Tuesday, September 24, 2024

A Última Noite de Lua Minguante

O sono tranquilo de Selene foi dilacerado com o baque de uma onda de energia. Abriu os olhos com o susto e sentiu o coração acelerar como se fosse explodir. Sentou-se na cama, respirando devagar e sentindo todo o corpo tremer como nunca tremeu na vida.

O quarto estava escuro, mas ela conseguia enxergar uma fraca luz entrando pela enorme janela ao lado da cama. Apoiando-se na cabeceira e depois no vitral, ela olhou para fora, vendo uma fina lua a pino no céu.

Entendendo o que estava acontecendo, a fada urrou de raiva. Que hora para festejar e ser liberta do anel, logo antes da noite em que sua magia fica mais forte.

Ela se sentia tão poderosa quanto uma deusa, a magia se remexendo dentro dela com afinco, querendo sair de qualquer forma. Outrora, aguardava estes dias com ardor. Sua raiva e ódio serviam tanto como amplificadores quanto como ferramentas de foco para esse poder, o que a tornava invencível. Mas nunca havia recebido tanta energia em toda sua existência e, sem esses sentimentos pulsando em seu coração, ela se transformara em uma bomba-relógio e sabia disso.

Precisava sair dali antes que a instabilidade a dominasse.

Sem tempo de sair do prédio da maneira convencional, ela abriu a janela com o máximo de controle e se atirou na noite.

O primeiro bater de suas asas estourou o vitral. Com os ouvidos zumbindo e voando para frente com a velocidade de um míssil, Selene olhava freneticamente para cima e para baixo à procura de algum lugar onde pudesse descarregar seu poder.

Sentia a magia irradiando ao seu redor, não havia tempo de sair dos limites da cidade e não conseguiria direcioná-la para nenhuma direção. Ela precisava se trancar ou se enterrar em algum lugar para explodir.

Se enterrar…

Selene virou à direita em direção à Tumba Inquieta, uma construção relativamente solitária que observava a cidade no topo de um dos inúmeros penhascos que cercavam a cidade com suas paredes brancas e telhado dourado.

Sobrevoou a única e humilde casinha construída nas proximidades da tumba, esperando muito que estivesse vazia e aterrissou o mais perto da enorme porta de mármore trancada por um pesado pedaço de madeira. O mesmo símbolo do pingente do colar que estava ao redor de seu pescoço estava gravado acima da porta.

Esperava que aquele feitiço desse conta.

Com um chute, ela quebrou a tranca e correu para dentro da tumba, fechando a porta com o peso de seu corpo.

Lá dentro, gritou.

A estrutura estremeceu.

Ela caiu de joelhos no chão, mas continuou gritando.

O interior da tumba esquentou e seus pulmões arderam com um cheiro de fumaça que não sabia de onde vinha, mas permaneceu gritando.

Só parou quando seu corpo perdeu todas as forças e colapsou no chão coberto de poeira e escombros dourados em chamas.

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Altador saltou da cama com o estrondo. Na confusão do sono, pensou que um raio tinha caído em seu telhado, mas então viu pela janela um enorme projétil de luz púrpura atravessando o céu em direção à lua.

Ainda de pijama, saiu de casa para averiguar melhor o acontecido quando sentiu cheiro de fogo. Foi então que viu a Tumba Inquieta sem teto e rodeada de uma fumaça preta.

Alarmado, Altador foi correndo em direção à construção.

Subindo das escadas também rachadas, abriu as portas com dificuldade e tossiu pelo cheiro de enxofre que o atingiu ao fazê-lo. O interior da tumba estava totalmente destruído, com pedaços de telhado chamuscados por todos os lados, fazendo seus olhos arderem.

Então seu sangue gelou.

Na sua frente, desacordada no chão e coberta de fuligem, estava Selene. Sem pensar duas vezes, ajoelhou-se e tomou-a nos braços, retirando a fuligem de seu rosto e colocando dois dedos em seu pescoço, esperando que ainda estivesse viva.

Respirou aliviado quando sentiu pulso. Era fraco, mas estava ali. Ela iria conseguir.

Carregando-a consigo, ele voltou para casa às pressas.

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A primeira visão de Selene foi um teto branco simples.

Ela estava deitada em cima de lençóis ásperos e finos. Seus olhos pesavam e sua visão alternou entre o teto branco e escuridão total algumas vezes.

Obrigou-se a sentar para permanecer consciente. Não havia cabeceira, mas a cama simples ficava encostada em uma parede também branca, a qual lhe serviu de encosto.

O quarto onde estava parecia uma versão mais simples do que estava usando no prédio do Conselho. Enquanto aquele era decorado com detalhes dourados no teto, na porta e nos rodapés, além de um lindo vitral na janela, este era apenas um quarto branco com uma porta de cor sólida, uma cama, um armário e um conjunto de mesa e cadeira.

Apesar de humilde, o quarto estava excepcionalmente arrumado, sem um grão de poeira nem no chão nem na janela à sua frente, com exceção da cama, que estava estranhamente imunda.

Foi quando olhou para suas próprias mãos e roupas encardidas, reconhecendo-se como a origem da sujeira e lembrando de onde estava antes de acordar ali.

Um calafrio percorreu sua espinha e ela imediatamente buscou por ferimentos em seu corpo, mas felizmente nada encontrou. Segurou seu amuleto de sol e lua, que também estava intacto, apesar de um pouco arranhado.

Então a porta se abriu, revelando um Altador com roupas de camponês sujas de fuligem portando uma xícara de chá, uma cambuca de água fumegante e uma toalha.

“Ah, graças à Fyora você acordou!”, suspirou com alívio genuíno. “Consegue se lembrar do que aconteceu?”

Selene sentiu-se incomumente encabulada ao vê-lo daquele jeito. Não sabia se era a imundice ou o estado de simplicidade que se apresentava, mas tinha a impressão de estar de alguma forma invadindo a privacidade do homem, apesar de sua postura calorosa e solícita.

“Erm…”, sua garganta estava seca, o que lhe provocou um acesso de tosse. Altador lhe ofereceu o chá, o qual bebericou antes de tentar falar novamente. “E…eu tive uma sobrecarga de energia e fui para a Tumba Inquieta explodir para não destruir a cidade.”

As sobrancelhas de Altador se arquearam e ele olhou para o céu através da janela.

“Sua sobrecarga tem alguma relação com a lua?”, Altador perguntou, virando-se para ela.

“Bom… Sim”, ela tomou mais um pouco de chá. “Como você sabe?”

Altador franziu o cenho, hesitante em prosseguir.

“Há uma cratera nova em Kreludor…” ele começou. “Causada por um raio de luz púrpura que parece ter vindo da Tumba.”

Selene quase deixou o chá cair em cima de si mesma.

“O feitiço…”, ela pensou alto. “Mandou a magia de volta para a fonte…”

“A fonte de seu poder é a lua?”, Altador ofereceu-lhe a cambuca com água e a toalha que ainda carregava. “Nós nunca… conseguimos falar muito sobre isso. Lembro de você ter me dito que ‘era complicado’, mas também prometeu que me explicaria um dia. ”

“E você quer que esse dia seja hoje?”, ela disse com um ar cansado, mergulhando a toalha na água morna. O homem deu um leve sorriso e assentiu.

A fada soltou um grunhido impaciente e pôs a toalha sobre o rosto.

“Muito bem, é melhor você sentar então”, sua voz soava abafada pela toalha.

Ouviu o arrastar de uma cadeira e tirou a toalha dos olhos para ver Altador sentado à sua frente com olhos brilhando de ansiedade. Não conseguiu reprimir um leve riso. Há muitos anos, quando se conheceram, o jovem Altador a olhava deste mesmo jeito toda vez que via a chance de vislumbrar um pouco da história ou de conhecimento feérico. Lavou-se rápida e superficialmente antes de começar a contar a história que ele esperou milênios para ouvir:

“Ninguém, nem mesmo as fadas, sabe o que faz uma de nós… surgir”, ela olhava nos olhos do amigo, repletos de curiosidade. “Mas todas nós sentimos uma conexão com um evento.”

“Evento?”, ele a interrompeu. “Não seria elemento?”

“Essa classificação que vocês dão a nós vem da categorização desses eventos em em elementos”, explicou. “Como os eventos ditam nossa aparência, geralmente funciona, mas nem sempre. É fácil agrupar todas as fadas sereias como fadas da água, por exemplo. Realmente, vieram de eventos relacionados à água, mas assim também foi com Taelia, que não é uma sereia. Assim, ela não é considerada uma ‘fada da água’ por vocês, mas a fada da neve. Ela não é especial por isso, só não encontrou lugar em um sistema simples de 6 categorias.”

“Então se o sistema fosse mais complexo, você poderia ser considerada uma ‘fada da lua’?”, Altador enganchou a pergunta.

“Eu definitivamente preferiria ser uma fada da lua à uma fada das trevas”, ela riu desgostosa. “Mas ainda assim seria impreciso.”

Ela pausou, esperando Altador reagir para continuar.

“Então qual é esse… evento conectado a você?”, ele indagou.

“É quando a última lua minguante do ciclo está a pino”, ela disse de um jeito um pouco dramático, sintetizando a imagem em sua mente ao máximo. “Eu me sinto mais forte nessas noites, mas hoje tive aquela sobrecarga, provavelmente porque o anel interrompeu a conexão por muito tempo.”

Altador assentiu, os olhos brilhantes se apagando e retornando ao seu habitual semblante sério, refletindo sobre a informação por um momento.

“Não sei como vamos explicar a situação para a mídia e para os habitantes de Kreludor…”, ele colocou a mão na testa. “Espero que ninguém tenha ficado ferido.”

Selene se entristeceu com a partida do amigo e com o retorno do ‘rei’, além de não querer pensar em que tipo de notícias e reações surgiram no dia seguinte.

“Mas voltando à história”, ela recomeçou, tentando trazê-lo de volta. “Nem toda repetição de evento dá mais poder à fada conectada a ele.”


Altador ainda carregava uma expressão preocupada no rosto, mas parecia estar escutando.

“Na verdade, nem todo evento sequer se repete!”, ela se preparou para colocar uma pulga atrás da orelha dele. “Já ouvi falar que a fada do espaço, Mira, tem uma ligação com o próprio big bang.”

 “Mas…” ele mordeu a isca, o rosto instantaneamente suavizando. “Como ela sabe?”

“Essa é a parte mais misteriosa”, ela sorriu, triunfante. “De alguma forma, nós temos a imagem do nosso evento gravada nas nossas memórias, junto com nossos nomes. Não sabemos o que ou quem faz isso, mas é algo que toda fada tem.”

Selene via a curiosidade de seu amigo sendo atiçada e querendo dominá-lo, mas Altador parecia resistir.

“Tudo isso é muito interessante, mas…”, ele suspirou. “Preciso pensar no que vou falar amanhã sobre o que aconteceu em Kreludor.”

Altador moveu-se para a porta.

O sorriso da fada murchou.

“Você realmente não pode deixar o amanhã pra amanhã só uma vez?” ela esticou uma mão, pedindo para que ele não fosse. “Faz tanto tempo que não te conto histórias sobre fadas e eu sei que você gosta de ouvi-las!”

Altador deu um sorriso triste, aproximando-se da fada e colocando uma mão em seu rosto ainda com resquícios de fuligem.

“Uma crise está sobre nós, minha querida”, ele disse com carinho, olhando fundo em seus olhos. “E eu preciso contê-la. Por você. Pelo Conselho. Pela nossa cidade.”

“Mas-”

“Você pode ficar pela noite, eu vou ficar no andar debaixo escrevendo”, ele preparou-se para sair. “Não temos muito tempo até o amanhecer. Tente dormir um pouco, tudo bem? Você tem que descansar.”

E assim a porta se fechou, com Altador do outro lado dela. Selene sentiu raiva pela postura do rei. Ela que deveria estar pensando no que dizer amanhã. Mas também sabia que não importava o que saísse de sua boca, tudo seria virado contra ela. Ainda assim, não era justo Altador ter que se sacrificar para amenizar um acidente que não foi ele quem causou.

Queria levantar e ir atrás dele, mas seu corpo voltou a pesar sem o ânimo da história. Em uma coisa ele tinha razão, ela precisava descansar.

Virou-se para o lado, tentando relaxar naquela cama áspera dentro daquele quarto inquietantemente vazio até a exaustão a fazer adormecer.

O Artefato

 Nova nota 7 “Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvor...