Thursday, January 15, 2026

As Sombras do Passado

Altador e Selene retornaram para casa pouco tempo depois do bilhete a Florin ser enviado, – após terem ajudado a lavar a louça e limpar a mesa de migalhas de bolo — com Altador ainda reclamando sobre a revelação ‘gratuita’ da localização de sua casa. Sem remorsos, e com o argumento de que ela e Altador não poderiam viver isolados do resto dos amigos ou da sociedade para sempre, Selene foi direto para o quarto trocar de roupa para dormir. 

A escuridão e o silêncio do cômodo a receberam friamente. Por mais que tentasse, não conseguia deixar de sentir que seu passado não a deixaria em paz tão facilmente.

“Ele te mostrou uma caixinha preta com o símbolo do seu amuleto?”, a voz de Jerdana ecoava em sua cabeça. “Ali dentro tem algo que ele quer te mostrar há muito tempo”

A mobília recém arranjada no quarto antes vazio a julgava silenciosamente, mas Selene balançou a cabeça e abriu o segundo armário — uma monstruosidade cor-de-rosa adornada com ouro — que fora um presente de Fyora a Altador nunca posto para uso, para pegar um dos seus novos pijamas, outro presente Fyora que Altador nunca usou. A fada das trevas fez questão de se apoderar de tudo o que Fyora dera a ele, sabendo que a rainha das fadas teria um enorme desprazer em vê-la usufruindo de tais caprichos proporcionados por ela mesma.

Contemplou as três gavetas inutilizadas na seção central do móvel e pôs a mão em um dos puxadores dourados. Após um momento de hesitação, abriu a primeira gaveta devagar, que encontrava-se completamente vazia.

Então a próxima. Nada

E na última… apenas o fundo branco e limpo.

Não, Altador sequer deve ter tocado nesse armário depois de colocá-lo em seu depósito de presentes. Se ele tivesse que guardar alguma coisa importante em algum lugar, ele guardaria na…

A pequena cômoda elegante perto da mesinha simples a encarava nas sombras.

Aproximando-se como se a madeira polida estivesse coberta de espinhos, ela deslizou a primeira das duas gavetas para fora com a ponta dos dedos, revelando a mesma papelada de antes. Embaixo dela, a fada apenas encontrou alguns ramos de flores e ervas aromáticas secas, duas ou três rolhas de vinho e um saquinho macio cheio de algodão, o que Selene supôs que fossem as lembrancinhas dos casamentos que Altador realmente atendeu.

Fechando-a silenciosamente, ela respirou fundo antes de checar o último compartimento da cômoda.

E como uma maçã envenenada oferecida em uma bandeja de prata, uma caixinha preta dançou para fora da cômoda, bem no centro da gaveta, o símbolo de seu colar gravado na tampa de madeira reluzindo na penumbra. Então, cansada dos segredos do homem a seu respeito, a mulher abriu a tampa.

Largada no interior de veludo, uma pedra branca quebrada bem no meio jazia em seu próprio pó. Com o coração apertado, Selene tomou os pedaços esfarelentos em suas mãos, olhando para eles como quem olha para um espelho.

Altador um dia planejou matá-la, ele mesmo havia admitido.

Se isto estava nessa caixa há tanto tempo, só poderia ser uma mensagem que ele planejava passar a ela no passado.

A consequência por ter quebrado sua confiança e ter tentando tomar a cidade.

Sua petrificação havia sido planejada, então. Mas o que aconteceu para que Altador não quebrasse sua estátua — suas estátuas — quando teve a oportunidade? Misericórdia? Perdão? Amor? Há quanto tempo ele estava dando chances a ela?

E o que o faria voltar em sua decisão?

A cabeça de Selene girava em perguntas, o aconchego e a segurança que sentia naquela casa se transformando em medo e vergonha. Ela deveria saber que cicatrizes profundas não desaparecem. Ela estava sendo testada, afinal, e não estava indo nada bem. Não precisava pensar muito em suas ações para saber disso. Só o feitiço da coceira que o fez sangrar já era um forte indício de seu mau desempenho, apesar de reconhecer que Altador deveria ter contado a ela o que estava acontecendo na cidade. Mas como culpá-lo, se ele não poderia confiar no que Selene faria ao saber?

