Monday, October 21, 2024

A Casa

    A hora dourada atingia a cidade de Altador quando Selene despertou novamente, sentindo-se mais revigorada do que na noite anterior.

    Foi saudada novamente por aquele cômodo perturbadoramente limpo e vazio, mas não permaneceu lá por muito mais tempo. Saltou da cama e foi direto para a porta, a qual dava para um pequeno corredor com uma escada a leste, uma porta ao norte e outra a oeste.

    Sua curiosidade foi atiçada pelas portas e os potenciais segredos que havia atrás delas. Pegou na maçaneta da porta a oeste, em frente a escada, mas antes de girá-la, escutou com atenção.

    Pela ausência de ruídos, parecia estar sozinha. Sentiu seu peito se aconchegar e depois apertar, o que a fez largar a maçaneta. Altador realmente confiava nela se a deixou sem supervisão em sua própria casa. Não que houvesse muito o que ela pudesse roubar ou destruir, mas ainda assim o gesto era significativo para que o desrespeitasse. As portas ficariam como estavam, não importa o quão tentadora fosse a possibilidade de ver qualquer coisa de valor naquela casa.

    Sendo assim, desceu as escadas, encontrando uma sala de paredes brancas cuja única mobília era uma pequena mesa, um pouco maior que a do quarto, com uma tigela de frutas, um prato com fatias de pão, um pote cheio de ambrosia, uma xícara de chá vermelho, um embrulho e um bilhete.

    Selene sentou-se na única cadeira junto à mesa e pegou o pequeno papel marcado com uma caligrafia cuidadosa.

    “Boa tarde, querida amiga. Torço que esteja se sentindo melhor. Espero que tenha um bom lanche da tarde. Se ainda estiver com fome depois de terminar, há mais comida na despensa ao lado. Também trouxe o vestido que Jerdana fez para você junto de alguns sabonetes e maquiagem. Acredito que já tenha achado o lavabo no andar de cima no final do corredor, fique à vontade para usá-lo.

Eu te amo

Altador.”

    Selene abriu um caloroso sorriso, mas logo desapareceu. Seria esse amor de um amigo que se importa genuinamente com ela ou de um rei que se sente o salvador de seus súditos?

    Comeu o pão com o doce, pensativa. Depois da noite anterior, não conseguia dizer se ele a via mesmo como uma amiga ou como uma responsabilidade.

    Na verdade, era difícil dizer se Altador se enxergava como uma pessoa ou como um executor de deveres morais. Sua linguagem formal, sua casa vazia, sua prioridade ser sempre agradar ao máximo ou no ao menos desagradar o mínimo…
O chá estava quente e o pão, fresco, o que mostrava que o homem não saíra há muito tempo.

    Mas o porquê de Altador estar fora no final da tarde, quando as pessoas estavam retornando às suas casas, era um mistério que pesava na mente de Selene. Tentou não pensar que ainda estava tentando amenizar o caos que ela causara no dia anterior e se esforçou para focar no sabor da ambrosia, das uvas e do chá que descobriu ser de morango.

    Finalizando o lanche, se direcionou para uma porta a leste, que presumiu que se tratava da dispensa que Altador mencionou. Era um pequeno corredor com um fogão a lenha, uma bancada com uma pia, um armário pequeno e prateleiras com alguns frascos com um líquido que ela reconheceu como poções de gelo. Em cima da bancada, encontrou um saco de pães e mais frutas que pareciam frescos. Dentro do armário, descobriu uma certa quantidade de comida enlatada, que ela cruzou os dedos para que fosse apenas para emergências.

    Suspirando, voltou para a sala e desembrulhou o pacote, encontrando seu vestido novo e pelo menos 10 tipos de sabonetes, shampoos, sais de banho e óleos essenciais, além de um tubo de batom vermelho e um frasco de delineador.

    Sentindo-se não mais lisonjeada, mas incomodada com os esforços de Altador demonstrar seja lá o que fosse que ele chamava de amor, Selene limitou-se a pegar um sabonete neutro, uma essência de jasmim e a maquiagem, Apenas o necessário para tirar o resto da sujeira do corpo e o cheiro de queimado que parecia ter grudado nela.

