Thursday, September 12, 2024

A Volta

Portões fechados, guerreiros e arqueiros posicionados nos muros internos e externos. O toque de recolher foi acionado imediatamente. Lojas fecharam às pressas e famílias correram com seus filhos para casa, trancando as portas e janelas. Mesmo com o sol ainda longe do horizonte, a cidade estava silenciosa como se fosse tarde da noite, mas pronta para a guerra.


Todos sabiam os procedimentos: colocar em quarentena qualquer um que estivesse com a coloração dos olhos alterada e demonstrasse comportamentos anormais, principalmente se fossem destrutivos. Patrulhas de contenção estavam posicionadas em todas as esquinas, prontas para levar qualquer cidadão afetado pela magia maligna até que Ela fosse aprisionada novamente e suas vítimas voltassem a si mesmas.

A fada da luz Siyana finalizou uma última sobrevoada na cidade à procura da presença que lhe era tão dolorosamente familiar e pousou nas docas, onde seu amigo e capitão da marinha, Marak, já tinha em mãos o relatório de suas tropas.

“Algum sinal dela?”

“Nada nos mares até agora”, Marak olhava o papel que lhe fora entregue pela terceira vez. “Todos os mercadores foram revistados e avaliados. Nenhum sintoma de possessão ou porte de objeto com magia maliciosa, aparentemente.”

“E… a estátua dela?”, Siyana suspirou.

“Ainda desaparecida”, ele virou a página.

“E Altador?”

“Armada até os dentes”

“Não… Nosso Altador.”

“Ah!...”, Marak finalmente largou o relatório e olhou para os olhos angustiados da amiga. “Bom, ele está tão afetado quanto nós. Está mais quieto do que o normal, mas parece estar com a cabeça no lugar.”

A brisa marítima invadiu a conversa e a calou, o alarde da emergência de segurança pública suavemente dando lugar à dor da ferida nunca cicatrizada da perda de uma amiga. Da traição de uma criatura maligna que fingiu ser sua amiga, eles se corrigiam mentalmente em uma tentativa de amenizar e mobilizar a dor. Afinal, ela era uma fada das trevas. Maldade e fome de poder eram de sua natureza.

“Talvez ele ou algum dos outros tenham a encontrado.” Marak quebrou o silêncio. “Vem, vamos voltar para a Sala do Conselho.”

A fada assentiu e partiu com ele.



Uma Usul vestida com roupas ciganas vagava pelo Salão dos Heróis, observando as onze enormes estátuas de pedra acinzentada posicionadas em círculo. Sasha, a dançarina; Psellia, a Sonhadora; Fauna, a Colhedora… Seus olhos percorreram cada um daqueles rostos milenares eternizados em rocha até chegarem no pedestal vazio de quem um dia fora a 12ª heroína de Altador: A Fada Tenebrosa, a Dormente.  Uma fada das trevas sem nome cujo título era um epitáfio.

Mas era justo, era certo. A Fada Tenebrosa traiu o conselho, assumiu o poder e ainda tentou alterar a história da cidade para que ela fosse a única fundadora e rainha para que tivesse um povo que a adorasse como tal, mas isso resultou na cidade ser esquecida por 1000 anos.

Ela foi aprisionada como estátua, mas se libertou e quis descontar sua raiva no povo de Meridell que nada tinha a ver com a história. E no final ela acabou de novo como estátua, mas decorando o jardim de Fyora, a rainha das fadas, que caiu dos céus anos depois.

Então todas as fadas viraram estátuas e depois desviraram, junto com ela. Ela teve uma chance de só ficar quieta no canto dela, mas não foi isso que ela fez. Ela sequestrou uma fada e se passou por ela por meses. Por quê? Pra quê? Ser amada ao invés de temida pelo menos uma vez na vida? Mas uma fada das trevas não consegue resistir aos seus “instintos naturais” de ser má por muito tempo.

Claro que não, mas ela atirou no próprio pé. O anel de rubis que achou que lhe daria poder, no final estava drenando sua energia. Então, como a criatura maligna que era, tentou envenenar a todos com um gás tóxico em uma tentativa desesperada de sair por cima, como se a morte de inocentes fosse uma vitória, mas foi, felizmente, impedida pela fada rainha.

A Usul se aproximou e sentou-se no pedestal, ajeitando sua saia que tinha prendido em seu anel que não conseguia tirar. Ao seu lado estavam Torakor, o Gladiador e Marak, a Onda. Um piadista e um estóico separados agora por uma Usul solitária e triste.

Dali não conseguia ver Florin, o Fazendeiro ou Kelland, o Ladrão, mas sabia que estavam ali, naquele local sagrado, assim como Gordos, o Coletor e Siyana, a Primeira a Despertar. Eram excelentes exemplos, altruístas, alegres e gentis. Mesmo Kelland que outrora fora um ladrão e Gordos, que coletava impostos, eram bons por natureza. Nem mesmo as circunstâncias da vida conseguiram ofuscar a bondade natural que havia em seus corações.

À sua frente estava Jerdana, a Protetora e… a imagem de alguém que ela não tinha coragem de encarar. Seu último encontro com eles não tinha sido muito… agradável.

Ela não tinha sido muito agradável em seu último encontro. Com todos eles.
Não era da natureza dela.

Mas era por isso que estava ali. Iria finalmente acertar suas contas com os Heróis de Altador e aceitar pagar por todo horror e sofrimento que causou.

Mesmo que fosse com sua vida.

Não é como se ela fosse digna mesmo.


Rei Altador estava de pé olhando para a janela atrás de sua cadeira. Dez heróis, dez amigos se revezavam para falar sobre a mesma falta de informações sobre a localização da Fada Tenebrosa. Psellia, uma fada do ar, fora a única que reportou um avistamento feito de uma de suas nuvens a ele, que decretou a cidade em estado de sítio.

“Não estou duvidando de você, mas tem certeza de que era ela, Psellia?”, Kelland buscou certificar a informação.

“Sim, eu reconheci a aparência dela!”, Psellia confirmou. “Ela deve ter se disfarçado e está por aqui em algum lugar”

“Não senti a magia dela em lugar nenhum”, Siyana relatou. “E eu fiz quatro rotas por toda a cidade.”

“Sem sinal de envenenamento ou lacaios nas plantações também”, Florin adicionou.

“Não identificamos marinheiros que precisassem de quarentena ou artefatos suspeitos”, acrescentou Marak.

“Todos os lojistas e servidores públicos também não parecem afetados”, Gordos informou.

“Nada nas escolas ou nos parques”, Sasha comentou.

“Os animais estão bem”, Fauna disse.

“De qualquer forma, meus soldados estão à postos caso ela apareça”, Torakor bateu no peito.

“Os feiticeiros estão supridos de livros, poções e artefatos para quebrar qualquer feitiço”, Jerdana assegurou.

Mas Altador continuou calado, observando os últimos raios de sol sumirem no horizonte. Apesar da falta de notícias, sua intuição dizia que ela ainda estava na cidade. Ele a conhecia bem e sabia que cada passo seu tinha um objetivo.

Mas apesar de todas as defesas contra qualquer ataque dela terem sido tomadas, a ausência de tentativas em burlá-las o deixava aflito. Não era do feitio dela deixar obstáculos a impedirem. Algo não estava certo…

Altador se virou. A sala caiu em silêncio.

“Meus conselheiros…”, ele pôs uma das mãos no coração. “E queridos amigos. É minha responsabilidade que nossa cidade está em perigo.”

“Ora, mas claro que não…!”, Torakor começou a protestar, mas Jerdana o parou

“O que quer dizer com isso, Altador?”, ela perguntou, séria.

“Tenho uma confissão a fazer, heróis.”, o rei olhou para os pés. “Eu… encontrei a estátua Dela.”

Indagações e arfadas explodiram pela sala, criando uma cacofonia que fez Altador apertar os olhos.

“Mas eu não tive coragem… de… de…”

“Calma, calma”, Jerdana segurou seus braços e o ajudou a sentar. “Seu coração é bom, meu rei e amigo. Sua misericórdia mostra que sua índole é de luz, não que você é um covarde.”

“Não acho que nenhum de nós teria conseguido fazer isso de qualquer forma”, Kelland complementou.

“É difícil de admitir, mas…”, Gordos começou.

“Também sentimos a falta dela”, Sasha finalizou.

“Ela era uma boa amiga.” Psellia relembrou. “Sempre estava disposta a me ouvir quando eu precisava.”

“Ela ajudava com a colheita”, recordou Florin

“E com os animais noturnos”, adicionou Flora

“Ela fez as nossas constelações no céu”, Siyana ficou com a voz embargada.

“Ela ria das minhas piadas”, Torakor se entristeceu.

“E ela era minha melhor amiga. Mas ainda assim tudo o que restou do seu legado foi o medo do seu retorno”, Altador disse, sombrio. “E eu me sinto responsável por não ter livrado Neopia desse medo quando tive a chance.”

Uma atmosfera sombria se formou.

“Nós realmente precisamos aceitar o que ela merece, não é mesmo?”, Siyana murmurou.

Relutantes, mas resignados, os heróis assentiram.

“Eu… darei a ordem de execução para os guardas caso a encontrem”, a voz de Torakor tremia um pouco.

“Muito bem”, Altador estava com os cotovelos nos joelhos e as mãos na cabeça e não olhou para ninguém quando continuou. “Não temos mais o que discutir aqui.”

Lentamente, os heróis começaram a se levantar para sair, quando ouviram uma batida na porta.

Todos congelaram onde estavam. Todos que trabalhavam no prédio foram dispensados e levados até em casa para cuidarem de suas famílias.
Depois de alguns segundos que pareciam uma eternidade, Psellia, que estava mais perto, andou vagarosamente até a porta e se deparou um uma Usul que nunca havia visto antes.

O olhar das duas se encontrou e Psellia soube quem ela era na verdade.

A fada arfou alarmada, mas antes que fazer qualquer coisa, a Usul a cortou:

“Eu vim me entregar.”

Confusa, Psellia largou a maçaneta e saiu da frente da porta devagar, revelando a figura da Usul para os demais conselheiros que já estavam de saída.

Era loira, tinha olhos castanhos e vestia roupas muito parecidas com as de Jerdana, coloridas e vibrantes, o que não era usual para a Traidora, nem mesmo em disfarces. Mas o mais estranho era sua postura cabisbaixa e derrotada. A Traidora era orgulhosa e nunca se mostrava vulnerável como aquela Usul estava fazendo.

Mas todos eles sabiam que era ela. Não tinha como não ser.

“Ela veio se entregar”, Psellia repetiu.

A Usul então se envolveu em uma fumaça escura e revelou sua verdadeira forma: pele azulada, olhos vermelhos com fundo amarelado, cabelos pretos com mechas e asas pontiagudas. E ali estava ela, a Fada Tenebrosa, em carne e osso, ajoelhada e olhando para o chão de frente para o conselho que traiu há mais de um milênio.

“Podem fazer o que quiserem comigo, estou pronta para encarar qualquer punição que acharem justa para mim.”

Ninguém disse uma palavra. Nunca tinham-na visto assim. Ainda poderia ser um truque, mas mesmo que fosse, seria um muito diferente dos que ela costumava armar. Ela se escondia atrás de identidades falsas, não se revelava e se deixava à mercê da vontade dos outros.

As sobrancelhas de Siyana se levantaram ao perceber que mesmo na sua frente, a fada da luz não conseguia sentir a assinatura mágica maligna da outra. Trocou olhares com os demais, sacudindo a cabeça, confirmando que não havia truques na rendição da Traidora.

Ainda assim, ninguém se mexeu para fazer nada até Sasha tomar a frente e se ajoelhar de frente à fada das trevas.

“Eu…nós…primeiro gostaríamos de saber por quê.”

“Porque de quê?”, a fada cuspiu ainda com a cabeça baixa.

“...Disso”, ela apontou para a fada em postura de submissão. “E de… todo o resto.”

Os outros esperaram pacientemente pela resposta da ex-conselheira e heroína de Altador.

“Eu sou má”, ela respondeu, seca. “É o que eu sou, é a minha natureza. Eu sou egoísta e perigosa. Eu destruo, magoo e tento matar as pessoas, é isso o que eu faço e é isso o que eu sou.”

“Mas… nunca quis machucar ou dominar ninguém, muito menos vocês”, ela soltou soltou uma risada nervosa. “Vocês eram meus amigos, a minha família… Mas não importava o que eu fizesse, eu não merecia ter um lugar entre vocês. Todos os cidadãos tinham medo de mim. Eu tentava comungar com eles, mas sentia a tensão que eles tinham comigo. Tentei ajudar nas tarefas, tentei me divertir junto deles, mas eu sabia que a minha presença estragava o clima, estragava o conforto.”

“Vocês eram adorados, eu era temida. Vocês eram os Heróis, eu era aquela que um dia trairia todos e tomaria o poder pra mim. Ou vocês acham que eu não ouvia o que o povo falava nas ruas? Se eu nunca fui digna de amor, então pra quê ficar tentando recebê-lo? Era melhor admitir que eu nasci pra ser temida ou ficar sozinha. Então eu o fiz. Eu fui a fada das trevas que eles acreditavam que eu era. Eu fui a pior fada das trevas que já existiu e eu fiquei realmente feliz em desistir da expectativa de ser amada. Assim não precisava mais da pena de vocês.”

Os conselheiros trocaram olhares surpresos e entristecidos, mas deixaram-na continuar.

“Mas depois de muito tempo eu descobri que ser temida é solitário. Eu perdi milênios da minha vida tentando em vão provar que eu tenho algum valor e passei mais um como estátua quando reconheci que não tinha. Então eu vim me entregar. Eu fiz coisas horríveis e injustificáveis das quais mereço ser punida, mas duvido que meu melhor castigo seja uma sessão de terapia, então se puderem agilizar minha prisão, tortura ou execução, eu agradeceria.”

Todos olhavam para ela, impactados com o discurso.

“Você… acha que merece morrer?”, Sasha perguntou, visivelmente abalada.

“Meu legado é medo”, ela olhou no fundo dos olhos dela com os olhos marejados, mas determinada. “Como eu mereço viver?”

Altador sentiu seu coração se quebrar em mil pedaços. Um milhão de pensamentos passaram por sua cabeça, o sentimento de culpa consumindo-o por dentro, mas não conseguiu falar ou mesmo se mexer.

Sasha segurou as mãos geladas da fada das trevas que acabara de colocar milênios de sofrimento em palavras e cuja face agora se contorcia para deixar lágrimas pesadas e antigas finalmente escorrerem.

Psellia aproximou-se e a abraçou desajeitadamente.

“Há milênios você esteve comigo quando eu precisei”, ela também chorava. “Desculpe só conseguir retribuir seu ato empático tão tarde. Eu deveria ter perguntado se você precisava de mim também.”

A fada das trevas se surpreendeu com o abraço e hesitantemente o aceitou. Gritos se juntaram às lágrimas.

Siyana não aguentou mais e correu para abraçá-la também. Psellia se afastou para que a fada da luz conseguisse envolvê-la.

“Eu me esforcei tanto pra me convencer que você era má pra ficar com raiva de você e não sentir saudades de você, mas…”, ela a abraçou mais forte. “Mas eu sinto o carinho que você colocou nas estrelas toda noite. Eu ignorei a luz que você colocou no mundo porque era muito difícil para mim lidar com a dor da sua traição, sim, mas também da sua ausência. Eu poderia ter tentado te alcançar, mas não o fiz, por isso, peço perdão.”

“Eu… não… preciso de pena…”, a fada de nome esquecido respondeu com dificuldade.

“Nós não temos pena de você!”, Sasha gritou e se jogou no colo dela. “Nós sentimos saudades de você! Você era a alegria das minhas festas e elas nunca mais foram as mesmas desde que você foi petrificada! Eu não quero que você sofra, muito menos morra! Eu só quero que você seja feliz com a gente!”

“Mas… mas e tudo o que eu fiz?!”, a criminosa estava emocionada, porém confusa. “Os sequestros, as possessões, a destruição de reinos?”

“Eu acho que você já sofreu punição o suficiente, minha querida”, disse Kelland estendendo uma mão, a qual ela aceitou.

“Punições existem na tentativa de fazer as pessoas reconhecerem seus erros e não os perpetuarem mais”, Gordos deu um passo na direção dela. “Você sofreu enquanto inocente e enquanto culpada, mas isto apenas a levou ao colapso, não ao aprendizado. Acho que o melhor para você e para todos ao seu redor é você voltar para casa, que é aqui conosco. Se você aceitar, é claro.”

Agora de pé, a fada que outrora fora rejeitada que puxou o ex-coletor de impostos para um abraço.

“Obrigada, Gordos”

“Eu já estive em um lugar parecido quando acreditei nas pessoas erradas e causei pobreza e fome na minha cidade natal, conheço a sua dor”

“Ei, eu também!” Kelland protestou. “Não ganho abraço?”

A fada das trevas deu uma risada genuína, a primeira em milênios, e foi abraçar o ex-ladrão.

Enquanto os laços entre os três eram restaurados, Marak chegou um pouco mais perto do grupo vagarosamente.

“Eu…” Gordos e Kelland deram espaço a eles quando o capitão começou. “Eu ia à Maraqua em segredo para me certificar de que a sua estátua estava bem. Não confiava em ninguém para revelar sua localização, então eu ia sozinho…” A voz do estóico Marak começou a falhar. “Fiquei desesperado quando soube que você sumiu...”

O capitão segurou suas mãos.

“O que eu quero dizer é que… Estou muito aliviado de você estar aqui. Viva.” disse com lágrimas nos olhos. “Eu também não quero que você morra. Eu quero que você fique bem. Eu quero que você volte a ser você porque… a Fada Tenebrosa não é você.”

As palavras de Marak a pegaram de surpresa e o choro retornou.
Porque ele tinha razão.

Os heróis, percebendo a recaída, se aproximaram mais dela, oferecendo abraços e palavras de carinho, exceto Altador, que tinha retornado à janela e escondia seu rosto choroso dos amigos.

“Eu… eu não sei quem eu sou além dela…” ela olhava a esmo pelo ambiente. “Assumi a fada Tenebrosa como ‘face verdadeira’ mas… ela era só uma mentira que eu queria muito que fosse verdade.”

“Mas ainda bem que ela não é!” Fauna exclamou. “Você agora pode escolher quem você quer ser daqui pra frente!”

A fada olhou para Jerdana, que estava com a atenção dividia entre ela e Altador, mas quando fez contato visual com a fada, estendeu sua mão a ela.

“Eu gostaria muito de ser você… Jerdana”, admitiu um pouco à contragosto. “...Eu invejo você Jerdana. Você é talentosa, corajosa e inspiradora. As pessoas gostam e confiam em você com tanta facilidade. Você espalha alegria e vida por onde você passa, basicamente o contrário de mim… Ou melhor, da Fada Tenebrosa. Mas ainda assim, ser como você parece inalcançável para alguém como eu. Eu tive raiva de você pela inveja que você me causava. Me desculpe por tudo o que fiz, ou melhor, tentei fazer a você. Você nunca mereceu nada daquilo.”

Jerdana estava perplexa com a revelação. Ela já havia percebido em alguns momentos que a fada fora mais cruel com ela do que com outras vítimas, mas não imaginava que a motivação por trás disso pudesse ser inveja dentro todas as possibilidades.


“Minha querida…”, ela começou, mas não sabia o que dizer. “Nenhum mal foi causado apesar de suas intenções vis. No entanto, não precisamos ser inimigas por causa do que desperto em você. Se é inveja que você sente de mim, penso que então no fundo somos muito parecidas, pois este é um sinal de reconhecimento do seu próprio cerne.”

“No entanto, a sua luz foi impedida de brilhar assim como a minha um dia fora, mas meu clã me ajudou a persistir acreditando em quem eu era até encontrar meu lugar, que é aqui. Eu assumo a responsabilidade de não ter feito o que meu clã me ensinou que era correto e também peço pelo seu perdão por te abandonar nesta situação tão vulnerável.”

As duas apertaram as mãos e depois se abraçaram.

“Não vou deixar que ninguém mais fale mal livremente de você” a feiticeira cigana a assegurou “Agora temos toda a consciência do grande mal que essa intolerância pode causar se tratada como se fosse se resolver sozinha eventualmente, como achávamos no passado.”

“Fui eu quem deixou os boatos correrem”, Altador finalmente se pronunciou, embora ainda estivesse virado para a janela. “Eu disse que os cidadãos a veriam por quem realmente era com o tempo e a convivência, mas isso só te causou dor. Eu fui um péssimo amigo para você.”

“Eu achei que você tivesse medo de mim assim como eles.” a fada cruzou os braços e virou o rosto. “E depois que se tornasse rei, iria me expulsar para que seu conselho não estivesse sob a ameaça que eles diziam que eu representava.”

Altador se virou, profundamente magoado com as palavras da recém retornada.

“Eu nunca tive medo de você!”, ele disse por impulso, mas então pensou nas palavras que disse antes da fada aparecer. “Mas eu priorizei os cidadãos, não você. Você criou um vazio no meu coração que me corrói há mais de 1000 anos, mas eu precisava cuidar da cidade.”

Ele pausou para refletir.

“Mas eu realmente te abandonei quando me tornei rei. Meu julgamento foi ofuscado pela ideia de que todas as minhas decisões precisavam ser o melhor para a cidade, o melhor para Neopia. Mas caralho, eu cogitei matar você para preservar essas pessoas. Logo você que salvou a minha vida. Você que foi minha confidente e braço direito por milênios. Você que precisou do meu apoio e eu não estava lá. Eu estava com aqueles que a rejeitaram-”

“Não se culpe por tudo, eu também não pedi ajuda, Altador”, a retornante o interrompeu. “Estava tão perdida no meu auto-ódio que não cogitei que você poderia ficar do meu lado. Eu não me sentia à sua altura, mas eu queria desesperadamente ser boa o suficiente para estar ao seu lado, pra sentar nessa cadeira.”

Ela apontou para a cadeira ao lado direito da de Altador, que permanecia vazia desde a Traição.

“Então eu guardei tudo e quando não aguentei mais, decidi explodir o mundo! E a responsabilidade dessa merda é minha”, ela apontou pra si mesma, com raiva. “Porque mesmo você sendo rei, você nunca vai conseguir carregar o mundo nas costas como você parece que carrega!”

Altador se surpreendeu com a crítica, mas a acatou mesmo que ferisse seu orgulho.

“O que você me disse agora mostra que você sempre foi boa o suficiente para se sentar nessa cadeira.” ele se aproximou, enfim. “E mesmo que você tenha decidido explodir o mundo no passado, eu nunca deixei de te amar, assim como sei que nenhum deles também deixou”, ele apontou para os conselheiros, que confirmaram.

“Então é melhor que você pare com essa ideia de não ser capaz de ser amada porque a partir de hoje eu me comprometo em demonstrar meu amor por você com a maior clareza do mundo.”

Ele a envolveu num abraço intenso e saudoso, escondendo as lágrimas que escapuliram de seus olhos na curva de seu ombro.

A retornante também não conseguiu conter sua emoção uma última vez e cedeu, deitando no abraço de seu amigo.

Os dois ficaram deste jeito até que Florin pigarreou educadamente.

“Mas então, já que está tudo sendo remendado entre nós e voltamos a ser um conselho de doze membros… Poderia nos dizer o seu nome, minha flor?”

A fada das trevas corou, tinha se esquecido que parte das maldições que jogou causou o apagamento do seu nome da história.

“É Selene”, respondeu. “Meu nome é Selene”.

O Artefato

 Nova nota 7 “Vila das Fadas, casa 4”, era o endereço que Kelland lhe passara. Selene, na forma de um pequeno morceguinho, desviava de árvor...