Ela deveria ter feito algo diferente, ter provado que era alguém diferente. Alguém melhor. Uma heroína como eles. 

Ao invés disso ela bisbilhotava, causava escândalos e continuava a afrontar Altador como sempre fez.

Jerdana deveria estar alertando-a que existem outros segredos que Altador guardava em relação a ela. E se a primeira suspeita dela houvesse sido romance — como sempre — a segunda deveria ser desconfiança.

Resoluta, a mulher recolocou os fragmentos de rocha de volta na caixa e a selou na cômoda, determinada a provar-se uma verdadeira heroína aos olhos de seu rei.


“Selene, há quanto tempo, guria!” Florin chegou quando o sol se pôs e lhe deu um abraço apertado, o qual ela tentou retribuir com a pouca energia que tinha. “Eu teria vindo te ver antes se eu pudesse! Cadê seu colega de casa?”

“Ah, ele…” ela soltou um bocejo. “Está dormindo no quarto. Chegamos tarde em casa ontem e ele capotou na cama logo depois.”

“Ah, sim, vocês estavam na casa de Jerdana e Fauna mandando cartas”, ele apontou. “Mas e você? Não dormiu não?”

“Acabei de acordar!”, mentiu. Ficou deitada na cama por algum tempo sem sequer conseguir fechar os olhos, e quando Altador entrou no quarto, ela fingiu estar dormindo para não interagir. Depois de alguns minutos, tendo ouvido o colchão ser colocado no chão em frente à porta e Altador parado de se remexer nele, ela pegou as roupas do dia anterior que estavam jogadas no chão e voou pela janela, reentrando na casa pela frente. Seus pensamentos a mantiveram acordada o dia inteiro. “Mas vem, entra, vamos subir pra você me contar sobre os incêndios.”

Livre de mobílias e presentes finos e agora com um forte cheiro de incenso, o depósito de Altador se tornou o laboratório de feitiços de Selene. Muitas vezes o homem se certificou de que a fada tinha certeza que não gostaria de reformar o lugar — que estava com o chão marcado e com a tinta da parede descascando em alguns lugares — antes de utilizá-lo, mas ela negou e brincou que a atmosfera sinistra iria inspirá-la a criar feitiços obscuros e poderosos. Agora, o arrependimento subia por sua espinha com um gélido calafrio. Nenhuma pessoa com boas intenções faria um comentário desses, faria?

Longas cortinas cor de lavanda pendiam em frente a janela e teias de aranha se acumulavam próximo ao teto. Livros e mais livros escritos por feiticeiras e fadas das trevas, inclusive Selene, enchiam as várias estantes ainda empoeiradas em um dos lados do cômodo. De frente para elas, um gaveteiro e uma mesa de jantar arroxeados com vários potes de vidro vazios esperavam ser preenchidos por experimentos futuros. E, por fim, no centro do quarto um pequeno círculo de pedra adornava uma grande panela de sopa sem nenhum sinal de uso.

“Ei, eu acho que lembro da Fada do Sopão dar isso de aniversário pro Altador ano passado”, Florin comentou ao entrar no laboratório. 

“É, eu ainda não consegui um caldeirão, mas a panela vai servir por enquanto”, Selene puxou uma das cadeiras da mesa de jantar para ele e sentou-se em outra. “Um laboratório de magia não é muito diferente de uma cozinha, afinal”

“Meu laboratório é minha cozinha!”, Florin sentou-se, com os olhos brilhando. “Quando não estou fazendo o almoço, estou conduzindo estudos botânicos lá. Inclusive fiz testes em várias sementes para saber como reagiam ao fogo. Encontrei algumas leguminosas comestíveis resistentes às chamas comuns, mas infelizmente não resistiram àquele fogo mágico maldito” sua expressão ficou obscura.

Selene cruzou as pernas e apoiou o indicador no queixo.

“Jerdana disse que uma de suas misturas fez o fogo aumentar”, ela apertou os olhos. “Você se lembra qual?”

Os olhos do fazendeiro se perderam por alguns segundos, as sobrancelhas se juntando no meio da testa sob seus cabelos loiros. Então ele tirou do cinto um pequeno caderno de capa de couro e folhas manchadas, folheando-o com rapidez.

A fada umedeceu os lábios, tensa e curiosa pela informação que seu velho amigo lhe daria. Se suas suspeitas estivessem erradas, não saberia mais como ajudar. Porém, se estivessem corretas… talvez essa fosse a única chance do Conselho recuperar o apoio da população e de Selene demonstar heroísmo a Altador, tanto a cidade quanto o monarca.

“Ah, foi a tentativa de contra-feitiço tradicional com alguns itens que Psell me me deu”, ele aperta os olhos para o caderno. “Aqui diz que foi só água fria energizada com quartzos rosa e terra de cemitério. Não sei muito bem como magia funciona, mas não esperava que lama macabra fosse apagar o fogo e imaginei que a piora dele tivesse sido por causa das energias negativas dos mortos.”

A caixa de lembranças na mente de Selene se abre de supetão. O gosto da ambrosia, o vento frio balançando seus cabelos, os breves momentos de conversa em meio a longos períodos de silêncio ao entardecer. Momentos monótonos e longínquos pintados com as cores da nostalgia de um tempo diferente protegido dos problemas do presente. 

“Eu amei ver minha constelação no céu ontem, Sel.” sentada em uma nuvem, Psellia balançava os pés livres. “Não sei como você consegue fazer coisas assim! A magia das trevas é tão difícil… tão confusa e sem propósito… Sem ofensas.”, seu corpo retesou por um momento. “Eu só não consigo entender como ela funciona.”

“Tudo bem”, Selene respondeu da janela da torre do observatório celeste. “Ela é complicada porque diferente da magia elemental, que vem da matéria inerte já pronta para manipulação, o que chamamos de magia das trevas vem de seres vivos, que são confusos e sem propósito por si só. Por isso ela é difícil de dominar: tudo é um emaranhado de pensamentos e sentimentos que nem sempre fazem sentido ou têm origens conhecidas”

“Nossa, parece um pesadelo”, a fada do ar jogou a cabeça para trás. “Eu nunca conseguiria fazer um feitiço com essa energia instável.”

“É por isso que muitos usuários de magia das trevas usam energias negativas como pontos de foco”, Selene adicionou, apoiando os cotovelos no parapeito. “Ódio, raiva, medo, tristeza… Tudo isso apaga o barulho de fundo e concentra a magia em um só alvo. Principalmente o ódio, que é o que eu mais gosto de usar. Depois disso, é só se ajustar ao ritmo da magia e ela obedece.”

“Parece um processo bem dramático”, Psellia olhou para Selene e depois para as estrelas, que começavam a aparecer no céu. “Combina com você”.

De volta ao presente, a fada encontrou os olhos de Florin, que a observavam com preocupação.

“Você disse água energizada com quartzos rosa?”, ela repetiu as palavras do fazendeiro, que assentiu. “Psellia tentou usar a regra dos opostos como contra-feitiço. Ela quis anular ódio diretamente com amor.”, a fada bateu na própria testa com uma mão e a deslizou pelo rosto. 

“Mas se as chamas reagiram”, continuou pensativa. “Significa que alguém usou ódio para criá-las.“

“E como essa informação nos ajuda?”, Florin parecia tão confuso quanto esperançoso. “Não é uma coisa comum fazer feitiços com ódio?”

“Sim, mas não pra criar fogo!”, os olhos de Selene arderam com a pista. “Ao contrário de mim, a maioria das fadas e feiticeiros não consegue controlar as chamas que vêm do ódio. Quem quer que tenha amaldiçoado aquelas fazendas é um usuário de magia das trevas poderoso.” 

Selene hesitou antes de continuar 

“Talvez esse seja mesmo um feitiço que eu criei”, ela desviou o olhar para a panela no centro da sala. Às vezes nem ela mesma conseguia entender a dimensão do rastro de destruição que deixava na vida dos amigos. 

Imediatamente, as mãos de Florin encontraram as suas.

“Não foi você quem nos amaldiçoou com ele”, seus olhos brilhavam com empatia. “E também, se foi você quem o fez, você também sabe como desfazê-lo, certo?”

O menor dos sorrisos pousou nos lábios de Selene.

“Talvez, mas primeiro precisamos ter certeza. Você tem alguma coisa, qualquer coisa, que tenha sido exposta ao fogo mágico?”

As sobrancelhas de Florin saltaram e ele retirou de um dos bolsos um pequeno saco de cetim com finas sementes carbonizadas dentro.

“As leguminosas que eu falei”, ele as ofereceu a ela.

Se apoderando do saco e pedindo para Florin a aguardar, a fada levantou-se e correu até a cozinha para pegar água e alguns temperos de cozinha. Ao voltar, despejou tudo na panela e ateou fogo nas pedras, criando uma pequena fogueira de labaredas púrpuras no chão.

Sentou-se no chão e recitou algumas palavras. Por fim, adicionou as sementes à mistura, as quais se dissolveram por completo e transformar a água cheirosa em sangue viscoso e quente.

Um vinco surgiu na testa da mulher.

“Tá… é isso mesmo. Aquilo é Fogo de Sangue, e é uma maldição que eu fiz muito antes de conhecer qualquer um de vocês.”, ela mostrou o conteúdo da panela ao amigo. “Tá vendo que ficou assim? Isso é porque o fogo está a procura de sangue.”

“Valha-me Fyora!” Florin arregalou os olhos. “Então a maldição tá em uma pessoa?!”

“Eu idealizei esse feitiço com a intenção de embeber um objeto em sangue fervente, não uma pessoa.”, Selene apagou a fogueira e o sangue voltou a ser água limpa e aromatizada. “Claro que tudo é possível com um pouco de criatividade, mas acho que se alguém tivesse tomado um banho de sangue escaldante, nós já saberíamos.”

Florin não pareceu menos assustado.

“A maldição funciona como um rastreador.”, ela prosseguiu. “Um objeto é prometido ao fogo e as chamas de ódio não param por nada até queimá-lo a não ser que seu criador as ordene o contrário.”

O fazendeiro levantou-se da cadeira, estupefato.

“Mas como os fazendeiros de Jazan conseguiriam manter o fogo apagado?”, ele começou a andar pelo cômodo. “Seriam eles apenas informantes? É possível comandar o fogo à distância?”, ele lhe deu um olhar sério, que se intensificou quando a fada assentiu. “Então só conseguiremos acabar com o incêndio de vez se obrigássemos seu criador a mantê-lo apagado ou queimarmos o tal objeto prometido?”

Selene assentiu novamente, mas sem muita certeza.

“Até onde eu sei, sim. Mas eu era jovem quando tive a ideia dessa maldição, então talvez haja alguma outra forma de pará-lo.”, ela abraçou os joelhos, olhando para as pedras quentes no chão de concreto. “Eu era bem mais inexperiente e inconsequente naquela época”

“Garota, estamos tentando descobrir um jeito de apagar esse fogo há 12 anos.” Florin soltou uma risada seca. “Seu feitiço é tão forte quanto as montanhas que cercam nossos muros!”

Havia uma estranha pontada de orgulho na voz do fazendeiro, o que fez Selene se sentir um pouco menos pior com sua participação naquela crise. Ele não parecia zangado ou com medo dela, muito pelo contrário, via nela suas melhores chances de resolver a questão de uma vez por todas. 

Encontrando forças nas palavras do homem, ela se levantou do chão, a panela já morna em suas mãos.

“Está pensando em agendar uma visitinha a Jazan e Nuria?”, ela sorriu com um canto da boca

Florin retribuiu o sorriso, estalando os dedos.

“Não sem antes combinar nossa estratégia de inteligência com Torakor.”

O Artefato

 Nova nota 7 “Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvor...