Nova nota 7
“Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvores e de casinhas coloridas que brilhavam sob a luz do pôr do sol nos arredores do Mundo das Fadas, outrora uma gloriosa cidade nas nuvens, agora uma mancha rosa nos limites dos Bosques Assombrados.
Havia cinco dias que só confiava em seus livros para lhe fazer companhia em casa, ainda que a de Altador estivesse começando a fazer falta. O contato entre os dois minimizou ainda mais após sua última conversa, quando ele passou a deixar a comida em uma bandeja no chão e a bater na porta para avisar que a havia colocado lá antes de descer as escadas sem olhar para trás.
Por alguma razão, mesmo ele tendo confessado querer se livrar dela para sempre, ver Altador se afastando de costas para ela a machucava profundamente. No fundo, só desejava poder descer para jantar com Altador e conversar sobre a vida, os bons momentos passados e compartilhar histórias como se nada tivesse acontecido. Ela sentia falta de como seus olhos brilhavam quando a ouviam contar sobre sua vida no Mundo das Fadas, na época que ainda era apenas uma colônia de Fadas Celestes — aquelas que possuíam alguma conexão com o céu — ainda que fossem memórias curtas e triviais.
Por outro lado, Selene também se sentia encantada pelas histórias que Altador contava sobre sua infância em sua antiga vila. Havia uma certa magia nas palavras dele embebidas de nostalgia pela vida com os pais e a irmã; pela solidariedade entre os vizinhos, que ofereciam desde comida até serviços gratuitos para quem precisasse; e até mesmo no ódio compartilhado entre todos eles pelos nobres que extorquiam deles cada centavo que tinham no bolso. Falava com orgulho como todos foram acolhidos na cidade de Altador, onde gerações e mais gerações viveram em casas bonitas e com trabalho digno, sem que nenhuma moeda paga por eles não tenha sido revertida em serviços públicos que melhoraram a qualidade de vida de todos a cada dia.
Era realmente admirável como Altador era íntegro de corpo e alma. Ele honrava seu passado com suas atitudes no presente que inspiravam as pessoas no futuro. Ele era um símbolo perfeito de justiça e honra.
E em breve ela também poderia ser, graças a quem colocou o Mundo das Fadas no chão.
Entre os livros em sua estante, ela encontrou o diário de uma das aprendizes de Fyora, Alexandra — ou apenas Xandra — ninguém menos que a responsável pelo que ficou marcado na história como “A Ruína das Fadas”, e Selene havia devorado cada palavra nele escrito.
Xandra era uma estudante dedicada que conhecia os fundamentos da magia como poucas pessoas conhecem. Seus profundos estudos sobre rituais e artefatos mágicos eram brilhantes; seus feitiços eram simples e eficientes, muitos sendo versões de outros feitiços populares modificados para executar outras funções; e seu posicionamento quanto ao lugar de privilégio das fadas era bem fundado. Conseguia até ver uma semelhança das raízes de seus pensamentos com a conduta do Conselho: dar os recursos necessários a todos os que precisam, mas não os têm.
O maior problema com feitiços que envolvem qualquer forma de controle ou mudança sobre almas, espíritos ou consciências é o quão difícil é mantê-las. Eles são irritantemente teimosos e sempre acabam retomando o controle ou retornando ao seu estado natural.
Para que qualquer forma de magia seja eficiente nesse quesito, é preciso ou arranjar uma forma de contornar a percepção da consciência sobre si mesma ou ao mundo ao seu redor — que era como Selene conseguia realizar seus feitiços de manipulação mental em outras pessoas, mas não conseguiria usar em si mesma— ou esmagar a vontade da alma com uma quantidade absurda de poder — o que seria perfeito para uma reforma permanente, mas impossível de executar pois ninguém teria magia o suficiente para isso, nem mesmo ela na última noite de lua minguante do ciclo.
Foi então que Xandra lhe revelou através de suas anotações a existência de um artefato capaz de ampliar os poderes mágicos de seu portador. O alívio se espalhou por Selene no momento em que leu sobre ele: com certeza seria capaz de lhe dar força o suficiente para subjugar sua própria natureza maligna. Afinal, segundo os testes de Xandra, apesar do artefato ser composto de duas metades, mesmo uma delas já lhe fornecia poder o suficiente para conseguir petrificar todas as fadas de Neopia, contanto que estivessem em um só lugar (o festival das Fadas, genial!).
A fada se perguntava como teria sido se Xandra tivesse sido aluna de Jerdana ao invés de aprendiz de Fyora. Seria ela uma feiticeira renomada ou teria desenvolvido as mesmas ideias narcisistas e se tornado uma segunda traidora de Altador? Teria Xandra se tornado uma semente podre ou nascido como uma? Por mais que quisesse, era impossível saber.
Sobrevoando um último telhado, ela encontrou seu destino: uma aconchegante casinha amarela com algumas trepadeiras subindo a cerca branca no quintal com algumas poucas árvores cheias de flechas presas em troncos repletos de marcas de lâmina. No centro, os restos de um boneco de treino revelavam que quem quer que usasse o quintal para treinos de batalha estava precisando urgentemente de um novo, pelo bem da vida vegetal do local.
“Um velho amigo meu está com este artefato há alguns anos”, Kelland estava tomando um vinho na Ambrosia Deliciosa como gostava de fazer toda tarde. “Ele me pediu para não divulgar para qualquer um, mas disse que se alguém de confiança estivesse disposto a pagar bem por ele, o venderia de bom grado.”
Pousando de cabeça para baixo em uma das árvores para além do quintal, Selene respirou fundo. Observou a pequena jarra de vidro presa em uma corda ao redor do pescoço, junto de seu colar com pingente de eclipse, balançando em frente aos seus olhos. Só precisaria quebrá-la para retornar ao laboratório, um truque antigo e simples, mas muito útil. Ela precisaria ser rápida com a compra se quisesse voltar para casa antes que Altador desse por sua falta. A culpa pulsava em seu peito, mas era um mal necessário para chegar onde precisava.
Ela desceu da árvore e se abaixou atrás da cerca. Invocou uma aparência agradável aos olhos que inspirasse simpatia e confiança, logo vendo-se em um corpo de um homem forte, alto e com cabelos longos. Dando-se por satisfeita, foi até a porta e tocou a campainha.
Quem atendeu foi um jovem com roupas gastas e de cabelos azulados longos o suficiente para serem amarrados em um pequeno rabo de cavalo baixo. Ele arregalou os olhos e empalideceu quando a viu.
“Rei Altador?!”
“Hein?!”, pelo espelho da parede do fundo, ela conseguiu ver seu disfarce: uma cópia idêntica de Altador, exceto pela barba. Percebendo a própria reação, Selene tentou disfarçar. “Eu?! Não, eu não seria tão bonito assim nem nos meus sonhos, haha!”, ela tentou ignorar a surpresa da semelhança das vozes indo direto ao ponto. “Estou aqui porque um amigo disse que você está vendendo um certo artefato amplificador de magia, será que poderíamos fechar negócio?”
“Uou, calma aí, parceiro!”, o rapaz colocou as mãos paralelas ao rosto como quem se rende à polícia. “Vamos com calma, a gente nem se apresentou!”, ele esticou um dos braços para um aperto de mão com um sorriso malandro. “Prazer, você é o…?”
“A…da…mastor?”, ela disse de improviso, o cumprimentando vagarosamente. Droga, ela precisava se estabilizar se quisesse vender aquele disfarce. “Desculpe, é que não costumo dizer meu nome a quem não conheço, a força do hábito me faz resistir. Mas meu amigo me garantiu que eu poderia confiar no senhor…?”
“Hanso”, ele soltou a mão dela, ainda com o mesmo sorriso no rosto. “Sim, aquele mesmo Hanso que salvou as fadas dos planos malignos de Xandra. Não me reconheceu? Talvez os anos não estejam sendo tão bondosos comigo…”
“Oh, aquele Hanso? Eu sabia que estava te reconhecendo de algum lugar!”, ‘Adamastor’ mentiu, pois nunca havia aquele cara na vida. “Não passa pela cabeça da pessoa comum conhecer uma figura histórica de um jeito tão banal!”
“Ora, assim você me deixa envergonhado, Adamastor”, Hanso ainda sorrindo colocou uma das mãos no rosto como se quisesse escondê-lo, mas sem tirar o olhar do convidado. “Me diga, quem é seu amigo que me indicou?”
“O conheço apenas como Kell”, o sósia de Altador percebeu a armadilha e a evitou. Kelland era uma figura lendária mil vezes mais conhecida do que Hanso, mas também é um ladrão experiente que sabe de quem esconder sua identidade.
“Oh, Kell de Meridell, é claro!”, o jovem finalmente relaxou o rosto e pela primeira vez sorriu de verdade. “Venha, pode entrar, conversar no sofá é muito mais confortável do que ficar em pé aqui na porta.”
“Sucesso!” Selene celebrou mentalmente. “Estou ganhando a confiança dele”
O interior da casa era bastante decorado. Um relógio, quadros, medalhas, troféus e peças emolduradas estavam expostas nas paredes brancas e nas prateleiras de madeira lustrada. Um conjunto de sofás verde claro estava no meio da sala, um de três lugares e outro de dois, um de frente para o outro. Uma bandeira de Brightvale e outra de Meridell estavam acima do espelho no qual se vira antes de entrar.
“Minha esposa é de Brightvale e eu sou de Meridell.”, ele estava atento ao olhar de Adamastor. “Há mais de 10 anos nos mudamos para o Mundo das Fadas, mas honramos nossas pátrias de origem.”
“E como Fyora se sente sobre isso?”, Adamastor perguntou controlando seu tom de voz, sabendo sobre o valor que Fyora tem por lealdade à sua liderança. O Mundo das Fadas e a classificação elemental das fadas não existiria sem ele.
“Ela não parece ter muito interesse nas nossas vidas pessoais, só nos paga para estar sempre à disposição.”, ele deu de ombros, sentando-se no sofá e colocando uma das pernas em cima do joelho. “Ela vai, nos chama pra recuperar um artefato perigoso, a gente leva pro castelo dela e vida que segue. Mas por que não gosta dela?”
“E-eu? Não tenho nada contra ela!”, o convidado ergueu as mãos, ainda de pé. “Ela é a rainha das fadas, o maior bem que já existiu na face desse planeta, só tenho a agradecer por ela nos agraciar com a sua existência!”
“Ah, vai, pode ser sincero só tem nós dois aqui”, Hanso inclinou-se pra frente. “Senta ali, eu também não sou tão fã dela assim.”
Adamastor surpreendeu-se com a confissão. Aparentemente Hanso era um assalariado de Fyora, mas não era devoto dela. Não imaginava que tal coisa pudesse existir.
“Como não?”, ele se sentou no sofá em frente ao jovem, ansioso pela explicação.
“Ela é meio estranha, parece que não sabe lidar com pessoas… O que é meio irônico para uma rainha”, ele se inclinou para trás e pôs os braços atrás da cabeça. “Eu admito que não confio muito nela. Não confio em monarcas no geral, quem dirá uma monarca aparentemente incompetente. Aparências enganam com muita facilidade.”
“Por isso está vendendo o artefato?”, Adamastor estreitou os olhos. “Não quer que ela o tenha em sua coleção?”
“Você é bom.”, Hanso o olhou no fundo dos olhos. “Então serei mais direto: por quê você o quer na sua?”
Selene respirou fundo. Hanso era perceptivo o suficiente para pegá-la na mentira se decidisse dar uma justificativa falsa. Então decidiu tentar ganhá-lo com a verdade.
“Eu… cometi muitos erros na minha vida”, Adamastor começou, desviando o olhar. “Erros graves, erros caros. Mas eu quero parar de cometer esses erros com um feitiço. Mas sem esse artefato eu não vou conseguir.”
Hanso pareceia ponderar. O relógio ecoava enquanto os segundos se arrastavam no silêncio da sala.
“Que tipo de erros?”
“Do tipo que te afastam de quem você mais ama e te colocam inúmeras vezes na mesma cela.”
As sobrancelhas do jovem saltaram e seu rosto murchou, os olhos espertos e observadores brilhando com empatia.
“Entendo”, ele disse após um momento de silêncio. “Estive nessa mesma posição um dia. Se não fosse por aquele artefato — e toda a Ruína das Fadas, na verdade — eu não estaria aqui com a minha Brynn.”
Hanso se levantou, sério e estendeu sua mão mais uma vez.
“Não se preocupe com o pagamento, nós podemos nos acertar depois.”
Adamastor ficou de pé e a apertou, balançando a para cima e para baixo uma vez, com confiança.
Então, neste momento, a porta da frente abriu e uma mulher ruiva de armadura roxa e rosa entrou.
“Desculpe o atraso, amor, mas acho que ainda dá pra chegar a tempo. Vou trocar de roupa bem rápido e…”, ela observou os dois homens de mãos dadas no meio da sala. “Rei Altador?!”
“Brynn!” Hanso imediatamente ficou na ponta dos pés e passou um dos braços pelos ombros de Selene. “Esse é o Adamastor, querida!”, ele esticou os lábios em um sorriso nervoso assustador. “Ele é um amigo meu de Meridell que estava aqui por perto e resolveu visitar!”
“Oh, muito prazer, Adamastor!”, Brynn o cumprimentou. “Desculpe a confusão. Você está aqui pela festa cigana também?”
Selene abriu a boca para falar, mas Hanso a impediu.
“Ah, a festa cigana! Sim, é claro!”, ele puxou o pescoço do homem para mais perto, sufocando-o. “Adamastor é um baita pé de valsa, não é, Adamastor? E olha, ficamos conversando tanto tempo que eu até esqueci de me arrumar!”
“Então melhor nós irmos rápido, eu não quero perder a primeira apresentação!”, Brynn pediu licença e passou por eles, que ficaram congelados na mesma posição até ouvir um barulho de porta fechando.
“Droga, ela foi pro quarto.”, Hanso soltou o convidado e começou a sussurrar. “Escuta, eu sei que isso é um baita de um inconveniente, mas você iria pra festa com a gente? Minha esposa não sabe dessa venda e eu vou estar muito encrencado se ela descobrir. Eu te entrego o artefato quando voltarmos para cá, eu prometo.”
Olhando para a escuridão do lado de fora e para o relógio na parede, Selene também se viu em uma enrascada. Ela sentiu um calafrio subindo pela sua espinha, mas ainda assim resolveu cooperar.
“Claro, vai ser divertido!”
Iria valer a pena. Tudo ficaria bem após o feitiço.
Wednesday, March 4, 2026
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