“Minha querida amiga Jerdana,
Como você deve ter visto nas três últimas edições dos jornais da cidade, a repercussão do acidente que atingiu Kreludor está violentamente hostil. Sinto que meu discurso na manhã seguinte ao acontecimento explicando o que aconteceu de nada serviu se não para fomentar a conspiração de que estou enfeitiçado pela ‘Fada Tenebrosa’ e cada dia mais o movimento que apoia a invasão do são do Conselho para me libertar e aprisioná-la novamente ganha força. Os cidadãos estão acreditando que nossa amiga está me usando para controlar a cidade secretamente e não sei mais o que posso falar para fazê-los mudarem de ideia.
Por isso, decidi me afastar do Conselho temporariamente. Prefiro não dizê-la onde estou, mas estarei bem e garantirei que Selene também estará. Diga a eles que estou afastado por questões de segurança e que serei colocado em quarentena como fazíamos com enfeitiçados quando Selene estava contra nós e que ela está sob sua observação. Confio em você para tomar as decisões importantes para a cidade por um tempo. Desculpe-me por isso, mas creio que é a alternativa mais segura. Mas não ficaremos sem nos ver por muito tempo, voltarei para visitá-la em breve.
Obrigado
Altador“
O homem deixou a carta com sua amiga feiticeira em sua última visita à sua casa na zona rural ao sul da cidade, longe o suficiente de outras casas para não precisar de um disfarce, para pegar um novo colchão que pedira para ela fazer. Era macio ao toque, diferente dos que usou por anos e anos. Este era o último elemento de mobília que precisava para tornar sua casa “habitável”, segundo Selene.
Os dois passaram quase toda a noite anterior redecorando o lar de Altador com os itens do seu quarto de tesouros, como Selene o havia convencido. No final da madrugada, o quarto continha apenas poeira e o resto da casa estava realmente parecendo uma casa de verdade, ele tinha que admitir.
Adicionalmente, o ódio que Selene demonstrou pelo colchão de palha em que ele deixou ela dormir enquanto ele passou as poucas horas de escuridão antes do sol nascer na nunca usada poltrona que ganhou de presente da Rainha das fadas Fyora o convenceu a procurar por outro o mais rápido possível e logo pensou em Jerdana.
A técnica de costura manual com magia da mulher era eficiente a ponto de permiti-la produzir qualquer coisa feita de tecido em poucas horas. Mal o sol tinha nascido e ele desceu até sua vizinhança para fazer-lhe o pedido. Comeu bolinhos de nozes que sua esposa Fauna preparou e brincou com os animais de sua fazenda, principalmente com os cachorros, enquanto esperava a peça ficar pronta.
Saiu de lá carregando o colchão nas costas com uma mão e uma cesta com frutas, pão, suco e, claro, ambrosia com a outra, dando uma volta maior até chegar em casa para que nenhuma delas suspeitasse que vivia logo acima delas.
Pelos próximos dias, ele voltaria para buscar mais cestas, que ficariam maiores e mais pesadas com o tempo, ao contrário de seu semblante, que ficaria mais leve a cada visita.
____
Altador sentia-se vivendo um sonho idílico em um pequeno diorama. Um mês se passou desde que Selene aceitou ficar mais um tempo em sua casa, o qual a convidou para morar com ele depois de duas semanas de estadia. As manhãs eram cheias de comida fresca e as tardes repletas de conversa jogada fora sobre boas memórias do passado ou futilidades do dia a dia. À noite, Altador limpava a casa e depois se jogava no colchão antigo, agora no chão, enquanto Selene dormia no novo colchão na cama.
A presença dela era estranhamente confortável, especialmente depois de tantas noites que ele passou acordado pensando em como reagiria se um dia ela retornasse uma quarta vez. Rotas de fuga, estratégias de batalha, códigos de alerta… E agora ali estava ela toda noite, dormindo na cama a seu lado com um braço jogado para fora e as asas enroladas em si mesma por cima de uma coberta felpuda também feita por Jerdana.
Estava ali, todo dia, comendo uvas frescas ou pão com ambrosia na mesma mesa a que ele. Toda tarde reclamando de coisas pequenas, mostrando seu progresso em se refamiliarizar com a própria magia, dando sugestões de decoração, dançando sozinha no silêncio de uma música que tocava apenas em sua mente, contando e ouvindo histórias até ambos pegarem no sono para no outro dia recomeçarem tudo, mas ainda assim de um jeito que cada dia se fazia único.
Ele sentia, finalmente, a cicatriz da Grande Traição começando a realmente se fechar. O laço entre eles, há mais de 1000 anos destruído, se refazia surpreendentemente rápido, com sentimentos familiares de carinho e ternura florescendo de novas formas e maneiras. Eram dois amigos que haviam se tornado estranhos um para o outro e agora estavam se conhecendo novamente.
Mas Altador sentia medo da familiaridade que reconhecia no meio daquela reconexão: aquele encanto, aquele conforto, o desejo de estar perto dela, a admiração no jeito que ela fazia absolutamente qualquer coisa…
Sabia que estava sendo egoísta em se deixar sentir aqueles sentimentos, mas qual era a alternativa? Afastar-se dela novamente para o bem da cidade? As consequências foram terríveis da última vez que tentou.
Mas ele estava comprometido a fazer diferente desta vez.
“Antes de um rei, você é uma pessoa!”, as palavras dela ressoavam em sua mente. Era tão fácil esquecer se disso quando qualquer falha sua poderia custar toda Neopia…
No entanto, a leveza que sentia sob seus ombros durante o último mês não o deixava mentir: ser lembrado de sua humanidade foi a melhor coisa que lhe aconteceu nos últimos mil anos, talvez até mais!
Bom... a segunda melhor.
A melhor estava dormindo na cama ao lado.
_____
Selene espreguiçou-se ao acordar mais uma manhã em sua nova casa, sua asa esquerda se comprimindo na parede. Eles precisavam encaixar esta cama de outra forma no quebra-cabeça da mobília do quarto, antes com apenas um armário, uma mesa e uma cadeira além da cama, agora contava com um segundo armário, duas poltronas, uma cômoda, um candelabro, um alaúde, um enorme espelho de prata e um busto de Altador que estavam guardados no quarto que agora servia de laboratório para Selene testar feitiços e poções, além do velho colchão de Altador, agora no chão, que bloqueava a saída do quarto à noite, o que tornava idas ao banheiro noturnas extremamente inconvenientes.
Ela não queria tocar no assunto redecoração do quarto com Altador porque ele provavelmente iria argumentar contra a presença de seu busto no quarto, que foi o único lugar que sobrou para colocá-lo. Deixá-lo no laboratório era perigoso, não havia espaço na cozinha ou no corredor, seria muito desconfortável colocá-lo no banheiro e revelaria o dono da casa se só fosse posto no quintal. Ele se negava a colocá-lo na sala por alegar possuir um busto de si próprio no centro da casa ser ‘de um egocentrismo vergonhoso’. Nenhum dos dois queria se livrar dele por ser um belo trabalho de arte, além de ter sido um presente, então o mantinham junto do espelho em um canto do quarto no qual Altador não ousava se aproximar.
Quadros, enfeites e itens colecionáveis agora coloriam todos os cômodos. As pilhas de livro, que continham uma quantidade formidável de trabalhos sobre magia, foram devidamente organizadas em prateleiras e em estantes dentro do laboratório e agora davam suporte para os estudos de Selene. A pequena dispensa ganhou uma mesa, toalhas e uma caixa de metal para armazenar comida congelada sem precisar de poções de gelo. Até o banheiro agora tinha um espelho de mão!
Apesar de Altador ainda ser obcecado em se ‘manter humilde para enxergar os melhores caminhos a seguir’, segundo suas próprias palavras, preencher a casa com a mobília guardada fez o ambiente ficar muito mais agradável, a solidão que antes pairava nas paredes e cômodos vazios existindo apenas na lembrança.
Selene ainda suspirava de alívio toda vez que abria os olhos.
Geralmente quando acordava, voltava logo a dormir mais um pouco, mas um cheiro de canela invadiu o quarto e fez seu estômago roncar. Sentou-se depressa na cama, colocando os pés no colchão de palha vazio ao seu lado, levantando-o de modo a apoiá-lo na parede oposta para liberar a passagem para a porta. Ela sequer trocou de roupa, passando pelas armas e armaduras no corredor e descendo as escadas vestindo seu novo pijama.
Na sala, a delicada porcelana de Shenkuu em uma prateleira recém colocada acima de uma mesa de mogno já cheia de frutas a saudou enquanto ela se sentava em uma das seis cadeiras estofadas disponíveis, apoiando-se nos cotovelos e se esticando para frente para ter uma melhor visão da dispensa.
Lá ela viu Altador retirando vinho aromatizado fervente da panela no fogão a lenha e dividindo o conteúdo em dois cálices e trazendo-os para a mesa junto de um prato com pão, queijo e uma cumbuca com mel apoiados em seu antebraço.
Ele estremeceu e quase derrubou a comida quando a viu já sentada na mesa.
“Por Fyora, Selene, que susto”, ele respirou fundo.
“Bom dia pra você também, Altador”, ela deu um sorriso travesso. “Estou vendo que finalmente repôs o estoque de canela!”
“Sim, Jerdana lembrou de incluir na cesta de hoje”, ele pôs o prato, a cumbuca e os cálices na toalha vermelha sobre a mesa. “Bom saber que o cheiro de canela te acorda”.
“Use seu conhecimento contra mim e eu sumo com aquele seu colchão xexelento de vez”, ela ameaçou, pegando o cálice com vinho quente pela haste e provando cuidadosamente. “Nossa, isso aqui tá muito bom!”
“Suma com meu colchão e eu nunca mais vou fazer vinho com cravo e canela nesta casa”, o homem sentou-se ao seu lado, um sorriso suave em seu rosto.
“Eu mesma faço se você nunca mais fizer”, Selene pegou um pedaço de pão e molhou no vinho.
“Você não consegue nem fritar um ovo, querida”, Altador achou a ideia dela interessante e também embebeu pão no vinho. “Eu sei porque já vi muitas frigideiras e aventais pegarem fogo enquanto você tentava”
“Ah, mas eu estou perto de conseguir”, a fada pegou a cumbuca de mel e derramou um pouco em seu pedaço e ofereceu a Altador, que aceitou de bom grado. “Algumas receitas no livro de culinária de Skarl têm escrito um preparo via feitiço. Eu vou atingir minha independência gastronômica em breve e não há nada que você possa fazer.”
“Na verdade eu adoraria experimentar sua comida feita com magia”, Altador se deliciou com o pão com vinho e mel. “Você é criativa, só falta acertar na execução das suas ideias que nem você acabou de fazer. Isso aqui tá bom demais!”
Selene perdeu a compostura com o elogio sincero. Ele quebrava a brincadeira desse jeito com frequência, mas ainda era pega desprevenida mesmo depois de um mês. Talvez eles fossem mesmo amigos e ela não fosse apenas uma responsabilidade, afinal… Mas ainda era estranho ouvir coisas boas sobre ela saindo da boca de outras pessoas, especialmente das que machucou no passado.
“Obrigada”, ela disse em voz baixa, deixando seu pãozinho equilibrado na borda da taça. “Parecia uma boa combinação.”
Recentemente, estava pensando na possibilidade de que todo o bom tratamento dado pelos conselheiros a ela ter o objetivo de amansá-la para controlá-la de alguma forma, mas conviver com Altador a levava crer que esses pensamentos era só paranóia. Em nenhum momento ele usou sua autoridade como rei para subjugá-la quando discordavam de algo, como imaginou que acabaria acontecendo eventualmente.
Incrivelmente, ele estava levando sua opinião em consideração e frequentemente dava uma chance às suas sugestões após um momento de reflexão. Foi assim com cada decisão de posicionamento de mobília, pelo menos, e agora com a ideia de cozinhar com magia, levando em consideração que Altador não gostava de abordar nenhuma tarefa manual com magia. Até mesmo na trabalhosa e demorada construção dos muros da cidade ela dizia que ‘uma pessoa valoriza seu lar quando o constrói pedra sobre pedra’.
Ele estava, talvez pela primeira vez em muito tempo, se permitindo ser influenciado por ela. Se permitindo a conectar-se com ela de verdade novamente.
Devagar, a fada pegou o pão com vinho e mel entre os indicador e o polegar com cuidado e deu uma pequena mordida.
Estava, realmente, uma delícia.
“Por que você está fazendo isso agora?”, a fada das trevas perguntou sem olhar para o homem ao seu lado.
“Isso o quê?”, ele virou-se para ela enquanto colocava mel em outro pão embebido em vinho.
“Me deixando no controle.”
As palavras dela ficaram suspensas por um tempo.
“Eu percebi”, ele quebrou o silêncio após tomar um pouco do vinho, “talvez um pouco tarde demais… que deixá-la comandar abre um universo de novas possibilidades. E o pior que eu posso fazer é continuar deixando esta porta fechada.”
Ela se virou para ele, irritada.
“Você só não quer que eu me revolte de-”
“Eu não quero te perder de novo”, ele a cortou, colocando a mão na sua. O olhar dele era dolorido, como se seu mundo todo fosse feito de vidro e estivesse prestes a se rachar.
“Me… perder?”, sua expressão se suavizou em confusão, sua mão livre movendo-se para o amuleto de sol e lua que ele lhe dera de presente e não havia tirado desde então.
“Sim, perder você”, ele entrelaçou seus dedos nos dela. “Eu acho que isso nunca ficou claro por eu nunca ter falado, mas a pior parte da sua traição foi o vazio que você deixou depois que se foi. Você foi uma ameaça por muito menos tempo do que foi a uma das melhores pessoas que eu já conheci. Eu reconheço que não dei nem o amor, nem o valor e nem a atenção que você merecia no passado e o quanto você sofreu por isso. Mas hoje eu quero fazer diferente para que você fique bem… E fique aqui. Comigo.”
O nariz da fada ficou enrubescido e seus olhos marejaram. Ela os fechou, com raiva.
“Você fala como se eu tivesse sido uma vítima inocente nessa história”, uma lágrima escorreu, mas ela a secou rapidamente. “Existiam mil maneiras melhores que eu poderia ter agido, mas…”
“E quantas delas eu impedi de serem realizadas por não ter te dado voz quando você teve razão?”, ele a interrompeu.
“Mas você também tinha razão naqueles momentos!” Selene retrucou, fechando a cara novamente. “Você sempre tinha razão em todos os momentos.”
“E ainda assim foram as minhas decisões que a levaram ao limite.” ele encaixou a outra mão de leve no rosto dela. “E eu quero muito que possamos seguir por outro caminho.”
Selene pressionou sua bochecha contra a palma da mão do homem e suspirou, a raiva sumindo de seu rosto pela última vez.
“Nós já estamos seguindo”, ela disse, unindo sua outra mão com a que repousava em seu rosto. “Você é um bom amigo, sabia?”
Altador sorriu.
“Agora eu sei.”
Selene se desvencilhou de suas mãos e o abraçou com força. Altador retribuiu na mesma medida.
“Quando eu digo que te amo, não é só da boca pra fora, minha querida”, ele murmurou.
“Eu também te amo, seu brega”, ela sorriu em seu abraço. “Mas é sério, precisamos resolver o problema de espaço no quarto e seu colchão é o principal candidato a ir pro lixo.”
“E que tal nos livrarmos daquele meu busto?”
De novo isso.
“Bom, se isso te fizer feliz…”, a fada ponderou. “Talvez Jerdana e Fauna tenham um espaço na casa delas para dar um sumiço definitivo nele.”
Altador a abraçou com mais força ainda.
“Vou falar com ela amanhã de manhã!”
Monday, November 18, 2024
A Conversa
O Artefato
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