    Subiu as mesmas escadas e adentrou no cômodo ao norte, um pequeno banheiro que basicamente no qual uma banheira de madeira grande ocupava a maior parte do espaço. Ao seu lado, estava um cabideiro e uma toalha. Ela inspecionou o local, procurando por sinais de pelo e cabelo nas frestas da madeira, mas, felizmente, nada encontrou, esperançosa que fosse devido aos hábitos de limpeza do homem, e não pela falta de uso do item.

    Abriu a torneira e quando a banheira encheu, despejou um pouco da essência na água e entrou.

    Apesar da banheira ser grande, o espaço parecia sufocá-la. Ensaboou-se rapidamente dos cabelos aos pés e submergiu algumas vezes para retirar o sabão.

    Checou para ver se a toalha estava limpa, claro que estava, e secou-se antes de pôr sua confortável e macia roupa nova, suspirando de alívio. O tecido a envolveu como em um abraço, aconchegante e seguro. Desde a noite anterior, este foi o primeiro momento em que sentiu que podia realmente relaxar.

    Só então percebeu que no banheiro não havia espelho. Na verdade, em nenhum lugar da casa que tinha visitado.

    Selene grunhiu. Aquele espaço a incomodava de uma forma tão intensamente familiar que a deixava profundamente irritada. Todo o vazio, a falta de cor, a sensação de solidão e sufocamento…

    Selene sentia-se de volta à forma de estátua nas profundezas do oceano. De volta aos planos de deixar em destroços e em escuridão eterna toda Neopia. De volta a ser dominada por raiva e ódio de tudo e todos, incluindo a si mesma.

    Mas que observava era o completo oposto dessas lembranças. A casa não era nada além de luz, ordem e cuidado…

    Então ela entendeu.

    Era esse o problema.

    Absolutamente enfurecida, Selene chutou a porta do banheiro, desceu as escadas marchando e abriu a porta da frente com força.

    “Ah, que bom te ver de pé novamente!” Altador estava ao pé da porta, chegando com algumas sacolas cheias. “Por quê está tão irritada? A comida não estava boa o suficiente?”

    “Você”, ela apontou para o rosto dele, arfando de raiva. “Precisa parar com isso!”

    “Parar com o quê, exatamente?” Altador virou a cabeça, em dúvida.

    “Com isso… com esse…”, os músculos do rosto e das mãos de Selene se enrijeceram na tentativa de expressar a ideia fisicamente. “Com essa servidão toda! Parece que sua vida se resume a isso!”

    “Querida amiga”, Altador franziu o cenho, colocou um dos sacos no chão e pôs uma mão no peito. “Eu preciso ser um rei justo, é meu dever colocar os outros em primeiro lugar.”

    “Mas isso não é justo com você!”, ela deu um passo à frente e colocou a mão nos ombros dele, continuando a falar com sua voz uma oitava acima. “E eu não aguento mais te ver se tratando desse jeito. Antes de um rei, você é uma pessoa! Você precisa comer, dormir, tomar banho, de conforto e companhia como todo mundo! Mas parece que você não se dá o direito a nada disso! Tudo de confortável que você colocou dentro dessa casa foi pra mim, como se você fosse apenas um fantasma que assombra esse lugar ao invés de morar nele!”

    O homem ouviu suas palavras com atenção. Quando terminou, apenas disse “venha comigo” e passou por ela, entrando na casa e subindo as escadas. A raiva de Selene deu lugar à curiosidade e, assim, o seguiu.

    Eles pararam em frente à porta a oeste que Selene sentiu a tentação de abrir quando acordou. Altador girou a maçaneta e revelou um quarto cheio de… tralha.

    “É aqui que guardo meus tesouros.”, ele a convidou para entrar. “A maioria são presentes dos heróis e de outros monarcas.”

    Observando mais de perto, percebeu que a tralha era valiosa. Havia muita artilharia de ponta, incluindo armaduras de guerra e cerimoniais, espadas, escudos, arcos e flechas de todos os tipos.

    Também viu jóias, incluindo sua coroa em formato de folhas de louro que só lembrava de tê-lo visto usando uma vez

    Toda a mobília que faltava na casa estava enfurnada daquele quarto: mesas, cadeiras, estantes, prateleiras, todas de mogno, estavam abarrotadas umas do lado das outras, às vezes até em cima, como  no caso das cadeiras. Havia até um armário do mesmo tipo de madeira nobre lotado de de roupas simples e formais de diversas culturas, além de poltronas macias sendo usadas como depósitos de enfeites de diversas formas e materiais, moedas colecionáveis, cortinas, roupas de cama e quadros.

    O que não estava entulhado estava posto em cima de estantes ou pendurados na parede, como conjunto delicado de porcelana de Shenkuu e um alaúde tradicional de Qasala, um enorme espelho de prata e outros quadros.

    No que dava para ver no chão, além dos móveis, Selene percebeu um busto do próprio rei,  várias pilhas de livros grossos demais para pôr nas estantes, um cajado com o formato de garra segurando um globo de cristal…

    “Espera, isso é meu!”, ela pegou o cajado e se deparou com seu grimório no topo de uma das pilhas. “E isso também!

    “Rei Skarl me entregou seu cajado e Rei Hagrid seu grimório para guardá-los em segurança há algum tempo. Desde então, Hagrid me presenteia com um livro toda vez que nos encontramos e os guardo aqui.”

    “Skarl não manda lembranças não?” Selene levantou uma sobrancelha, desgostosa.

    “Ele manda… queijo.” Altador enrubesceu e Selene gargalhou. Ela sabia o que acontecia com ele quando comia queijo. “Eu repasso para Florin ou Gordos, sempre.”

    A fada continuava gargalhando.

    “E você nunca pediu pra ele te mandar outra coisa?”, ela perguntou entre risos.

    “Eu deveria ter feito isso no início”, ele colocou uma mão na testa, decepcionado consigo mesmo. “ A esta altura pedir isso só vai gerar constrangimentos. Ah, olha! Acho que você vai gostar disso!”

    Altador chamou a atenção da amiga para uma pequena cômoda elegante de madeira nobre na esperança de mudar o foco da conversa. Ele abriu a primeira gaveta, que continha muitos papéis antigos, alguns simples, outros coloridos e decorados. Logo percebeu que se tratavam de convites de casamento.

    Ela se debruçou sobre a gaveta, mexendo nos papéis que mais a chamavam a atenção: um pardo adornado de ouro que convidava Altador para a cerimônia oficial do casamento do Rei Jazan e da Princesa Nabile; outro azul cobalto com pérolas e conchas brancas, ‘Isca & Garin’, mais um, cor ‘Rosa Fyora’ (eca) que o convidava para o casamento da Capitã Brynneth e Sir Hanso…

    Suas sobrancelhas subiram em surpresa ao ver o próximo: um convite decorado com as bandeiras de Meridell e Brightvale e dois retratos de rostos conhecidos com os nomes ‘Sir Tormund Ellis’ e ‘Princesa Roberta de Brightvale’ escritos com caligrafia caprichosa.

    “Eles casaram?”, ela murmurou para si mesma. “É…que bom pra eles.”

    Continuando com sua exploração na gaveta, agora se voltando para os mais simples, lhe chamou atenção um que continha o símbolo da cidade de Altador. Parecia frágil , mas estava inteiro. Virou-o de cabeça para baixo para ler os nomes dos noivos: ‘Florin e Sasha’.

    “O quê?!”, ela pegou o papel e quase o enfiou na cara de Altador de tão perto que o colocou de seu rosto. “Quando isso aconteceu??? Como isso aconteceu???”

    “Hummm, há uns 500 anos?”, ele respondeu, divertindo-se com a reação dela. “E aconteceu… acontecendo, eu acho. Estávamos sob a maldição. Mas o casamento deles durou uns 100 anos, mas a relação se desgastou e acabou em um divórcio complicado. Passamos cerca de 50 anos sem poder reunir todos os heróis por causa deles. Hoje em dia eles superaram o que aconteceu naquela época e são bons amigos, mas não gostam que lembremos daquela época.”

    O cajado, o grimório e o queixo de Selene despencaram no chão.

    “Eu ainda não acredito que isso aconteceu”, ela olhava perplexa para o convite antigo. “Mas pelo menos eles se acertaram, diferente da Jhudora e da Illusen, que não se suportam até hoje.”

    “A bênção da longevidade de Siyana nos proporcionou experiências complexas…”, continuou Altador. “Gordos está no seu oitavo casamento com um mortal comum e olha que ele já esteve no funeral de três ex-cônjuges, quatro filhos e alguns netos… acho que bisnetos também.”

    “Tiveram mais casamentos entre os nossos além desse?!”

    “Alguns…”

    Selene correu de volta para a gaveta, procurando pelos nomes dos amigos.

    Alguns dos convites simples tinham os nomes dos conselheiros. Logo encontrou os convites dos oito casamentos de Gordos, com Amanda, Erik, Theodor, Arianna, Júlio, Hunter, Geert e Anastácia, este mais recente e colorido. Haviam três convites com o nome de Marak, com Sandro, William e Vincent, todos envelhecidos e com datas muito antigas. Fauna se casou com uma moça chamada Imogen há 315 anos. Torakor, com um tal de Kadir há 117 anos. Sasha, depois de Florin, casou-se com Marianne, há 13 anos. Em nenhum lugar encontrou os nomes de Psellia ou de Siyana, mas já imaginava que, por serem fadas, não iriam querer se envolver em casamentos. Demorou um pouco até encontrar outro papel com dois nomes que conhecia:

    “Jerdana e Fauna?!” ela leu em voz alta, embasbacada. “Nossa, elas se casaram há 249 anos! Como terminou essa história?”

    “Na verdade elas ainda estão juntas. Estão organizando a renovação de votos para o ano que vem.”

    A expressão da fada murchou.

    “Por que ninguém me contou isso antes…?” ela guardou cuidadosamente o convite antigo e fechou a gaveta.

    “Nós não tivemos muito tempo… Entre sua chegada, o banquete e o acidente, o nosso foco de atenção esteve sempre em você.”

    Ela ficou em silêncio, se lembrando-se de tudo o que tinha acontecido até aquele momento.

    Selene se sentiu incomodada ao se ver no outro extremo do comportamento nocivo de Altador: ele se deixava de lado para cuidar dos outros, ela deixava os outros de lado para focar em si mesma.

    Mesmo quando foi se entregar, estava pensando em acabar com seu prórpio sofrimento. Mesmo quando estava incomodada com o vazio do resto da casa, estava vendo seu próprio passado recente refletido nele. Mesmo naquela sala cheia de inegáveis tesouros, estava vendo o valor que ela atribuía aos objetos, o valor que o amigo via neles, que vinha das histórias ocultas que ele tinha com aquelas coisas…

    Então lhe ocorreu um pensamento:

    “Altador…” ela pegou seu cajado e grimório do chão e se voltou para o homem. “Por quê você deixa o que é valioso pra você dentro de um quarto enquanto o resto da sua casa é tão vazia?”

    “Mantenho minha casa deste jeito para me lembrar de onde vim”, ele suspirou, olhando para a porta de onde vieram. “Eu e minha família não tínhamos muita coisa e sei que boa parte da minha humildade veio disso. Não quero perdê-la.”

    “Eu me lembro da sua casa, Altador. Ela era simples, não vazia”, Selene cruzou os braços, irritada, mas depois descruzou, tentando ser mais paciente. “Digo… Eu lembro das pinturas e esculturas que seu pai gostava muito e não queria vender nas paredes e nas mesas. E dos brinquedos da sua irmã espalhados pelo chão. E a porcelana que sua mãe adorava… Ela só usava em ocasiões especiais, mas ficava exposta na sala como decoração.”

    “É verdade…”, Altador deixou as lembranças fluírem. “Uma vez minha irmã quase quebrou um dos pratos jogando bola em casa.”

    “Ela quebrou. E não foi só um prato, foi tudo. Nós estávamos jogando quando ela acertou a prateleira e toda a louça caiu no chão. Eu consertei com magia. Todo mundo foi para o túmulo sem que ninguém, exceto eu e Alissa, soubesse de nada…”, ela deu de ombros e sorriu amarelo. “Até agora.”

    Altador pareceu furioso a princípio, mas logo soltou uma gargalhada alta e viva.

    “Você e ela que teriam ido para o túmulo há muito tempo se ela tivesse descoberto!”

    Selene juntou-se a ele na risada.

    “Ninguém sabe como matar um imortal até hoje, mas tenho certeza de que ela teria descoberto se tivesse ficado sabendo!”

    Altador andou até a porcelana que guardava no quarto e colocou a mão no queixo, pensativo.

    “Eu poderia colocar essa na sala como ela fazia…”

    “Você poderia redistribuir toda essa mobília pela casa e colocá-las para uso”, ela apontou para o cômodo abarrotado. “Com exceção de uma cama decente, tudo o que você precisa está aqui.”

    “Eu não sei, Selene…”, Altador hesitou. “São artigos de luxo…”

    A fada inspirou e expirou devagar, canalizando toda sua capacidade empática para fazer o foco daquele momento ser Altador, e não o quão absurda era aquela encenação de ser pobre para se manter humilde era.

    Selene se pôs nos lugar dele, do mortal milenar que lutou toda sua vida contra os reis poderosos e gananciosos que deixaram sua família e tantas outras mais na miséria e à própria sorte. No camponês elevado a rei que é tratado como deus pelo povo - pelos povos - que acolheu.

    Suas atitudes não lhe apreciam mais absurdas, tampouco ridículas daquele ponto de vista. Altador não estava se deixando de lado, ele era um homem desesperado por manter contato com o pouco de humanidade que ainda reconhecia em si: a dor de seu passado que o motivou querer estar no lugar que estava hoje.

    Surpresa e orgulhosa de si mesma com sua capacidade de ter atingido essa nova compreensão, Selene começou:

    “O luxo não vai te corromper, meu amigo”, a fada mantinha o foco nos pensamentos que surgiam do sentimento de empatia. “Você não precisa reviver seu passado difícil para se manter humilde. Hoje você pode ser o rei que você gostaria que aqueles desgraçados fossem. Você tem poder para fazer aquilo que gostaria que eles tivessem feito para seu povo, mas escolheram não fazer.”

    Altador olhava para o nada, parecendo internalizar aquelas palavras.

    “Você ascendeu, mas não quer dizer que você está em risco de se igualar àqueles que você odiava. Ter um armário no seu quarto não vai tirar o jantar da família de um fazendeiro, eu juro.”

    O homem riu, mas havia um brilho triste em seu olhar.

    “Obrigado pelas palavras, minha querida Selene”, ele segurou as mãos dela. “Eu espero que você tenha razão.”

    Ele as soltou logo, mas não antes de apertá-las com carinho. Se virou para a mobília semi-empilhada e pegou uma das cadeiras.

    “Poderia me ajudar a tirar isso tudo daqui?”, ele pediu, levando a cadeira para fora e se virando para pegar outra.

    Selene sorriu, triunfante.

    “É claro que não”, ela segurou o armário pelo lado e começou a puxar. Nem acreditava no que estava acontecendo. Se soubesse como conversar se colocando no lugar de outra pessoa ao invés de intimidá-las a fazer o que ela achava melhor pudesse lhe trazer resultados tão bons antes, teria feito muitas escolhas diferentes em seu passado.

    “Ah, mais uma coisa”, Altador arregalou os olhos e parou de repente. “Você se importaria de ficar aqui por mais uns dias…?”

    “Hã… Talvez depois da redecoração, não…”, ela também parou, voltando-se para ele. Algo estava estranho, mas não conseguiu entender o quê. “Por quê?”

    “Hã… Eu gosto da sua companhia”, ele não parecia estar mentindo, o desconforto no ar que cortou a linha de pensamento empática de Selene.

    “Se eu descobrir que você está mentindo, você vai conhecer as piores magias do meu grimório.”

    Mas Altador não se intimidou. Muito pelo contrário, ele deu uma risada genuína.

    “Não se preocupe”, ele foi para o outro lado do armário ajudá-la a movê-lo. “Eu não estou.”

O Artefato

 Nova nota 7 “Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvor...