficamos tão preocupadas quando soubemos que você estava envolvida na explosão da Tumba Inquieta e-”

    “Calma, calma, eu estou bem agora!”, Selene interrompeu, segurando a moça pelos ombros. “Altador me tirou dos escombros e me levou pra casa dele aqui em cima.”

    Ao ouvir as palavras da fada, o homem despertou de seu choque e começou a balançar a cabeça para ela, colocando o indicador sobre os lábios, pedindo-a para fazer silêncio.

“Aqui em cima?” Jerdana repetiu, deixando o homem tenso.

    “É! Aqui acima da colina, perto do penhasco”, ela deu de ombros. Altador sentiu a cabeça ficar leve e os ombros pesados, as descidas de penhasco e longas caminhadas pesando em seu corpo. “É onde a gente mora. Eu só não sei porque ele dá uma volta tão grande pra chegar aqui.”

    “Vocês estão morando juntos?!” as esposas disseram em uníssono e Altador achou impressionante como o foco nesse pedaço de informação foi maior do que na localização da morada em si, mas que, por bem ou por mal, o permitiu relaxar um pouco.

    “Sim?”, Selene apertou o elástico de uma das chiquinhas. “Ele vem aqui todos os dias e nunca contou pra vocês?”
“Espera, então ele te tirou dos escombros, te acolheu em casa, se afastou do Conselho e só… passa tempo com você em casa?”, Fauna pediu clarificações. “Ele fala como se estivesse em uma missão secreta para te proteger do caos que se instaurou na cidade.”

    “Caos na cidade?!”, os olhos de Selene se arregalaram e fuzilaram Altador. “Então é por isso que você não quer que eu saia!”

    “Você não contou pra ela?” Jerdana arfou.

    “E não deixa ela sair de casa?!”, Fauna botou uma das mãos no peito.

    Todos os olhares se voltaram para Altador, que petrificou na cadeira ao se tornar o foco das mulheres, a pele do pulso totalmente esfolada e olhando para o grupo, suor frio começando a escorrer pelo lado de sua testa.

    “Eu …”, ele tossiu. “Não achei que a situação sairia do controle do jeito que está saindo. Não queria preocupá-la.”

    “Já saiu, Altador. Há muito tempo já saiu.”, a feiticeira estava em fúria, assim como Selene.

    “O que. Está. Acontecendo?!”, a fada cuspia as palavras entre seus dentes cerrados.

    Jerdana respirou fundo antes de começar:

     “Depois do Acidente, surgiu uma conspiração gigantesca de que o que aconteceu foi a primeira etapa de um plano maligno seu para retomar e destruir a cidade. Isso gerou uma onda de pânico generalizada. Membros do clube de astronomia passam horas analisando a nova cratera em Kreludor tentando ver mensagens ocultas e já pegamos centenas de charlatões vendendo ‘pedras amaldiçoadas da Tumba Inquieta’, que nem mesmo são da Tumba Inquieta!” ela se recompôs. “A imprensa está se aproveitando de todo esse caos para aumentar seus lucros, alimentando a conspiração e fazendo crescer uma revolta popular, que está sendo mobilizada pelos Salvadores. Quando tentamos impedir a circulação dessas notícias falsas, fomos acusados de censura e a revolta ficou ainda mais intensa.”


    “Salvadores”, Jerdana continuou. “É um grupo político formado pelos descendentes dos Anexadores. Mas seu objetivo continua sendo o mesmo..”

    “Ah, eu me lembro deles”, ela lançou um olhar furioso a Altador, que sentiu o sangue gelar a princípio, mas depois aceitou a crítica silenciosa, resignado.

    Desde a fundação da cidade, parte da nobreza de outros reinos se organizou para tentar dividir e incorporar Altador aos seus territórios (e, consequentemente, domínio). Ele e seus 11 conselheiros precisaram de muito esforço diplomático para evitar a tomada da cidade (especialmente por Qasala, cujas terras férteis de Altador muito a interessavam) e o resultado foi uma série de alianças comerciais e militares que enfim desembocou no reconhecimento de Altador como nação independente.

    Selene desaprovava a maior parte das alianças. Dizia que com a liderança de Torakor e força bélica mágica, poderíamos reverter a situação e não só firmar a nação à força, mas também anexar os outros reinos a Altador. Mas o Rei preferiu não arriscar a vida de nenhum cidadão e decidiu seguir pelo caminho diplomático, fazendo algumas concessões que não eram tão positivas para a população, sim, mas nada que deixasse alguém sem casa e com fome novamente. Era um pequeno sacrifício necessário para a segurança da nação como um todo.

    No entanto, a ameaça de conflito nunca se foi realmente, sendo usada sempre para arrancar acordos cada vez mais desfavoráveis para a cidade. Limitações militares, impostos de exportação, ataques políticos ao Rei e ao Conselho (especialmente após a Grande Traição)... E sem que Rei Altador percebesse, seu reino justo e feito para servir as pessoas se tornou apenas um peão da mesma nobreza que o explorou junto de toda sua família. A mesma nobreza da qual ele tanto quis fugir.

    “Eu sabia que eles sempre voltariam querendo mais”, Selene cruzou os braços, olhando para o chão. “Eles sempre fazem isso. Mas…”, seus olhos reencontraram os do homem com mais gentileza. “Eu também acreditei que poderia ser diferente conosco.”

    “Nosso governo está fragilizado há algum tempo”, Jerdana admitiu. “E parece que sua volta foi vista por eles como a oportunidade perfeita de prosseguir com um golpe e assumir o governo. Altador recebeu uma forte acusação de estar sob um feitiço seu e decidiu se afastar do Conselho, me deixando na liderança, o que conseguiu atrasá-los pela mesma acusação não funcionar comigo, já que sou uma feiticeira poderosa. Mas por mais que eu tenha uma imagem positiva com a população, o apoio aos Salvadores continua crescendo e é só uma questão de tempo até que consigam uma desculpa para se livrar de mim também.”

    O olhar de Selene movia-se sutilmente em várias direções enquanto passava uma das mechas de seu cabelo entre os lábios, como fazia nas reuniões do Conselho de mais de um milênio atrás. Altador reconheceu aqueles maneirismos:  ela estava calculando os melhores movimentos a serem feitos nessa situação.

    “O que a população precisa que não estamos dando?”, a fada se dirigiu a Jerdana e Fauna.

    “Comida e terra”, Altador, que até então estava quieto, resolveu se pronunciar. “Os maiores problemas são comida e terra. A grande maioria das nossas terras produtivas são propriedade privada de fazendeiros aliados de Qasala que comercializam 70% da nossa colheita com eles.”

    “Além de não usarem toda a terra para a produção”, Fauna acrescentou, desconfortável com o assunto. ”A maior parte da terra deles só serve pra especulação rural.”

    “Mas isso é ilegal, até onde eu conheço nossa constituição.”, Selene deu de ombros. “Nós temos o dever de tomar essas terras improdutivas e redistribuí-las.”

    “É melhor nos acomodarmos melhor para conversar sobre isso” Jerdana disse, puxando uma cadeira da mesa da copa da cozinha. “Mas sim, você está certa, Selene. A questão é que os proprietários dessas terras são protegidos pelos reinos com quem comercializam. Desapropriar aquelas terras significa uma afronta ao governo de Qasala.”

    A fada sentou-se à mesa com a expressão de pura indignação.

    “Altador”, ela apoiou os cotovelos na madeira, claramente tentando se controlar. “Quando você planejava me contar que entregou as terras da cidade de mão beijada para os outros reinos? Qasala acima de tudo?!”

    O silêncio recaiu sobre o recinto, apenas os sons de arrastar das cadeiras de Altador e Fauna preenchendo o ambiente.

    “Há alguns anos”, o homem sentou-se entre Jerdana e Selene. “Temos sofrido com queimadas criminosas das quais nunca conseguimos traçar a origem”, ele apertou os olhos. “Tudo o que sabemos é que é fogo mágico. Jerdana e Florin trabalharam por meses em várias frentes para tentar impedir o fogo de destruir as plantações, mas não foram bem sucedidos. Chegamos a um ponto de não conseguirmos produzir comida o suficiente para nós mesmos. Qasala ofereceu os serviços de Nuria para proteger as plantações dos incêndios em troca de um contrato de comércio exclusivo a um preço baixíssimo e sem taxas de exportação. Nosso povo estava passando fome, nós não tínhamos escolha. O melhor que tiramos disso foi a obrigatoriedade de 90% da colheita ser destinada à nossa cidade.”

    “E Qasala foi nos pressionando para fazer o preço e a porcentagem caírem mais e mais”, Fauna pôs as mãos na cintura e sacudiu a cabeça. “Foi um golpe muito sujo.”

    “Ah, então usar magia para proteger as plantações é aceitável, mas para construir a cidade, não?”, Selene afundou na cadeira com os braços cruzados.

    “Como eu disse, nós não tínhamos escolha”, o homem repetiu. “De qualquer forma, depois do nosso acordo, nunca mais tivemos problemas com queimadas, embora elas continuem acontecendo de tempos em tempos.”

    “E se os fazendeiros altadorianos ocupassem as terras improdutivas para produzir comida para a gente?”, a fada sugeriu, expulsando a mecha de sua boca. “Podemos pressioná-los a devolvê-las pelo exercício de posse diretamente.”

    “Jazan pensou nisso antes de você”, a feiticeira bufou. “O feitiço de Nuria precisa de manutenção, e apenas os fazendeiros que Jazan apontou podem fazê-la.”

    “Filho da puta”, a fada xingou, mas seu rosto se iluminou logo depois. “E se eu protegesse as terras do fogo? Pode ser um tipo de fogo das trevas, por isso você e Florin podem não conseguido detê-lo”, ela se ajeitou na cadeira. ”Você sabe como magia das trevas é complicada de contra-atacar.”

    Os semblantes dos demais Conselheiros se iluminaram junto com o da retornante.

    “Eu pensei nessa possibilidade, mas mesmo os contrafeitiços trevosos não funcionaram”, a feiticeira disse. “Mas magia das trevas não é minha especialidade com é a sua e naquela época não podíamos contar com você.”

    “Mas agora podemos”, Altador sorriu para ela, esticando uma das mãos para ela pelo lado da mesa. A retornante a segurou e a apertou, sorrindo de volta. “Jerdana e Fauna estão de acordo com a proposta?”

    As esposas assentiram, sorrindo esperançosas.

    “Vou escrever o que discutimos e pedir a aprovação dos demais Conselheiros.”, Jerdana falou enquanto se levantava e sumia casa adentro, voltando com uma pena e um pedaço de papel dourados. “Quando eles aprovarem, podemos entrar em contato com o sindicato dos fazendeiros.”

    Vitoriosa, Selene também levantou-se para fazer uma reverência jocosa. “Muito obrigada!”

    Assim a feiticeira terminou de escrever, o papel sumiu em uma fumaça também dourada. “Não deve demorar para que eles respondam. Vocês querem comer alguma coisa enquanto isso?”

Monday, November 18, 2024

A Conversa

“Minha querida amiga Jerdana,

Como você deve ter visto nas três últimas edições dos jornais da cidade, a repercussão do acidente que atingiu Kreludor está violentamente hostil. Sinto que meu discurso na manhã seguinte ao acontecimento explicando  o que aconteceu de nada serviu se não para fomentar a conspiração de que estou enfeitiçado pela ‘Fada Tenebrosa’ e cada dia mais o movimento que apoia a invasão do são do Conselho para me libertar e aprisioná-la novamente ganha força. Os cidadãos estão acreditando que nossa amiga está me usando para controlar a cidade secretamente e não sei mais o que posso falar para fazê-los mudarem de ideia.

Por isso, decidi me afastar do Conselho temporariamente. Prefiro não dizê-la onde estou, mas estarei bem e garantirei que Selene também estará. Diga a eles que estou afastado por questões de segurança e que serei colocado em quarentena como fazíamos com enfeitiçados quando Selene estava contra nós e que ela está sob sua observação. Confio em você para tomar as decisões importantes para a cidade por um tempo. Desculpe-me por isso, mas creio que é a alternativa mais segura. Mas não ficaremos sem nos ver por muito tempo, voltarei para visitá-la em breve.

Obrigado

Altador“

O homem deixou a carta com sua amiga feiticeira em sua última visita à sua casa na zona rural ao sul da cidade, longe o suficiente de outras casas para não precisar de um disfarce, para pegar um novo colchão que pedira para ela fazer. Era macio ao toque, diferente dos que usou por anos e anos. Este era o último elemento de mobília que precisava para tornar sua casa “habitável”, segundo Selene.

Os dois passaram quase toda a noite anterior redecorando o lar de Altador com os itens do seu quarto de tesouros, como Selene o havia convencido. No final da madrugada, o quarto continha apenas poeira e o resto da casa estava realmente parecendo uma casa de verdade, ele tinha que admitir.

Adicionalmente, o ódio que Selene demonstrou pelo colchão de palha em que ele deixou ela dormir enquanto ele passou as poucas horas de escuridão antes do sol nascer na nunca usada poltrona que ganhou de presente da Rainha das fadas Fyora o convenceu a procurar por outro o mais rápido possível e logo pensou em Jerdana.

A técnica de costura manual com magia da mulher era eficiente a ponto de permiti-la produzir qualquer coisa feita de tecido em poucas horas. Mal o sol tinha nascido e ele desceu até sua vizinhança para fazer-lhe o pedido. Comeu bolinhos de nozes que sua esposa Fauna preparou e brincou com os animais de sua fazenda, principalmente com os cachorros, enquanto esperava a peça ficar pronta.
Saiu de lá carregando o colchão nas costas com uma mão e uma cesta com frutas, pão, suco e, claro, ambrosia com a outra, dando uma volta maior até chegar em casa para que nenhuma delas suspeitasse que vivia logo acima delas.
Pelos próximos dias, ele voltaria para buscar mais cestas, que ficariam maiores e mais pesadas com o tempo, ao contrário de seu semblante, que ficaria mais leve a cada visita.

____

Altador sentia-se vivendo um sonho idílico em um pequeno diorama. Um mês se passou desde que Selene aceitou ficar mais um tempo em sua casa, o qual a convidou para morar com ele depois de duas semanas de estadia. As manhãs eram cheias de comida fresca e as tardes repletas de conversa jogada fora sobre boas memórias do passado ou futilidades do dia a dia. À noite, Altador limpava a casa e depois se jogava no colchão antigo, agora no chão, enquanto Selene dormia no novo colchão na cama.

A presença dela era estranhamente confortável, especialmente depois de tantas noites que ele passou acordado pensando em como reagiria se um dia ela retornasse uma quarta vez. Rotas de fuga, estratégias de batalha, códigos de alerta… E agora ali estava ela toda noite, dormindo na cama a seu lado com um braço jogado para fora e as asas enroladas em si mesma por cima de uma coberta felpuda também feita por Jerdana.

Estava ali, todo dia, comendo uvas frescas ou pão com ambrosia na mesma mesa a que ele. Toda tarde reclamando de coisas pequenas, mostrando seu progresso em se refamiliarizar com a própria magia, dando sugestões de decoração, dançando sozinha no silêncio de uma música que tocava apenas em sua mente, contando e ouvindo histórias até ambos pegarem no sono para no outro dia recomeçarem tudo, mas ainda assim de um jeito que cada dia se fazia único.

Ele sentia, finalmente, a cicatriz da Grande Traição começando a realmente se fechar. O laço entre eles, há mais de 1000 anos destruído, se refazia surpreendentemente rápido, com sentimentos familiares de carinho e ternura florescendo de novas formas e maneiras. Eram dois amigos que haviam se tornado estranhos um para o outro e agora estavam se conhecendo novamente.

Mas Altador sentia medo da familiaridade que reconhecia no meio daquela reconexão: aquele encanto, aquele conforto, o desejo de estar perto dela, a admiração no jeito que ela fazia absolutamente qualquer coisa…

Sabia que estava sendo egoísta em se deixar sentir aqueles sentimentos, mas qual era a alternativa? Afastar-se dela novamente para o bem da cidade? As consequências foram terríveis da última vez que tentou.

Mas ele estava comprometido a fazer diferente desta vez.

Antes de um rei, você é uma pessoa!”, as palavras dela ressoavam em sua mente. Era tão fácil esquecer se disso quando qualquer falha sua poderia custar toda Neopia…

No entanto, a leveza que sentia sob seus ombros durante o último mês não o deixava mentir: ser lembrado de sua humanidade foi a melhor coisa que lhe aconteceu nos últimos mil anos, talvez até mais!

Bom... a segunda melhor.

A melhor estava dormindo na cama ao lado.


_____

Selene espreguiçou-se ao acordar mais uma manhã em sua nova casa, sua asa esquerda se comprimindo na parede. Eles precisavam encaixar esta cama de outra forma no quebra-cabeça da mobília do quarto, antes com apenas um armário, uma mesa e uma cadeira além da cama, agora contava com um segundo armário, duas poltronas, uma cômoda, um candelabro, um alaúde, um enorme espelho de prata e um busto de Altador que estavam guardados no quarto que agora servia de laboratório para Selene testar feitiços e poções, além do velho colchão de Altador, agora no chão, que bloqueava a saída do quarto à noite, o que tornava idas ao banheiro noturnas extremamente inconvenientes.
 
Ela não queria tocar no assunto redecoração do quarto com Altador porque ele provavelmente iria argumentar contra a presença de seu busto no quarto, que foi o único lugar que sobrou para colocá-lo. Deixá-lo no laboratório era perigoso, não havia espaço na cozinha ou no corredor, seria muito desconfortável colocá-lo no banheiro e revelaria o dono da casa se só fosse posto no quintal. Ele se negava a colocá-lo na sala por alegar possuir um busto de si próprio no centro da casa ser ‘de um egocentrismo vergonhoso’. Nenhum dos dois queria se livrar dele por ser um belo trabalho de arte, além de ter sido um presente, então o mantinham junto do espelho em um canto do quarto no qual Altador não ousava se aproximar.

Quadros, enfeites e itens colecionáveis agora coloriam todos os cômodos. As pilhas de livro, que continham uma quantidade formidável de trabalhos sobre magia, foram devidamente organizadas em prateleiras e em estantes dentro do laboratório e agora davam suporte para os estudos de Selene. A pequena dispensa ganhou uma mesa, toalhas e uma caixa de metal para armazenar comida congelada sem precisar de poções de gelo. Até o banheiro agora tinha um espelho de mão!

Apesar de Altador ainda ser obcecado em se ‘manter humilde para enxergar os melhores caminhos a seguir’, segundo suas próprias palavras, preencher a casa com a mobília guardada fez o ambiente ficar muito mais agradável, a solidão que antes pairava nas paredes e cômodos vazios existindo apenas na lembrança.

Selene ainda suspirava de alívio toda vez que abria os olhos.

Geralmente quando acordava, voltava logo a dormir mais um pouco, mas um cheiro de canela invadiu o quarto e fez seu estômago roncar. Sentou-se depressa na cama, colocando os pés no colchão de palha vazio ao seu lado, levantando-o de modo a apoiá-lo na parede oposta para liberar a passagem para a porta. Ela sequer trocou de roupa, passando pelas armas e armaduras no corredor e descendo as escadas vestindo seu novo pijama.

Na sala, a delicada porcelana de Shenkuu em uma prateleira recém colocada acima de uma mesa de mogno já cheia de frutas a saudou enquanto ela se sentava em uma das seis cadeiras estofadas disponíveis, apoiando-se nos cotovelos e se esticando para frente para ter uma melhor visão da dispensa.

Lá ela viu Altador retirando vinho aromatizado fervente da panela no fogão a lenha e dividindo o conteúdo em dois cálices e trazendo-os para a mesa junto de um prato com pão, queijo e uma cumbuca com mel apoiados em seu antebraço.

Ele estremeceu e quase derrubou a comida quando a viu já sentada na mesa.

“Por Fyora, Selene, que susto”, ele respirou fundo.

“Bom dia pra você também, Altador”, ela deu um sorriso travesso. “Estou vendo que finalmente repôs o estoque de canela!”

“Sim, Jerdana lembrou de incluir na cesta de hoje”, ele pôs o prato, a cumbuca e os cálices na toalha vermelha sobre a mesa. “Bom saber que o cheiro de canela te acorda”.

“Use seu conhecimento contra mim e eu sumo com aquele seu colchão xexelento de vez”, ela ameaçou, pegando o cálice com vinho quente pela haste e provando cuidadosamente. “Nossa, isso aqui tá muito bom!”

“Suma com meu colchão e eu nunca mais vou fazer vinho com cravo e canela nesta casa”, o homem sentou-se ao seu lado, um sorriso suave em seu rosto.

“Eu mesma faço se você nunca mais fizer”, Selene pegou um pedaço de pão e molhou no vinho.

“Você não consegue nem fritar um ovo, querida”, Altador achou a ideia dela interessante e também embebeu pão no vinho. “Eu sei porque já vi muitas frigideiras e aventais pegarem fogo enquanto você tentava”

“Ah, mas eu estou perto de conseguir”, a fada pegou a cumbuca de mel e derramou um pouco em seu pedaço e ofereceu a Altador, que aceitou de bom grado. “Algumas receitas no livro de culinária de Skarl têm escrito um preparo via feitiço. Eu vou atingir minha independência gastronômica em breve e não há nada que você possa fazer.”

“Na verdade eu adoraria experimentar sua comida feita com magia”, Altador se deliciou com o pão com vinho e mel. “Você é criativa, só falta acertar na execução das suas ideias que nem você acabou de fazer. Isso aqui tá bom demais!”

Selene perdeu a compostura com o elogio sincero. Ele quebrava a brincadeira desse jeito com frequência, mas ainda era pega desprevenida mesmo depois de um mês. Talvez eles fossem mesmo amigos e ela não fosse apenas uma responsabilidade, afinal… Mas ainda era estranho ouvir coisas boas sobre ela saindo da boca de outras pessoas, especialmente das que machucou no passado.

“Obrigada”, ela disse em voz baixa, deixando seu pãozinho equilibrado na borda da taça. “Parecia uma boa combinação.”

Recentemente, estava pensando na possibilidade de que todo o bom tratamento  dado pelos conselheiros a ela ter o objetivo de amansá-la para controlá-la de alguma forma, mas conviver com Altador a levava crer que esses pensamentos era só paranóia. Em nenhum momento ele usou sua autoridade como rei para subjugá-la quando discordavam de algo, como imaginou que acabaria acontecendo eventualmente.

Incrivelmente, ele estava levando sua opinião em consideração e frequentemente dava uma chance às suas sugestões após um momento de reflexão. Foi assim com cada decisão de posicionamento de mobília, pelo menos, e agora com a ideia de cozinhar com magia, levando em consideração que Altador não gostava de abordar nenhuma tarefa manual com magia. Até mesmo na trabalhosa e demorada construção dos muros da cidade ela dizia que ‘uma pessoa valoriza seu lar quando o constrói pedra sobre pedra’.

Ele estava, talvez pela primeira vez em muito tempo, se permitindo ser influenciado por ela. Se permitindo a conectar-se com ela de verdade novamente.

Devagar, a fada pegou o pão com vinho e mel entre os indicador e o polegar com cuidado e deu uma pequena mordida.

Estava, realmente, uma delícia.

“Por que você está fazendo isso agora?”, a fada das trevas perguntou sem olhar para o homem ao seu lado.

“Isso o quê?”, ele virou-se para ela enquanto colocava mel em outro pão embebido em vinho.

“Me deixando no controle.”

As palavras dela ficaram suspensas por um tempo.

“Eu percebi”, ele quebrou o silêncio após tomar um pouco do vinho, “talvez um pouco tarde demais… que deixá-la comandar abre um universo de novas possibilidades. E o pior que eu posso fazer é continuar deixando esta porta fechada.”

Ela se virou para ele, irritada.

“Você só não quer que eu me revolte de-”

“Eu não quero te perder de novo”, ele a cortou, colocando a mão na sua. O olhar dele era dolorido, como se seu mundo todo fosse feito de vidro e estivesse prestes a se rachar.

“Me… perder?”, sua expressão se suavizou em confusão, sua mão livre movendo-se para o amuleto de sol e lua que ele lhe dera de presente e não havia tirado desde então.

“Sim, perder você”, ele entrelaçou seus dedos nos dela. “Eu acho que isso nunca ficou claro por eu nunca ter falado, mas a pior parte da sua traição foi o vazio que você deixou depois que se foi. Você foi uma ameaça por muito menos tempo do que foi a uma das melhores pessoas que eu já conheci. Eu reconheço que não dei nem o amor, nem o valor e nem a atenção que você merecia no passado e o quanto você sofreu por isso. Mas hoje eu quero fazer diferente para que você fique bem… E fique aqui. Comigo.”

O nariz da fada ficou enrubescido e seus olhos marejaram. Ela os fechou, com raiva.

“Você fala como se eu tivesse sido uma vítima inocente nessa história”, uma lágrima escorreu, mas ela a secou rapidamente. “Existiam mil maneiras melhores que eu poderia ter agido, mas…”

“E quantas delas eu impedi de serem realizadas por não ter te dado voz quando você teve razão?”, ele a interrompeu.

“Mas você também tinha razão naqueles momentos!” Selene retrucou, fechando a cara novamente. “Você sempre tinha razão em todos os momentos.”

“E ainda assim foram as minhas decisões que a levaram ao limite.” ele encaixou a outra mão de leve no rosto dela. “E eu quero muito que possamos seguir por outro caminho.”

Selene pressionou sua bochecha contra a palma da mão do homem e suspirou, a raiva sumindo de seu rosto pela última vez.

“Nós já estamos seguindo”, ela disse, unindo sua outra mão com a que repousava em seu rosto. “Você é um bom amigo, sabia?”
Altador sorriu.

“Agora eu sei.”

Selene se desvencilhou de suas mãos e o abraçou com força. Altador retribuiu na mesma medida.

“Quando eu digo que te amo, não é só da boca pra fora, minha querida”, ele murmurou.

“Eu também te amo, seu brega”, ela sorriu em seu abraço. “Mas é sério, precisamos resolver o problema de espaço no quarto e seu colchão é o principal candidato a ir pro lixo.”

“E que tal nos livrarmos daquele meu busto?”

De novo isso.

“Bom, se isso te fizer feliz…”, a fada ponderou. “Talvez Jerdana e Fauna tenham um espaço na casa delas para dar um sumiço definitivo nele.”

Altador a abraçou com mais força ainda.

“Vou falar com ela amanhã de manhã!”

Monday, October 21, 2024

A Casa

    A hora dourada atingia a cidade de Altador quando Selene despertou novamente, sentindo-se mais revigorada do que na noite anterior.

    Foi saudada novamente por aquele cômodo perturbadoramente limpo e vazio, mas não permaneceu lá por muito mais tempo. Saltou da cama e foi direto para a porta, a qual dava para um pequeno corredor com uma escada a leste, uma porta ao norte e outra a oeste.

    Sua curiosidade foi atiçada pelas portas e os potenciais segredos que havia atrás delas. Pegou na maçaneta da porta a oeste, em frente a escada, mas antes de girá-la, escutou com atenção.

    Pela ausência de ruídos, parecia estar sozinha. Sentiu seu peito se aconchegar e depois apertar, o que a fez largar a maçaneta. Altador realmente confiava nela se a deixou sem supervisão em sua própria casa. Não que houvesse muito o que ela pudesse roubar ou destruir, mas ainda assim o gesto era significativo para que o desrespeitasse. As portas ficariam como estavam, não importa o quão tentadora fosse a possibilidade de ver qualquer coisa de valor naquela casa.

    Sendo assim, desceu as escadas, encontrando uma sala de paredes brancas cuja única mobília era uma pequena mesa, um pouco maior que a do quarto, com uma tigela de frutas, um prato com fatias de pão, um pote cheio de ambrosia, uma xícara de chá vermelho, um embrulho e um bilhete.

    Selene sentou-se na única cadeira junto à mesa e pegou o pequeno papel marcado com uma caligrafia cuidadosa.

    “Boa tarde, querida amiga. Torço que esteja se sentindo melhor. Espero que tenha um bom lanche da tarde. Se ainda estiver com fome depois de terminar, há mais comida na despensa ao lado. Também trouxe o vestido que Jerdana fez para você junto de alguns sabonetes e maquiagem. Acredito que já tenha achado o lavabo no andar de cima no final do corredor, fique à vontade para usá-lo.

Eu te amo

Altador.”

    Selene abriu um caloroso sorriso, mas logo desapareceu. Seria esse amor de um amigo que se importa genuinamente com ela ou de um rei que se sente o salvador de seus súditos?

    Comeu o pão com o doce, pensativa. Depois da noite anterior, não conseguia dizer se ele a via mesmo como uma amiga ou como uma responsabilidade.

    Na verdade, era difícil dizer se Altador se enxergava como uma pessoa ou como um executor de deveres morais. Sua linguagem formal, sua casa vazia, sua prioridade ser sempre agradar ao máximo ou no ao menos desagradar o mínimo…
O chá estava quente e o pão, fresco, o que mostrava que o homem não saíra há muito tempo.

    Mas o porquê de Altador estar fora no final da tarde, quando as pessoas estavam retornando às suas casas, era um mistério que pesava na mente de Selene. Tentou não pensar que ainda estava tentando amenizar o caos que ela causara no dia anterior e se esforçou para focar no sabor da ambrosia, das uvas e do chá que descobriu ser de morango.

    Finalizando o lanche, se direcionou para uma porta a leste, que presumiu que se tratava da dispensa que Altador mencionou. Era um pequeno corredor com um fogão a lenha, uma bancada com uma pia, um armário pequeno e prateleiras com alguns frascos com um líquido que ela reconheceu como poções de gelo. Em cima da bancada, encontrou um saco de pães e mais frutas que pareciam frescos. Dentro do armário, descobriu uma certa quantidade de comida enlatada, que ela cruzou os dedos para que fosse apenas para emergências.

    Suspirando, voltou para a sala e desembrulhou o pacote, encontrando seu vestido novo e pelo menos 10 tipos de sabonetes, shampoos, sais de banho e óleos essenciais, além de um tubo de batom vermelho e um frasco de delineador.

    Sentindo-se não mais lisonjeada, mas incomodada com os esforços de Altador demonstrar seja lá o que fosse que ele chamava de amor, Selene limitou-se a pegar um sabonete neutro, uma essência de jasmim e a maquiagem, Apenas o necessário para tirar o resto da sujeira do corpo e o cheiro de queimado que parecia ter grudado nela.

    Subiu as mesmas escadas e adentrou no cômodo ao norte, um pequeno banheiro que basicamente no qual uma banheira de madeira grande ocupava a maior parte do espaço. Ao seu lado, estava um cabideiro e uma toalha. Ela inspecionou o local, procurando por sinais de pelo e cabelo nas frestas da madeira, mas, felizmente, nada encontrou, esperançosa que fosse devido aos hábitos de limpeza do homem, e não pela falta de uso do item.

    Abriu a torneira e quando a banheira encheu, despejou um pouco da essência na água e entrou.

    Apesar da banheira ser grande, o espaço parecia sufocá-la. Ensaboou-se rapidamente dos cabelos aos pés e submergiu algumas vezes para retirar o sabão.

    Checou para ver se a toalha estava limpa, claro que estava, e secou-se antes de pôr sua confortável e macia roupa nova, suspirando de alívio. O tecido a envolveu como em um abraço, aconchegante e seguro. Desde a noite anterior, este foi o primeiro momento em que sentiu que podia realmente relaxar.

    Só então percebeu que no banheiro não havia espelho. Na verdade, em nenhum lugar da casa que tinha visitado.

    Selene grunhiu. Aquele espaço a incomodava de uma forma tão intensamente familiar que a deixava profundamente irritada. Todo o vazio, a falta de cor, a sensação de solidão e sufocamento…

    Selene sentia-se de volta à forma de estátua nas profundezas do oceano. De volta aos planos de deixar em destroços e em escuridão eterna toda Neopia. De volta a ser dominada por raiva e ódio de tudo e todos, incluindo a si mesma.

    Mas que observava era o completo oposto dessas lembranças. A casa não era nada além de luz, ordem e cuidado…

    Então ela entendeu.

    Era esse o problema.

    Absolutamente enfurecida, Selene chutou a porta do banheiro, desceu as escadas marchando e abriu a porta da frente com força.

    “Ah, que bom te ver de pé novamente!” Altador estava ao pé da porta, chegando com algumas sacolas cheias. “Por quê está tão irritada? A comida não estava boa o suficiente?”

    “Você”, ela apontou para o rosto dele, arfando de raiva. “Precisa parar com isso!”

    “Parar com o quê, exatamente?” Altador virou a cabeça, em dúvida.

    “Com isso… com esse…”, os músculos do rosto e das mãos de Selene se enrijeceram na tentativa de expressar a ideia fisicamente. “Com essa servidão toda! Parece que sua vida se resume a isso!”

    “Querida amiga”, Altador franziu o cenho, colocou um dos sacos no chão e pôs uma mão no peito. “Eu preciso ser um rei justo, é meu dever colocar os outros em primeiro lugar.”

    “Mas isso não é justo com você!”, ela deu um passo à frente e colocou a mão nos ombros dele, continuando a falar com sua voz uma oitava acima. “E eu não aguento mais te ver se tratando desse jeito. Antes de um rei, você é uma pessoa! Você precisa comer, dormir, tomar banho, de conforto e companhia como todo mundo! Mas parece que você não se dá o direito a nada disso! Tudo de confortável que você colocou dentro dessa casa foi pra mim, como se você fosse apenas um fantasma que assombra esse lugar ao invés de morar nele!”

    O homem ouviu suas palavras com atenção. Quando terminou, apenas disse “venha comigo” e passou por ela, entrando na casa e subindo as escadas. A raiva de Selene deu lugar à curiosidade e, assim, o seguiu.

    Eles pararam em frente à porta a oeste que Selene sentiu a tentação de abrir quando acordou. Altador girou a maçaneta e revelou um quarto cheio de… tralha.

    “É aqui que guardo meus tesouros.”, ele a convidou para entrar. “A maioria são presentes dos heróis e de outros monarcas.”

    Observando mais de perto, percebeu que a tralha era valiosa. Havia muita artilharia de ponta, incluindo armaduras de guerra e cerimoniais, espadas, escudos, arcos e flechas de todos os tipos.

    Também viu jóias, incluindo sua coroa em formato de folhas de louro que só lembrava de tê-lo visto usando uma vez

    Toda a mobília que faltava na casa estava enfurnada daquele quarto: mesas, cadeiras, estantes, prateleiras, todas de mogno, estavam abarrotadas umas do lado das outras, às vezes até em cima, como  no caso das cadeiras. Havia até um armário do mesmo tipo de madeira nobre lotado de de roupas simples e formais de diversas culturas, além de poltronas macias sendo usadas como depósitos de enfeites de diversas formas e materiais, moedas colecionáveis, cortinas, roupas de cama e quadros.

    O que não estava entulhado estava posto em cima de estantes ou pendurados na parede, como conjunto delicado de porcelana de Shenkuu e um alaúde tradicional de Qasala, um enorme espelho de prata e outros quadros.

    No que dava para ver no chão, além dos móveis, Selene percebeu um busto do próprio rei,  várias pilhas de livros grossos demais para pôr nas estantes, um cajado com o formato de garra segurando um globo de cristal…

    “Espera, isso é meu!”, ela pegou o cajado e se deparou com seu grimório no topo de uma das pilhas. “E isso também!

    “Rei Skarl me entregou seu cajado e Rei Hagrid seu grimório para guardá-los em segurança há algum tempo. Desde então, Hagrid me presenteia com um livro toda vez que nos encontramos e os guardo aqui.”

    “Skarl não manda lembranças não?” Selene levantou uma sobrancelha, desgostosa.

    “Ele manda… queijo.” Altador enrubesceu e Selene gargalhou. Ela sabia o que acontecia com ele quando comia queijo. “Eu repasso para Florin ou Gordos, sempre.”

    A fada continuava gargalhando.

    “E você nunca pediu pra ele te mandar outra coisa?”, ela perguntou entre risos.

    “Eu deveria ter feito isso no início”, ele colocou uma mão na testa, decepcionado consigo mesmo. “ A esta altura pedir isso só vai gerar constrangimentos. Ah, olha! Acho que você vai gostar disso!”

    Altador chamou a atenção da amiga para uma pequena cômoda elegante de madeira nobre na esperança de mudar o foco da conversa. Ele abriu a primeira gaveta, que continha muitos papéis antigos, alguns simples, outros coloridos e decorados. Logo percebeu que se tratavam de convites de casamento.

    Ela se debruçou sobre a gaveta, mexendo nos papéis que mais a chamavam a atenção: um pardo adornado de ouro que convidava Altador para a cerimônia oficial do casamento do Rei Jazan e da Princesa Nabile; outro azul cobalto com pérolas e conchas brancas, ‘Isca & Garin’, mais um, cor ‘Rosa Fyora’ (eca) que o convidava para o casamento da Capitã Brynneth e Sir Hanso…

    Suas sobrancelhas subiram em surpresa ao ver o próximo: um convite decorado com as bandeiras de Meridell e Brightvale e dois retratos de rostos conhecidos com os nomes ‘Sir Tormund Ellis’ e ‘Princesa Roberta de Brightvale’ escritos com caligrafia caprichosa.

    “Eles casaram?”, ela murmurou para si mesma. “É…que bom pra eles.”

    Continuando com sua exploração na gaveta, agora se voltando para os mais simples, lhe chamou atenção um que continha o símbolo da cidade de Altador. Parecia frágil , mas estava inteiro. Virou-o de cabeça para baixo para ler os nomes dos noivos: ‘Florin e Sasha’.

    “O quê?!”, ela pegou o papel e quase o enfiou na cara de Altador de tão perto que o colocou de seu rosto. “Quando isso aconteceu??? Como isso aconteceu???”

    “Hummm, há uns 500 anos?”, ele respondeu, divertindo-se com a reação dela. “E aconteceu… acontecendo, eu acho. Estávamos sob a maldição. Mas o casamento deles durou uns 100 anos, mas a relação se desgastou e acabou em um divórcio complicado. Passamos cerca de 50 anos sem poder reunir todos os heróis por causa deles. Hoje em dia eles superaram o que aconteceu naquela época e são bons amigos, mas não gostam que lembremos daquela época.”

    O cajado, o grimório e o queixo de Selene despencaram no chão.

    “Eu ainda não acredito que isso aconteceu”, ela olhava perplexa para o convite antigo. “Mas pelo menos eles se acertaram, diferente da Jhudora e da Illusen, que não se suportam até hoje.”

    “A bênção da longevidade de Siyana nos proporcionou experiências complexas…”, continuou Altador. “Gordos está no seu oitavo casamento com um mortal comum e olha que ele já esteve no funeral de três ex-cônjuges, quatro filhos e alguns netos… acho que bisnetos também.”

    “Tiveram mais casamentos entre os nossos além desse?!”

    “Alguns…”

    Selene correu de volta para a gaveta, procurando pelos nomes dos amigos.

    Alguns dos convites simples tinham os nomes dos conselheiros. Logo encontrou os convites dos oito casamentos de Gordos, com Amanda, Erik, Theodor, Arianna, Júlio, Hunter, Geert e Anastácia, este mais recente e colorido. Haviam três convites com o nome de Marak, com Sandro, William e Vincent, todos envelhecidos e com datas muito antigas. Fauna se casou com uma moça chamada Imogen há 315 anos. Torakor, com um tal de Kadir há 117 anos. Sasha, depois de Florin, casou-se com Marianne, há 13 anos. Em nenhum lugar encontrou os nomes de Psellia ou de Siyana, mas já imaginava que, por serem fadas, não iriam querer se envolver em casamentos. Demorou um pouco até encontrar outro papel com dois nomes que conhecia:

    “Jerdana e Fauna?!” ela leu em voz alta, embasbacada. “Nossa, elas se casaram há 249 anos! Como terminou essa história?”

    “Na verdade elas ainda estão juntas. Estão organizando a renovação de votos para o ano que vem.”

    A expressão da fada murchou.

    “Por que ninguém me contou isso antes…?” ela guardou cuidadosamente o convite antigo e fechou a gaveta.

    “Nós não tivemos muito tempo… Entre sua chegada, o banquete e o acidente, o nosso foco de atenção esteve sempre em você.”

    Ela ficou em silêncio, se lembrando-se de tudo o que tinha acontecido até aquele momento.

    Selene se sentiu incomodada ao se ver no outro extremo do comportamento nocivo de Altador: ele se deixava de lado para cuidar dos outros, ela deixava os outros de lado para focar em si mesma.

    Mesmo quando foi se entregar, estava pensando em acabar com seu prórpio sofrimento. Mesmo quando estava incomodada com o vazio do resto da casa, estava vendo seu próprio passado recente refletido nele. Mesmo naquela sala cheia de inegáveis tesouros, estava vendo o valor que ela atribuía aos objetos, o valor que o amigo via neles, que vinha das histórias ocultas que ele tinha com aquelas coisas…

    Então lhe ocorreu um pensamento:

    “Altador…” ela pegou seu cajado e grimório do chão e se voltou para o homem. “Por quê você deixa o que é valioso pra você dentro de um quarto enquanto o resto da sua casa é tão vazia?”

    “Mantenho minha casa deste jeito para me lembrar de onde vim”, ele suspirou, olhando para a porta de onde vieram. “Eu e minha família não tínhamos muita coisa e sei que boa parte da minha humildade veio disso. Não quero perdê-la.”

    “Eu me lembro da sua casa, Altador. Ela era simples, não vazia”, Selene cruzou os braços, irritada, mas depois descruzou, tentando ser mais paciente. “Digo… Eu lembro das pinturas e esculturas que seu pai gostava muito e não queria vender nas paredes e nas mesas. E dos brinquedos da sua irmã espalhados pelo chão. E a porcelana que sua mãe adorava… Ela só usava em ocasiões especiais, mas ficava exposta na sala como decoração.”

    “É verdade…”, Altador deixou as lembranças fluírem. “Uma vez minha irmã quase quebrou um dos pratos jogando bola em casa.”

    “Ela quebrou. E não foi só um prato, foi tudo. Nós estávamos jogando quando ela acertou a prateleira e toda a louça caiu no chão. Eu consertei com magia. Todo mundo foi para o túmulo sem que ninguém, exceto eu e Alissa, soubesse de nada…”, ela deu de ombros e sorriu amarelo. “Até agora.”

    Altador pareceu furioso a princípio, mas logo soltou uma gargalhada alta e viva.

    “Você e ela que teriam ido para o túmulo há muito tempo se ela tivesse descoberto!”

    Selene juntou-se a ele na risada.

    “Ninguém sabe como matar um imortal até hoje, mas tenho certeza de que ela teria descoberto se tivesse ficado sabendo!”

    Altador andou até a porcelana que guardava no quarto e colocou a mão no queixo, pensativo.

    “Eu poderia colocar essa na sala como ela fazia…”

    “Você poderia redistribuir toda essa mobília pela casa e colocá-las para uso”, ela apontou para o cômodo abarrotado. “Com exceção de uma cama decente, tudo o que você precisa está aqui.”

    “Eu não sei, Selene…”, Altador hesitou. “São artigos de luxo…”

    A fada inspirou e expirou devagar, canalizando toda sua capacidade empática para fazer o foco daquele momento ser Altador, e não o quão absurda era aquela encenação de ser pobre para se manter humilde era.

    Selene se pôs nos lugar dele, do mortal milenar que lutou toda sua vida contra os reis poderosos e gananciosos que deixaram sua família e tantas outras mais na miséria e à própria sorte. No camponês elevado a rei que é tratado como deus pelo povo - pelos povos - que acolheu.

    Suas atitudes não lhe apreciam mais absurdas, tampouco ridículas daquele ponto de vista. Altador não estava se deixando de lado, ele era um homem desesperado por manter contato com o pouco de humanidade que ainda reconhecia em si: a dor de seu passado que o motivou querer estar no lugar que estava hoje.

    Surpresa e orgulhosa de si mesma com sua capacidade de ter atingido essa nova compreensão, Selene começou:

    “O luxo não vai te corromper, meu amigo”, a fada mantinha o foco nos pensamentos que surgiam do sentimento de empatia. “Você não precisa reviver seu passado difícil para se manter humilde. Hoje você pode ser o rei que você gostaria que aqueles desgraçados fossem. Você tem poder para fazer aquilo que gostaria que eles tivessem feito para seu povo, mas escolheram não fazer.”

    Altador olhava para o nada, parecendo internalizar aquelas palavras.

    “Você ascendeu, mas não quer dizer que você está em risco de se igualar àqueles que você odiava. Ter um armário no seu quarto não vai tirar o jantar da família de um fazendeiro, eu juro.”

    O homem riu, mas havia um brilho triste em seu olhar.

    “Obrigado pelas palavras, minha querida Selene”, ele segurou as mãos dela. “Eu espero que você tenha razão.”

    Ele as soltou logo, mas não antes de apertá-las com carinho. Se virou para a mobília semi-empilhada e pegou uma das cadeiras.

    “Poderia me ajudar a tirar isso tudo daqui?”, ele pediu, levando a cadeira para fora e se virando para pegar outra.

    Selene sorriu, triunfante.

    “É claro que não”, ela segurou o armário pelo lado e começou a puxar. Nem acreditava no que estava acontecendo. Se soubesse como conversar se colocando no lugar de outra pessoa ao invés de intimidá-las a fazer o que ela achava melhor pudesse lhe trazer resultados tão bons antes, teria feito muitas escolhas diferentes em seu passado.

    “Ah, mais uma coisa”, Altador arregalou os olhos e parou de repente. “Você se importaria de ficar aqui por mais uns dias…?”

    “Hã… Talvez depois da redecoração, não…”, ela também parou, voltando-se para ele. Algo estava estranho, mas não conseguiu entender o quê. “Por quê?”

    “Hã… Eu gosto da sua companhia”, ele não parecia estar mentindo, o desconforto no ar que cortou a linha de pensamento empática de Selene.

    “Se eu descobrir que você está mentindo, você vai conhecer as piores magias do meu grimório.”

    Mas Altador não se intimidou. Muito pelo contrário, ele deu uma risada genuína.

    “Não se preocupe”, ele foi para o outro lado do armário ajudá-la a movê-lo. “Eu não estou.”

O Artefato

 Nova nota 7 “Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvor...