Friday, September 20, 2024

O Banquete

 “Eu entendo que ele estava fazendo um discurso de ódio, mas acho que você exagerou com o lance da cadeira”, Torakor comentou com Selene enquanto equilibrava uma bandeja com uma jarra de néctar de uva, doze pratos de prata e sete taças de cristal de um conjunto de doze em uma mão e carregava as outras cinco na outra. “Você podia ter me alertado, meus guardas o levariam sob custódia”.

“Mas assim eu não teria dado uma cadeirada nele”, Selene respondeu, simples enquanto chegavam no jardim prédio do Conselho, onde aconteceria uma celebração dos heróis pelo retorno da fada dali a algumas horas.. “E esse maldito anel começa a me drenar toda vez que sinto raiva, era ele ou eu.”

“Eu acho que foi merecida”, Kelland aprovou, colocando uma toalha branca com bordas detalhadas em dourado na longa mesa abaixo de uma cobertura de mármore no centro do jardim. “Ele está vivo e espero que não tenha mais coragem de ir na ágora incitar uma invasão ao Conselho novamente”

“Está tentando se fazer de vítima”, Fauna colocou o pão e a ambrosia na mesa com desgosto. “Ouvi da lojista da loja de animais que ele disse que quebrou uma costela e precisará ficar internado um mês para se recuperar.”

“Mas Chias nem têm costelas!”, Kelland rugiu. “Quem vai acreditar nisso?”

“Tem maluco pra tudo”, Torakor colocou a louça em cima da toalha mexendo a cabeça para os lados.

“Não importa se alguém vai acreditar ou não. Todo mundo aqui me odeia mesmo”, Selene bufou, sentando-se em uma das cadeiras e se servindo do pão com ambrosia. “Minhas estrelas, como eu senti falta da ambrosia da Psellia.”

“Fiz com pouco cravo e bastante canela, como você gosta”, a fada do ar desceu do alto da cobertura ao ouvir o elogio, surpreendendo a fada das trevas. “Mas você poderia deixar para aproveitá-la quando já estivéssemos todos aqui.”

“Mas a festa é pra mim!” Selene choramingou, abraçando defensivamente o pote de ambrosia. “Eu mal consigo usar minha magia direito por causa do anel, por favor, me deixa ter pelo menos isso!...”

“A celebração é em seu nome, sim, mas a intenção é que todos aproveitem o evento”, Psellia disse com a mesma delicadeza que tirou o vidro dos braços da outra fada e o colocou de volta na mesa. Selene se limitou a extravasar sua insatisfação cruzando os braços e franzindo os lábios.

Torakor e Fauna riram discretamente e saíram para pegar os demais componentes da mesa.

“Mas olha”, Kelland sentou-se ao lado dela colocando o jornal do dia na mesa com a página 13 voltada para cima. “Nem todo mundo te odeia.”

Incrédula, Selene se esticou e leu o título da matéria: ‘Moradores de cidades satélites e bairros periféricos concordam que a volta de Fada Tenebrosa é um avanço nas políticas do Conselho’. Aquelas palavras despertaram sua curiosidade e ela pegou o jornal para continuar lendo.

A matéria relatava uma manifestação de apoio ao seu retorno feita por quem o autor chamou de ‘periféricos e forasteiros', os quais ou eram membros da guilda dos ladrões ou diziam ser fazendeiros autônomos e refugiados que não conseguiram acolhimento na cidade.

“Desde quando Altador tem uma periferia?”, perguntou a Kelland após o término da leitura.

O ex-ladrão ficou sério e sombrio, parecia estar medindo suas palavras antes de dizê-las mas Psellia imediatamente tomou a palavra.

“A população de Altador cresceu muito desde que Tor e Roberta nos libertaram” sua voz veio do alto. “Ainda mais após a queda do Mundo das Fadas. Não conseguimos integrar todos os imigrantes.”

“E por que não expandiram a cidade?!” Selene levantou ainda com o jornal na mão e saiu de baixo da cobertura para responder a Psellia diretamente. “Construímos isso aqui com muito menos gente do que temos hoje!”

Foi então que viu Psellia decorando o telhado branco da estrutura com panos de seda azul-arroxeada e buquês de rosas vermelhas e amarelas. Selene foi pega desprevenida e o avassalador aperto no peito tomou as rédeas do momento.

Até agora não havia entendido o porquê da amiga estar flutuando acima deles, mas sabia que Psellia gostava de ficar em lugares altos, então não questionou. Mas ela não esperava esse nível de esmero por parte dela com a celebração.

“Nós tentamos, mas… a situação é um tanto complexa”, só então percebeu a emoção de Selene com a decoração. “Ah, você gostou? Espero ter acertado na cor da seda, sua cor de pele é um tanto difícil de acertar no tingimento.”

“Eu adorei, Lia”, resgatou o antigo apelido, lisonjeada e com os grandes olhos vermelhos brilhando. “Eu achei que só comemoraríamos com comida, não estava esperando uma festa completa!”

“A ideia era essa, mas eu quero que esse momento seja especial”, uma rosa e abriu um sorriso caloroso para a amiga. “Você merece, Selene.”

A fada das trevas retribuiu desajeitadamente o sorriso.

“Acho que vou ter que me acostumar com essas demonstrações de afeto espontâneas. É estranho pra mim, é… meloso… mas eu gosto”, confessou, encabulada.

“Como Altador disse, nós aprendemos com nossos erros e estamos comprometidos a nunca mais repeti-los”, acrescentou Kelland, grato pela mudança de assunto e, aproveitando o momento, tirou do bolso do casaco uma pequena caixa azul amarrada com uma fita vermelha. “Toma. Minha demonstração de afeto espontânea e melosa. E não se preocupe em desamarrar o laço, é só enfeite.”

Como uma criança em noite de Natal, Selene pegou a caixinha e abriu a tampa como se fosse um baú de tesouro cheio de ouro. E o que viu lá dentro não era diferente disso.

Duas cascatas de luas douradas presas por correntes que culminavam em dois pequenos ganchos reluziam dentro da caixinha forrada com veludo. Boquiaberta, ela pegou os delicados brincos nas mãos. Eram leves como nuvens e pareciam ser de ouro legítimo, mas teria a mesma reação se fossem de latão pintados de amarelo brilhante.

“‘Selene’ é relativo a ‘Lua’, não é?”, Kelland se divertia ao ver a surpresa genuína da amiga. “Vi esses brincos na loja Armadura Ilustres. Acho que aumentam a sua agilidade ou algo assim. Não sei se tem efeitos em fadas, mas quando vi, lembrei de você. Então comprei.”

A fada das trevas pôs os brincos e usou um dos pratos de espelho. Balançou a cabeça, observando o movimento das luas penduradas em suas orelhas, mesmerizada.

“São tão leves! E tão bonitos!”, ela brincou com os brincos como um gato com um novelo de lã. Quando parou, pegou as mãos do amigo e agradeceu.

“Eu achei que o combinado era deixar os presentes para o final.” Altador chegou sussurrando com Torakor, Fauna e os demais heróis atrás dele, trazendo o resto do banquete em mãos.

“Surgiu uma oportunidade que eu não podia deixar passar”, o ex-ladrão respondeu em voz baixa fazendo um gesto discreto com o polegar para a retornante que voltou a rodar o pescoço com o prato na mão, distraída da conversa entre os dois. “Mas é melhor vocês entregarem os de vocês depois de comer, deve demorar um pouco até ela deixar de ficar entretida com meu presente.”

Altador balançou a cabeça, um pequeno sorriso escapulindo de seus lábios e prosseguiu até a mesa com os demais em seu encalço.

Logo o jardim estava repleto de comida: além do pão com ambrosia e do néctar de uva, os heróis trouxeram leite e queijo de cabra, azeitonas, figos, romãs, uvas, maçãs, laranjas e cereal. Sentaram-se à mesa e comeram até o último farelo de pão.

Depois de uma cesta repleta de risos e conversas, buscaram a segunda leva que consistia de salada com finas fatias de carne de porco, ensopado de peixe, ovos de ganso, ostras, néctar e uma variedade de hidroméis.

Ao final, pratos e garrafas vazias decoravam a toalha branca e dourada agora suja de restos de comida e bebida. O pandeiro de Sasha, o alaúde de Florin e a viola de Jerdana coloriam o jardim com música que os heróis revezavam para cantar e dançar.

“Eu não lembrava que você cantava, Selene!”, Marak disse com a voz macia. “Sua voz é muito bonita.”

“Ah, para”, a fada esticou o braço na direção dele e baixou a mão, sorrindo. “Mas você não lembra porque eu nunca cantei pra vocês. Até agora só a Vossa Majestade ali tinha me ouvido cantar.”

“E foi a minha maior honra”, Rei Altador a reverenciou. “Foi no dia que nos conhecemos, no banquete que os aldeões da minha cidade natal nos dedicaram por matar as bestas que nos atormentavam.”

“Selene só canta em banquetes?!”, Torakor soluçou. Gordos lhe empurrou uma taça de água pela segunda vez. “Temos que repetir a dose mais vezes, então! Quando é seu aniversário?”

As fadas presentes se entreolharam e explodiram em gargalhada.

“Nenhuma fada sabe há quanto tempo existe, quem dirá quando que começou a existir!” Siyana enxugou uma lágrima.

“Nós somos tão velhas quanto o próprio tempo, Tor!” Psellia tomou uma lugada de ar, ainda rindo.

“Mas se é pra fazer tudo isso ano que vem”, Selene levantou-se, ajeitou a postura limpou a garganta. “Pelos meus poderes de 12ª Conselheira de Altador, eu declaro oficialmente que hoje é meu aniversário!”

O jardim explodiu em aplausos e assobios. Selene fez uma reverência pomposa, ajeitando uma capa e uma coroa imaginárias.

“E bem na hora de você abrir seus presentes”, Fauna se levantou e pegou um saquinho de pano macio que tinha escondido embaixo da mesa quando chegou. “Espero que goste, foi um pouco difícil de encontrar.”

Os olhos da fada das trevas se arregalaram e um sorriso infantil surgiu em seu rosto corado por conta do hidromel. Ela pegou o pacote das mãos de Fauna e quase o arrebentou ao abrí-lo. Lá dentro estava uma boneca de pelúcia de aparência muito familiar.

“Existe uma Usuki minha???”, ela deu um gritinho. “Ela é perfeita! Obrigada, Fauna.”

A amiga sorriu e deu de ombros. Marak se aproximou com seu presente já em mãos.

“Aproveite!”, sorriu ao lhe entregar uma caixa azul enfeitada com pérolas.

“Conchas de chocolate triplo do restaurante Kelp!”, ela arfou, animada. “Eu sempre quis comer a comida de lá, mas nunca me deixaram entrar.”

“Vamos arrumar essa situação, amiga”, Marak baixou a mão para ela. “Mas por enquanto, fique com esta provinha.”

Selene agradeceu e pegou uma das conchas de chocolate branco e ao leite recheadas de chocolate amargo, mordendo metade. Ela fechou os olhos, deliciando-se com o sabor.

“É maravilhoso”, ela colocou a outra metade na boca e fechou a caixa para que ninguém ficasse tentado a querer provar também.

Os demais amigos se organizaram para presentear a retornante. Florin a entregou uma mistura de ervas secas que ele mesmo criou e cultivou alegando ser o melhor tempero que ela já comeria na vida. Sasha lhe deu um lindo caderno com temática astral ‘caso precisasse anotar seus pensamentos em um lugar privado’.

Siyana lhe fez um apanha-sonhos,  Psellia apareceu com mais um pote de ambrosia só para ela e Gordos lhe deu dinheiro para ‘deixá-la livre para comprar o que quisesse’. Torakor lhe deu uma camisa com a frase “Liberte a Fada Tenebrosa” acompanhado de uma carta relatando seus sentimentos e pensamentos que não conseguira expressar no dia de seu retorno, tendo como remetente ‘um amigo ex-vilão’ e ‘minha amiga ex-vilã’ como destinatário.
 
Selene secou algumas lágrimas e lhe deu um abraço forte quando terminou de lê-la.

“O melhor presente é ter você aqui de novo”, ele retribuiu o abraço. “E quero te ver com essa camisa!”

Depois do momento entre os dois, Jerdana se aproximou com um embrulho de linho cuidadosamente amarrado com uma fita de cetim.

“Sua volta me inspirou a criá-los”, ela comentou enquanto a fada desfazia o laço, revelando um elegante vestido branco cintilante de mangas longas e um sobretudo azul com detalhes em dourado. “E se desejar qualquer alteração, me avise.”

“Jerdana…” Selene estava maravilhada. “Eles são lindos. Ainda mais por terem sido feitos pelas suas mãos.”
A feiticeira sorriu e se afastou para que Altador pudesse entregar o último presente.

“Selene”, o homem tirou do pŕoprio pescoço um colar dourado cujo pingente era uma fusão da lua e do sol. “Meu presente para você é a minha confiança.”

A fada colocou os cabelos negros para frente para que o Rei pudesse fechar o acessório ao redor de seu pescoço e, assim que no lugar, o anel de rubis que a drenava e limitava sua magia brilhou e se partiu.

Selene sentiu o corpo estremecer enquanto examinava sua mão, agora livre do pequeno círculo que agora jazia quebrado na grama. Hesitantemente, ela invocou sua magia e sentiu, depois de mais de um milênio, a sensação familiar de seu poder, livre enfim de sua última corrente.

Segurou o pingente entre os dedos, sentindo a poderosa energia que irradiava dele.

“Fyora, a rainha das fadas, me deu para me proteger caso um dia você voltasse e tentasse dominar Altador novamente”, o rei explicou. “Ele direciona qualquer tipo de magia de volta para sua fonte.”

“E você guardou isso debaixo da sua barba por milênios?”, Selene fez cara de nojo.

“Não, eu o coloquei ontem à noite, quando você retornou”, ele coçou a cabeça. “Por favor, aceite-o como símbolo do recomeço da nossa amizade.”

“Eu agradeço sua confiança, Altador”, Selene o olhou com carinho. “De verdade.”

Altador a puxou para outro abraço e a girou, o que fez Selene soltar um grito esganado. Quando a pôs de volta no chão, ela lhe deu um leve tapa no braço e murmurou algo como ‘nunca mais faz isso’.

Os amigos permaneceram no jardim até o sol se esconder por entre as montanhas. Felizes e cansados, recolheram as sobras e desarrumaram a mesa, deixando apenas a decoração de Psellia no telhado pois se comprometeu a tirá-la quando as flores murchassem.

Alguns foram para casa, outros ficaram no dormitório do prédio do Conselho, como Selene. Foi para o mesmo quarto que dormira na noite anterior e jogou-se na cama ainda desarrumada, caindo rapidamente em um sono tranquilo.

O Artefato

 Nova nota 7 “Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvor...