Sentada em uma das poltronas da sala, a fada via o temporal se formar do lado de fora.
Conforme a visita de Florin se tornava passado recente, a angústia do que fazer quanto a seu colega de casa se presentificava.
Era evidente que as coisas não seriam mais as mesmas entre os dois, não importava o que ela fizesse, mas valeria a pena revelar a ele o motivo? Um ultimato antigo que ele nunca foi capaz de fazer?
E quando descobrisse sobre seu feitiço usado para incendiar as terras férteis da cidade, concluiria ele que não haveria salvação para ela? Destruiria sua estátua dessa vez?
Seria toda a amizade que reconstruíram no último mês uma farsa? Estaria ele dando ouvido às suas ideias como forma de julgar sua moralidade?
Seria mentira quando ele dizia que a amava?
A respiração de Selene era rápida e intensa Ela contorceu o rosto e trincou os dentes em fúria pela desonestidade de Altador, mas esta derreteu em seus olhos, escorrendo pelo seu rosto como lágrimas. Não conseguia odiá-lo por mais que tentasse, nunca conseguiu. Só conseguia sentir a dor de desejar desesperadamente uma conexão profunda e genuína com ele e saber que nunca estaria ao seu nível para que isso acontecesse.
Ele se oferecia de sacrifício pela segurança e conforto dos cidadãos comuns de Altador, mantinha distância do Conselho para mantê-lo seguro, prezava por ser humilde a todo momento — até dentro da própria casa. Altador merecia cada título que tinha e carregava o peso de todos com honra e graça, até mesmo ao ouvir as ideias estúpidas e egoístas de Selene que consideravam como mortal alguém que conseguiu atingir o patamar de deus.
A tempestade caía sob a paisagem montanhosa enquanto a fada tentava abafar seus soluços encolhida na poltrona em volta de suas próprias asas. Ela nunca seria capaz de ser como ele. Por mais que pudesse escolher o altruísmo, ele cessava no momento em que tornava-se sacrifício. Sua natureza egocêntrica sempre falaria mais alto, não falaria?
Cravou as unhas nos braços com os olhos fechados, o corpo tremendo de raiva e medo. Ela sabia que iria doer — e muito — mas não tinha escolha a não ser destruí-la.
Lapidaria-se em alguma coisa melhor, verdadeiramente boa e gentil, disposta a fazer de tudo pelo bem de qualquer um ao seu redor. Ela seria uma deusa como ele.
Embalada pela ideia, a mulher desvencilhou-se de si mesma, respirou fundo e dirigiu-se às escadas para voltar ao laboratório, quando avistou uma enorme silhueta parada aos pés dela e seu coração quase saiu pela boca junto de seu grito.
“O que você está fazendo acordada?”, perguntou um Altador sonolento. “O sol ainda está nascendo.”
“Ah, eu…”, ela tentou pensar em alguma coisa rápido, desviando do homem e subindo os degraus enquanto falava. “Dormi na poltrona, estou indo para a cama.”
“Tudo bem”, ele bocejou. “O que você quer pro café da manhã? Fauna nos deu mirtilos dessa vez, você quer que eu faça geléia ou suco com eles?”
“Hã, pode fazer o que você quiser”, ela gritou ao entrar em seu laboratório mágico.
“Mas…”, ele começou, mas parou ao ouvir uma porta fechando.
—
Uma batida na porta fez a mulher acordar no susto, levantando a cabeça de cima de um livro aberto em uma mesa repleta de outros.
Lembrava-se de ter começado a reunir bibliografia sobre a natureza da alma, mas nada mais. Devia ter adormecido assim que começou a ler.
Ela cambaleou até a porta, encontrando Altador com um prato de comida em uma mão e uma taça em outra.
“Oi, hã…”, ele pigarreou, “Já está de tarde e eu fui te acordar no quarto pra comer, mas você não estava lá…”, ele observou Selene piscar lentamente, “Enfim, não sei porque você não disse que viria pra cá, mas eu fiz os dois”, Altador deu um sorriso amarelo e entregou a ela o prato com pão com geleia e mirtilos frescos mais a taça com suco.
“Ah, obrigada”, sua companheira de casa, ainda no processo de acordar, pegou a louça e fechou a porta com um pé, quando Altador a impediu.
“Espera!”, ele grasnou colocando a mão na porta. “Digo, como foi com Florin ontem? Vocês acharam um jeito de acabar com os incêndios?”
A fada arregalou os olhos.
“Nós concluímos que precisamos falar com Torakor antes de falar com Jazan sobre o fogo.”, ela limitou-se a dizer, forçando o pé atrás da porta.
“Espera, Jazan?!”, Altador pôs mais força para mantê-la aberta. “Você tinha dito que achava ser um feitiço seu! É um feitiço dele?!”
“É complicado”, ela evadiu a resposta aproveitando-se do conhecimento limitado de Altador sobre magia. “Agora eu realmente preciso voltar ao trabalho.”
Com tristeza no olhar, o homem soltou a porta vagarosamente, que fechou-se sem perdão à sua frente. Ele virou-se para descer as escadas, quando ouviu o clique da maçaneta e virou a cabeça para trás.
“Muito obrigada pela comida, majestade.” a fada das trevas disse em tom formal. “É uma honra para mim poder me deleitar no sabor de suas receitas.”
A porta tornou a fechar-se, e Altador, de cabelo desarrumado e robes simples, repetiu silenciosamente a palavra “majestade”, um calafrio percorrendo por sua espinha.
—
“Querido amigo,
Florin me colocou a par da situação. Se a teoria de Selene estiver correta e a causa do fogo for comprovadamente um feitiço lançado por Jazan em nossas terras, ele terá infringido o acordo diplomático entre Altador e Qasala de não agressão, que inclui qualquer ataque físico ou mágico que venha prejudicar quaisquer uma das nações. Com isso, poderemos pedir legítimo apoio econômico e, se necessário, militar a Brightvale, Meridell e Maraqua para pressionar Jazan a retirar a maldição.
Pedirei a Jerdana para convocar uma reunião emergencial com todos os membros do Conselho. Sei que está afastado e Selene ainda precisa ficar escondida, mas creio que a presença de vocês seja fundamental para que possamos elaborar a melhor abordagem possível quanto a essa situação.
Até breve,
Torakor.”
Selene levantou os olhos fundos de olheiras da carta para o rosto de Altador, sem demonstrar qualquer expressão. Recostada na porta, suas pálpebras pesavam como bigornas e ela tinha poucas forças para sustentá-las.
Três dias pesquisando e esboçando ideias de como usar magia para moldar o comportamento instintivo de uma pessoa. Três dias tendo pesadelos nos quais alternavam entre não conseguir se mexer ou estar perdida no fundo do mar. Três dias de três batidas por dia na porta e o mesmo Altador tentando puxar conversa após lhe entregar uma refeição. Três dias de medo, fuga e exaustão. Ela mal conseguia raciocinar, mal conseguia se manter de pé…
“Sell?”, o homem a segurou pelos ombros para não cair. Acordou no susto e se afastou por instinto, a adrenalina do toque a despertando apenas temporariamente.
“Me avisa quando a hora e o local tiverem sido esculpidos… digo, escolhidos.” Ela se corrigiu, soltando um bocejo. Já ia fechar a porta do laboratório novamente quando Altador a impediu, como sempre fazia.
“Você não parece bem…”, ele a encarava com um olhar de súplica. “Podemos conversar, por favor?”
Ele não iria parar de insistir e ela não tinha mais forças para fugir.
“Altador”, ela fechou os olhos e franziu o cenho. “Você gosta de mim de verdade?”
“Como assim?”, ele parecia confuso. “É claro que gosto! Eu te amo! Eu estou me esforçando para cumprir minha promessa de demonstrar meu amor por você mais claramente.”
“Sim, mas”, ela fixou o olhar no chão. “Não tem nenhuma parte sua que gostaria que eu fosse… diferente?”
O homem virou a cabeça para o lado, retesando os músculos.
“Onde você quer chegar com essa pergunta?”
A evasão dele fez o coração dela congelar.
“Jerdana me contou sobre uma caixinha que você nunca me entregou.”, não havia mais porquê esconder nada dele. “Eu a encontrei.”
“E qual a sua resposta?”, ele estava sério
“Eu… vou dar o máximo de mim para que aquilo não aconteça.”
A expressão do homem ficou indecifrável por um momento, até que ele abriu um sorriso encabulado.
“É, claro, agora faz sentido o porquê de você estar me evitando.”, ele passou a mão pelo cabelo, bufando. “Desculpe pelo que você descobriu, no fundo eu sabia que era um absurdo, mas me deixei seduzir pela ideia. Eu só… nunca tive forças para contar pra você.”
Com aquelas últimas palavras, Altador fechou a porta, deixando Selene com seu próprio caos interno. Suas suspeitas foram confirmadas: ele realmente quis petrificá-la para destruir sua estátua em algum momento.
E não havia garantia de que a ideia não fosse seduzí-lo novamente no futuro.
Seu feitiço era sua última esperança de um futuro seguro.